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Cantareira tem perdas desde maio de 2013 e déficit já equivale a 4 meses de consumo

OESP, Metrópole, p. A12
04 de Ago de 2014

Cantareira tem perdas desde maio de 2013 e déficit já equivale a 4 meses de consumo
Levantamento do Estado mostra que retirada de água supera chuva há 15 meses consecutivos; para contornar situação, Sabesp deve começar ainda em agosto a retirada do volume morto da Represa Atibainha, mas reserva só dura até outubro.

Fabio Leite e Rodrigo Bugarelli

Na pior seca dos últimos 84 anos, o Sistema Cantareira registrou pela primeira vez na história 15 meses consecutivos de déficit. Levantamento feito pelo Estado com base em dados oficiais revela que, desde maio de 2013, o maior manancial paulista perde mais água do que recebe. O prejuízo chegou a 647,4 bilhões de litros ao fim do mês passado, o equivalente a 66% da capacidade útil ou mais de 4 meses de consumo de toda a Grande São Paulo.
No período, o volume de água retirado das represas para abastecer cerca de 14 milhões de pessoas na Grande São Paulo e na região de Campinas foi mais do que o dobro do que entrou no sistema. Setembro de 2013, quando se fecha normalmente o período de estiagem iniciado em abril, foi o mês com o maior saldo negativo: 69,2 bilhões de litros a menos. À época, o Cantareira estava com mais de 40% da capacidade.

Banco de águas. Tamanho déficit ocorreu porque antes da crise do Cantareira ter sido decretada, no fim de janeiro, a retirada de água dos reservatórios chegou a superar em mais de 6% a vazão máxima estabelecida na outorga de 2004. Isso só foi possível por causa da regra do banco de águas, uma espécie de estoque virtual que permite à Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e às cidades da Bacia dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) captarem a mais a parcela não utilizada de suas cotas no mês anterior.
Para o engenheiro e membro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, José Roberto Kachel, os dados mostram que desde 2012 o Cantareira já dava sinais de que passava por estiagem. "As afluências médias de 2012 e 2013 foram bem próximas das de 1953 e 1954, que eram a pior da história até então. Se tivessem se atentado a isso e reduzido a captação do Cantareira, não estaríamos utilizando o volume morto hoje", afirma.
"Realmente tivemos dois anos seguidos muito secos, que fizeram com que os reservatórios baixassem. O que não estava previsto é que meses como novembro, dezembro, janeiro e fevereiro, que são chuvosos, fossem tão secos", explica o professor de Engenharia Hidráulica da Universidade de São Paulo (USP), Rubem La Laina Porto, que exprime a mesma posição defendida pela Sabesp e pela Bacia dos Rios PCJ, que partilham a água do Cantareira.
"A retirada de água ocorreu conforme o contexto do período e dentro das regras do sistema. Jamais alguém poderia imaginar essa estiagem tão forte. Quando vislumbramos esse cenário, em dezembro, nós já iniciamos as medidas de contingência", disse o coordenador de projetos do Consórcio PCJ, José Cezar Saad.
Foi entre dezembro e janeiro que a Sabesp iniciou na Grande São Paulo a reversão de água dos Sistemas Alto Tietê e Guarapiranga para bairros da capital paulista que eram abastecidos pelo Cantareira. Em fevereiro, foi lançado o programa de desconto na conta para quem economizar água, seguido da redução da pressão noturna na rede de distribuição, revelada pelo Estado em abril. Em maio, a companhia divulgou que as ações haviam garantido uma redução de 27% no volume retirado do manancial e evitado um rodízio de 36 horas com água e 72 horas sem fornecimento.

Volume morto. Além das queixas de falta d'água, as medidas não impediram que o nível do manancial continuasse caindo. Em junho, o volume útil do Cantareira zerou pela primeira vez na história e a Sabesp começou a inédita retirada de 104 bilhões de litros do volume morto das represas Jaguari-Jacareí, na região de Bragança Paulista. Até este domingo, 3, 66,7% já haviam sido sugados. Ainda neste mês, a empresa deve iniciar a captação de 78 bilhões de litros da reserva profunda da Represa Atibainha, em Nazaré Paulista.
Com a estiagem ainda mais aguda, o déficit voltou a subir em julho, quando o volume de água retirado do sistema foi 446% maior do que o que entrou, resultando em uma perda de 50 bilhões de litros. As projeções apontam que a primeira cota do volume morto do Cantareira deve acabar em outubro. A Sabesp já pediu autorização aos órgãos gestores do manancial para retirar 116 bilhões de litros adicionais da reserva.

ANA quer limitar captação à chuva

A Sabesp trava com os órgãos gestores do Cantareira, tendo a Agência Nacional de Águas (ANA) à frente, uma difícil negociação sobre a quantidade de água que poderá ser retirada do manancial nos próximos meses. Enquanto a agência federal defende uma liberação de água proporcional ao volume que entra nos reservatórios, a estatal paulista quer manter a vazão atual de 19,7 mil litros por segundo para não ser obrigada a decretar racionamento na Grande São Paulo. E ainda quer usar uma segunda cota do volume morto.

Oito cidades economizam 2 bi de litros

Letícia Guimarães dos Santos

Por causa da crise hídrica no Estado, oito cidades da região de Campinas adotaram o racionamento de água como medida para garantir o recurso a toda a população. Com a atitude, os municípios de Valinhos, Vinhedo, Rio das Pedras, Nova Odessa, Saltinho, Cosmópolis, Santo Antônio de Posse e Cordeirópolis, juntos, economizaram cerca de 2 bilhões de litros de água.
Para se ter uma ideia, Campinas, que possui 1.144.862 habitantes, consome diariamente por volta de 300 milhões de litros de água por dia, sendo que a quantidade economizada seria suficiente para abastecer a cidade por seis dias e meio.
Dos oito municípios que adotaram o racionamento, Valinhos foi o que mais conseguiu poupar. A redução do consumo, proposta pelo governo da cidade desde fevereiro, rendeu economia de 1,4 bilhão de litros de água. O nível da barragem do Figueira, que abastece a cidade, subiu de 20% para 50% com a iniciativa, segundo o Departamento de Água e Esgoto (Daev), que garantiu que até o final do ano o abastecimento da população.

Continuidade. Mesmo com a economia significativa, as oito cidades continuarão com a medida de racionamento por conta da estiagem da região e pela falta de perspectiva de chuva forte que possa restabelecer as reservas.

Racionando há 6 meses, Itu está perto do colapso

José Maria Tomazela

Seis meses após adotar o racionamento, no início de fevereiro, a cidade de Itu, na região de Sorocaba, está à beira do colapso total no abastecimento. Desde o dia 7 de julho, o centro e 133 bairros da região central estão recebendo água apenas dez horas a cada dois dias. Nas regiões mais distantes do centro, moradores afirmam que recebem água apenas uma vez por semana, em quantidade insuficiente para encher as caixas domiciliares. A população compra água e recorre até a nascentes para se abastecer.
De acordo com a concessionária Águas de Itu, o racionamento drástico é necessário em razão da alta no consumo e da falta de previsão de chuvas. A Represa do Itaim, um dos principais reservatórios que atendem a cidade de 160 mil habitantes, está com apenas 4% da capacidade. A concessionária admitiu que as partes mais altas podem receber água com atraso devido à falta de pressão no sistema de distribuição. "Para melhorar a oferta de água, a concessionária tem realizado a transposição de represas particulares e utilizado 80 poços artesianos, informou a empresa.
Calamidade. O Ministério Público Estadual em Itu já notificou a prefeitura para decretar estado de calamidade pública no município. A medida possibilitaria a contratação emergencial de caminhões-tanque e a busca de água em outras cidades.

OESP, 04/08/2014, Metrópole, p. A12

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,cantareira-perde-agua-de…

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http://www.estadao.com.br/noticias/geral,itu-vive-colapso-apos-seis-mes…

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