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Carolina Mourão e Luiz Ferreira

Eco.com.br
07 de ago de 2005

A tribo dos suruwa-há, que tem terras demarcadas próximas ao município
de Tapauá, no sul do Amazonas, há muito é alvo de uma disputa religiosa.
De um lado está o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que defende
uma assimilação muito lenta e mais gradual ainda do mundo dos brancos
pela tribo desde que o primeiro contato com ela foi feito, pela Pastoral
Indígena da Prelazia de Labre, em 1980.

Tudo ia muito bem até 1985, quando apareceram no pedaço missionários da
Jovens com uma Missão (Jocum), uma organização financiada por
evangélicos fundamentalistas americanos que tem uma prática
completamente oposta à do Cimi em relação aos indígenas. Fazem trabalho
e alfabetização com a Bíblia e, segundo Paulo Adário, coordenador da
Campanha Amazônia do Greenpeace, não hesitam em condicionar a prestação
de serviços médicos à adesão a palavra de Deus.

Cimi e Jocum chegaram a se enfrentar na Justiça do Amazonas em 2000 por
causa dos suruwa-hás. Os católicos denunciaram a ação do Jocum ao
Ministério Público estadual junto à tribo. O MP ordenou que todos os
missionários, de qualquer religião, abandonassem a área. "Eles não
obedeceram à ordem judicial. Então decidimos ficar também", contra Pedro
de Silva e Souza, do Cimi. A coisa acalmou um pouco, mas recentemente, a
briga voltou a esquentar por causa de uma criança suruwa-há que nasceu
no início do ano.

Segundo a Fundação Nacional de Saúde
(Funasa), tudo começou quando uma equipe médica da
Força Aérea Brasileira (FAB) esteve na região
amazônica para auxiliar na campanha de vacinação indígena em abril. Dois
médicos da FAB e duas enfermeiras da Funasa diagnosticaram a necessidade
de exames mais específicos em uma criança de quatro meses na aldeia dos
suruwa-hás. Suspeitavam de um caso de hermafroditismo.

Autorizada pelo Distrito Sanitário Especial Indígena Médio Purus, a
Funasa então retirou a criança da aldeia na primeira semana de junho
para a realização dos exames em Porto Velho (RO), onde há equipamentos
mais adequados. De lá, ela foi encaminhada para São Paulo no dia 19 de
julho. A mãe, o pai, o avô, um irmão e mais dois membros da tribo foram
junto.

Responsável direta pelo tratamento médico público de índios desde agosto
de 1999, quando um decreto tirou as atribuições de saúde indígena da
Fundação Nacional do Índio (Funai), a Funasa
permitiu que o acompanhamento dos Suruwa-há na cidade ficasse a cargo de
membros da
Jocum. A Jocum ganhou da autoridade sanitária o direito de cuidar dos
índios na cidade.

Mesmo tendo seu território invadido e sendo pressionados a aceitar a
catequização, os 144 membros que atualmente formam a tribo dos suruwa-há
conseguiram preservar as suas características culturais e seus
comportamentos nativos. E entre todas as tradições há uma que torna essa
história mais perigosa. Os suruwa-hás, como outras tribos, têm um
expediente radical para reagir a situações de pressão, tensão ou
humilhação: o suicídio coletivo.

Para o indianista Sidney Possuelo, que há 30 anos comanda pela Funai
expedições de primeiro contato com os últimos índios isolados da
Amazônia, o impacto que o tratamento médico está causando entre os
suruwa-hás é grande. "Esse tipo de índio fica mais deprimido e
dependente da parafernália que jamais poderia manter. Não consegue
digerir isso e fica de 'espinha quebrada', sem saída". Espinha quebrada
é um termo utilizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro e significa um tipo
de derrota moral incurável que leva à depressão e ao possível suicídio,
uma tendência forte em se tratando dessa tribo.

A sucessão de equívocos continua. Para a Funasa, a intervenção na tribo
não é um fato preocupante. Desde 2001 alguns indígenas suruwa-hás vêm
sendo retirados da aldeia para tratamentos médicos, principalmente
contra picadas de cobras. Mas Possuelo alerta: "Mesmo que partisse da
tribo o pedido de ajuda de fora, seria preciso uma estrutura monumental
para que a visita a São Paulo não gerasse choque nos grupos que saem".

Se para os índios que estão em São Paulo o impacto cultural com a cidade
é o maior desafio, para os que ficaram na tribo o problema não é
diferente. "Uma intervenção considerada grave, o suicídio indígena é
como um canal natural para eles. Dessa maneira, a pressão contra esse
traço cultural causar ainda mais problemas", explica Possuelo.

Na cidade, os índios estão isolados e não há garantia sobre seu estado
de saúde. Os próprios membros da Jocum, que se propuseram a apenas
acompanhá-los na capital paulista, já se fazem donos dos suruwua-há. Os
índios vivem como animais raros aprisionados, sendo proibida qualquer
verificação ou explicação sobre suas condições. A Jocum guarda a sete
chaves o paradeiro dos índios que foram para São Paulo e sequer a Funasa
do estado conseguiu localizá-los.

Possuelo prevê um final nada feliz para essa saga: "Esses índios são
semi-isolados. Os parâmetros desses que foram recém contactados são
muito subjetivos. O dano desse flerte com o mundo civilizado pode ser
fatal para eles". Literalmente.

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