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Carta do Leitor

A Gazeta
Autor: SANTILLI, Márcio
05 de ago de 2006

Carta do Leitor

Márcio Santilli

Senhora editora,

Sobre a notícia "Sem apoio, assentados destroem a bacia do rio Xingu", publicada por este jornal no dia 1o de agosto, gostaríamos de esclarecer que os 22 assentamentos de reforma agrária na Bacia do rio Xingu no Mato Grosso (e não 27, como afirma o texto) enfocados pelo estudo divulgado na matéria têm uma área de 358.341 hectares, o que corresponde a 2% dos 17,7 milhões de hectares de toda a região. Caso 100% das terras desses assentamentos estivessem desmatados o que está longe da verdade, mesmo porque os números a respeito ainda não foram consolidados e nenhuma informação disponível indica um cenário semelhante os assentamentos seriam responsáveis por apenas 6,5% dos 5,5 milhões de hectares desmatados nas cabeceiras do Xingu em Mato Grosso até hoje. Portanto, é incorreto afirmar que os assentamentos são responsáveis pela destruição da Bacia do Xingu.
O estudo apresentado pela notícia aponta, sim, um problema ambiental nas áreas dos assentamentos e afirma que em várias delas muitas Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente (APPs) estão degradadas porque os assentados não têm nenhum tipo de apoio, acesso a serviços públicos ou infra-estrutura, sendo obrigados a desmatar para vender a madeira de seus lotes e abrir pastos para desenvolver uma pecuária de baixa qualidade. A pesquisa, no entanto, em momento algum, diz que os assentamentos são os principais responsáveis pelos desmates nas cabeceiras do Xingu, como pode fazer supor, de forma equivocada, a manchete citada.
Ao contrário do que diz o texto do jornal, a pesquisa sobre o assunto foi executada pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), sobre o patrocínio do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), e não pelo Instituto Socioambiental (ISA).
O ISA é uma das organizações integrantes da campanha Y Ikatu Xingu, que articulou a realização do estudo e pretende proteger as nascentes e as matas de beira de rio da Bacia do Xingu no Mato Grosso. A mobilização reúne comunidades indígenas, pesquisadores, movimentos sociais, produtores rurais, universidades, agricultores familiares, poder público, ONGs e mais de 30 organizações da sociedade civil sob o objetivo comum de promover uma série de iniciativas de reflorestamento, educação ambiental, reordenamento territorial e pesquisas, entre outros, envolvendo esses diversos atores na construção da sustentabilidade socioambiental da região. Nesse sentido, um dos objetivos da campanha é justamente viabilizar economicamente os assentamentos de modo a torná-los ambientalmente sustentáveis.
As entidades que integram a mobilização acreditam que a questão do desmatamento está relacionada com a ausência de planejamento territorial, de políticas públicas e do Estado em geral. Essas organizações entendem que o problema só poderá ser resolvido se a responsabilidade por ele for compartilhada pelos vários níveis de governo e por toda a sociedade com o objetivo de implantar-se um modelo de desenvolvimento sustentável para a Bacia do rio Xingu em Mato Grosso.

Márcio Santilli é coordenador da campanha Y Ikatu Xingu pelo ISA

A Gazeta, 05/08/2006

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