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Carro flex polui menos com gasolina

OESP, Vida, p. A22
17 de Set de 2009

Carro flex polui menos com gasolina
Estudo aponta que emissão de gases poluentes é maior com álcool; entre os motivos está a adequação do motor

Afra Balazina

É muito provável que quem tenha carro com motor flex polua menos ao usar gasolina do que álcool. Os números variam de acordo com o modelo do veículo. Mas, na média, ao verificar a emissão da frota de 2008, os carros flex que usam álcool emitem mais monóxido de carbono (0,71 grama por quilômetro) do que os que utilizam gasolina (0,51 grama por quilômetro).

Em relação aos aldeídos, que ajudam na formação do ozônio - principal preocupação em áreas urbanas como São Paulo -, o carro a álcool em geral emite quase oito vezes mais.

Esses dados foram compilados pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), com base em informações da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

A população está acostumada a ouvir que o álcool é um combustível limpo por ser renovável. Isso tem peso quando se discute o aquecimento global porque suas emissões de CO2 são neutralizadas - a cana-de-açúcar absorve o gás-estufa.

Mas as novas informações prejudicam a imagem do combustível ao relacioná-lo mais diretamente à poluição do ar nas cidades. A pedido do Estado, o Iema comparou modelos de carros flex de diferentes montadoras com as informações divulgadas anteontem pelo governo federal por meio da Nota Verde.

Em geral, os carros se saíam melhor ao usar a gasolina (mais informações nesta página). Na emissão de hidrocarbonetos é grande a desvantagem do álcool no Celta, no novo Gol e no Fiesta, por exemplo. Na avaliação dos óxidos de nitrogênio, dos seis modelos avaliados, somente no novo Gol o álcool era menos poluente.

Tanto os hidrocarbonetos quanto os óxidos de nitrogênio contribuem para a formação do ozônio. Apesar de ser importante na estratosfera para proteger a Terra dos raios ultravioleta do Sol, o ozônio é prejudicial à saúde das pessoas na faixa de ar próxima do solo.

A explicação para o desempenho do álcool se deve, em parte, ao fato de o motor flex ser mais adequado à gasolina, pois o mercado mundial não utiliza o etanol. "É um sinal de que a tecnologia dos veículos flex precisa evoluir", diz André Ferreira, diretor-presidente do Iema. Segundo ele, "não se pode dizer que, por ser bom para o clima global, o álcool seja limpo."

Francisco Nigro, pesquisador da Escola Politécnica da USP, diz que, do ponto de vista do lançamento de poluentes que degradam a qualidade do ar da cidade, não há mais diferença entre gasolina e álcool. Com o Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), a gasolina teve uma melhora maior do que o álcool. E o catalisador teve importante papel na redução das emissões.

Para Nigro, agora é importante investir na formação de pessoas para trabalhar com motores no País. "O Brasil tem uma vantagem competitiva ao usar um combustível renovável e com balanço de CO2 favorável. Mas precisa se esforçar para manter a competitividade."

Isso não significa que a gasolina virou a mocinha da história. "Por vir do petróleo, ela possui componentes que produzem poluentes, como o benzeno, que os americanos chamam de perigosos. Para eles, não há limite seguro", explica Carlos Lacava, da Cetesb.

Márcio Veloso, coordenador-substituto do Proconve, reforça que os carros atendem ao padrão. "Podem até emitir mais quando se usa o álcool, mas estão dentro do que estabelece a lei." Mesmo assim, 11.559 pessoas com mais de 40 anos morrem por ano nas seis maiores capitais em razão da poluição do ar, segundo estudo da USP e seis universidades federais.
Colaborou Mariana Mandelli

Saiba mais

Por que os dados de emissão não foram divulgados antes?
Não há explicação. Os testes que verificam as emissões dos carros são feitos desde a criação do Proconve, em 1986

Qual a diferença entre gases poluentes e gases-estufa?
Os gases poluentes provocam a poluição do ar nas cidades e podem causar doenças. Já os gases de efeito estufa são responsáveis pelo aquecimento global, ou seja, afetam o clima do planeta

Por que o álcool emite, em geral, mais gases poluentes que a gasolina no motor flex?
O motor flex está mais adaptado à gasolina, usada no mundo todo, do que ao álcool. E mais: a qualidade da gasolina melhorou e o catalisador ajuda a reduzir as emissões

Dados foram publicados em site e depois retirados pelo governo
Página teria sido desativada para a inclusão de informações sobre CO2

Afra Balazina

Ao divulgar nesta semana a Nota Verde - que avalia os veículos a partir da emissão de três poluentes (monóxido de carbono, hidrocarbonetos e óxido de nitrogênio) -, o governo federal atendeu também a uma solicitação do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

O órgão cobrava maior divulgação dos dados de emissões dos veículos pelo governo. A reportagem de capa da revista do Idec deste mês mostrou a falta de transparência das montadoras sobre as emissões de gases dos veículos.

Até meados de agosto, porém, uma página no site do Ibama permitia a comparação de dados ambientais de todos os modelos fabricados no Brasil em 2008. O Idec enviou carta ao Proconve questionando por que as informações não eram divulgadas "ostensivamente" e por que apenas os modelos fabricados em 2008 haviam sido avaliados. "No entanto, antes que o instituto recebesse resposta, a Nota Verde foi retirada do ar", afirmava a reportagem na revista do instituto.

Ao questionar o Proconve sobre o ocorrido, o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) teria respondido. "Segundo o ministro, a metodologia da Nota Verde não havia sido aprovada e, portanto, seu website nem poderia ter ido ao ar", diz o texto. Minc teria se comprometeu, então, a republicar a Nota Verde em cerca de um mês. A assessoria do ministério afirma que Minc não der ordem para que o site fosse desativado.

Segundo Márcio Veloso, coordenador-substituto do Proconve, os dados foram publicados primeiramente para "verificar qual era o grau de interesse sobre o assunto". Ficou acessível por cerca de um mês e meio, mas depois a página foi retirada do ar para a inclusão de informações sobre CO2, principal gás causador da mudança do clima.

Para André Ferreira, do Instituto de Energia e Meio Ambiente, a questão que fica é porque se demorou tanto para divulgar as emissões dos carros.

Há quem questione a escolha dos poluentes que representam a Nota Verde. Uma crítica é a não inclusão dos aldeídos, que deixariam o álcool em maior desvantagem. Segundo Veloso, optou-se pelos parâmetros mais comuns. Mas a metodologia poderá ser alterada. "Este é só o início, um balão de ensaio."

Entenda a diferança

Monóxido de Carbono (CO): Incolor e inodoro, resulta da
queima incompleta de combustíveis de origem orgânica. É encontrado em maiores concentrações nas cidades, emitido principalmente por veículos. Efeitos na saúde: pode provocar cansaço. Pessoas com doenças cardíacas têm cansaço e dor no peito agravados

Ozônio (O3): É formado pelas reações entre os óxidos de
nitrogênio e compostos orgânicos voláteis, na presença de luz solar. Além de prejuízos à saúde, pode causar danos à vegetação. O
ozônio encontrado na faixa de ar próxima ao solo, onde respiramos, é tóxico. Entretanto, na estratosfera (a cerca de 25 quilômetros de altitude), o ozônio tem a importante função de proteger a Terra, como um filtro, dos raios ultravioleta. Efeitos na saúde: agrava problemas respiratórios em crianças e pessoas com doenças pulmonares

Hidrocarbonetos (HC): São gases e vapores resultantes da queima incompleta e evaporação de combustíveis e de outros produtos orgânicos voláteis. Diversos hidrocarbonetos, como o benzeno, são
cancerígenos

Óxidos de Nitrogênio (NOx): São formados nos processos de combustão. Em grandes cidades, os veículos geralmente são os principais emissores. Têm papel importante na formação de ozônio. Efeitos na saúde: pode provocar ardor nos olhos, nariz e garganta, tosse seca e cansaço

Entidade diz que divulgação confunde
Para representante da indústria da cana, dados comprometem os flex
Afra Balazina

O presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, afirma em nota à imprensa que, da forma como foram apresentados os dados do Ministério do Meio Ambiente, houve um comprometimento não apenas da imagem do álcool, mas também dos próprios carros flex, ambos promovidos frequentemente pelo Brasil para o resto do mundo como peças importantes na luta contra o aquecimento global. Jank também cobra que as montadoras adaptem melhor seus motores flex para o álcool.

"Nossos carros flex, que já respondem por mais de 90% das vendas de veículos leves, ainda vêm com motores a gasolina adaptados para funcionar também com álcool, o que diminui a eficiência desses últimos. A vasta maioria dos compradores de carros flex usa etanol, e o etanol já é mais consumido do que a gasolina no Brasil", afirma. Para Jank, "falta uma mensuração correta das emissões, para que as montadoras reconheçam essa realidade e otimizem seus carros para o etanol e não para a gasolina. Assim, estariam atendendo às reais necessidades dos consumidores", completou, por meio de nota.

A entidade aprova a ideia de estabelecer índices de avaliação de emissões de veículos, mas lamentou "a forma como a primeira tentativa de atingir esse objetivo foi conduzida pelo Ministério do Meio Ambiente".

"A Unica avalia que, em vez de produzir dados precisos, que ajudem o consumidor no momento de adquirir um automóvel, a divulgação feita pelo ministério serviu principalmente para confundir", diz a nota.

Segundo a Unica, é grave a não inclusão dos dados de emissão de gás carbônico (CO2), óxidos de enxofre (SO2) e partículas. "É decepcionante constatar que quando finalmente surge um indicador, que é o que desejamos, as emissões de dióxido de carbono ficam de fora, ignorando a existência de grandes esforços mundiais para desenvolver e adotar os chamados combustíveis de baixo carbono", completa o texto.

ANFAVEA

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) diz que as montadoras aperfeiçoam constantemente os motores. Segundo a entidade, o álcool polui mais por consumir maior quantidade de combustível por quilômetro rodado. Por isso o preço é cerca de 25% menor que o da gasolina. Ou seja, gasta-se mais álcool, portanto ele também é mais barato.

Motor a gasolina foi alterado para criar flex

Motores flexíveis são, basicamente, os movidos somente a gasolina submetidos a alterações para rodar com etanol puro (E100) ou misturado ao combustível fóssil em qualquer proporção. A tecnologia consiste na capacidade de o sistema de injeção eletrônica reconhecer e adaptar, automaticamente, os parâmetros de funcionamento do motor para qualquer proporção de mistura de álcool e gasolina presente no tanque. O primeiro carro com motor flexível lançado no País foi o Volkswagen Gol 1.6, que começou a ser vendido em março de 2003. Jornal da Tarde

OESP, 17/09/2009, Vida, p. A22

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