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Cancún, plataforma de lançamento

O Globo, Opinião, p. 6
14 de Dez de 2010

Cancún, plataforma de lançamento

A impressão que se tem, na questão climática, é que as geleiras derretem à velocidade de um guepardo, enquanto as conferências da ONU avançam a passo de cágado. Da COP-16, encerrada domingo em Cancún, quase nada se esperava, já que o mecanismo global que negocia em que direção deve ir o mundo para evitar uma catástrofe climática estava ainda sob o impacto dos modestos resultados da COP-15, no ano passado, em Copenhague.
Diante disso, otimistas encontrarão motivos para regozijo nas conclusões de Cancún. Das mais importantes foram os avanços na criação do Fundo Verde, que financiará a adaptação de países pobres e emergentes aos efeitos das mudanças climáticas, bem como sua migração para uma economia de baixo carbono. Definiu-se que serão US$ 30 bilhões até 2012 e depois, até 2020, US$ 100 bilhões anuais, provenientes dos países ricos. Mas a decisão sobre quem destinará quanto ficou mesmo para a próxima conferência climática da ONU, em Durban, África do Sul, no ano que vem.
Outro avanço considerável em Cancún foi a oficialização do Acordo de Copenhague, que estabelece compromissos - como evitar que a temperatura global aumente mais que 2 graus em relação aos níveis pré-Revolução Industrial. Porém, mais uma vez os países não adotaram limites para as emissões de carbono. É outro desafio que fica para Durban, em 2011.
O Brasil teve atuação positiva na COP-16, reafirmando o compromisso de reduzir de 36% a 39% suas emissões de gases-estufa até 2020, em relação aos níveis de 2005. Continua sendo, assim, um dos poucos países a se comprometer com metas específicas.
A Conferência de Cancún criou ainda mecanismos de incentivo à preservação de grandes florestas tropicais em países como Brasil, Indonésia e Congo, reduzindo desta forma as emissões poluentes geradas pelo desmatamento, responsáveis por cerca de 15% da liberação global dos gases-estufa. O mecanismo denominado REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) teve seus aspectos técnicos definidos e sua regulamentação concluída.
Digna de registro também foi a mudança de postura de China e Índia em relação à inflexibilidade exibida em Copenhague. Foi a Índia quem quebrou agora o impasse sobre o monitoramento de emissões, e a China quem propôs soluções para a retomada de Kioto. Ambos os países confirmaram ainda sua disposição de considerar metas compulsórias de cortes de emissões.
Cancún não alcançou o acordo abrangente que muitos ativistas e governos desejavam. Mas teria estabelecido a plataforma sobre a qual esse compromisso poderá ser construído. Os dispositivos do Protocolo de Kioto, arcabouço para toda ação global de combate às mudanças climáticas, expiram em 2012. Para que sua próxima fase comece a vigorar no início de 2013, todos os países terão de, finalmente, chegar a um acordo definitivo em Durban. Novos atrasos terão custo inimaginável para as futuras gerações.

O Globo, 14/12/2010, Opinião, p. 6

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