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'Canavieiro é o pior serviço que existe'

OESP, Economia, p. B10
31 de Mar de 2007

'Canavieiro é o pior serviço que existe'
Um dia antes de morrer, Martins disse que o canavial era 'seu último recurso'

José Maria Tomazela

O cortador de cana-de-açúcar José Pereira Martins, de 51 anos, reclamou da "dureza" do seu trabalho um dia antes de morrer, num canavial de Guariba. Ele disse ao Estado que o trabalho de cortador era "muito pior" do que o de pedreiro. "Canavieiro é o pior serviço que existe."

A reportagem do Estado entrevistou Martins no início da noite de quarta-feira em sua casa, no bairro Vila Varela, periferia de Guariba. No dia seguinte, acompanhou o que seria a última viagem do cortador para o canavial. Martins caminhava pela rua, com a cortadora Ana da Conceição, de 37 anos, moradora do mesmo bairro, quando foi abordado pela reportagem. Pediu que o procurassem depois, em casa, pois estava ansioso por um banho.

Ele atendeu no portão, depois de ser avisado pela mulher. Foi logo dizendo que a casa, de padrão médio para um bairro periférico, tinha sido construída quando trabalhava como pedreiro. Contou que trabalhava nos canaviais da Usina Cosan havia 4 anos e 6 meses.

Ele reclamou da dureza do serviço. "Estou nessa porque é o último recurso." Ele se queixou do cansaço e de dores na coluna. Como tinha 25 anos de serviço em carteira, estava mexendo com a aposentadoria. "Está meio difícil."

Naquela semana, estava trabalhando no plantio, mas logo ia começar a colheita. À pergunta se o cansaço seria maior, respondeu. "É pior, mas quem está na chuva..."

O salário era outra queixa.Martins disse que no plantio tirava entre R$ 450 e R$ 500 por mês. Já na safra, o ganho subia para R$ 700 ou R$ 750. "Você se mata e no final do mês mal dá para pagar as contas."

No dia seguinte, a reportagem acompanhou a última viagem do cortador José Pereira Martins. O dia não tinha clareado e ele já estava no ponto, sentado em um galão de água. Logo chegou a amiga Ana. Trocaram um cumprimento breve. Quando o ônibus chegou, ele sentou-se na parte da frente e viajou calado. Repórter e fotógrafo também embarcaram.

O coletivo percorreu várias ruas da cidade, recolhendo trabalhadores. Logo estava lotado com 50 bóias-frias. Depois, o ônibus pegou a rodovia na direção de Matão e entrou numa estrada de terra. Houve uma parada na usina para a distribuição de funções - os repórteres tiveram de desembarcar, mas seguiram o ônibus por canaviais poeirentos. Quando parou, Martins e Ana desceram.

Naquele dia, iriam primeiro capinar, depois cortar cana para o plantio. Antes do trabalho, eles iniciaram uma sessão de ginástica laboral. Martins sumiu no meio do canavial, enquanto os repórteres eram convidados pelos encarregados da usina a deixar o local.

Ele passou mal após o almoço e, segundo a assessoria da usina, foi socorrido e levado para o hospital.

POLÊMICA

A morte de Martins volta a reacender a polêmica sobre o excesso de esforço em lavouras de cana-de-açúcar. O atestado de óbito, emitido pelo Centro de Medicina Legal (Cemel), de Ribeirão Preto, indica que a morte ocorreu por enfarte agudo do miocárdio. E Martins estava trabalhando no plantio, um serviço leve, comparando-se com o ritmo pesado e sofrido do corte de cana. Porém o Ministério Público do Trabalho (MPT), da 15ª Região, vai investigar também esse caso de morte no campo, o 18o nos últimos anos - os outros 17 ocorreram com cortadores de cana.

Martins foi o primeiro trabalhador a morrer em canaviais este ano no Estado de São Paulo. Nascido em Araçuaí (MG), morava em Guariba nos últimos 30 anos, onde fez diversos outros serviços antes de, em 1999, ir para os canaviais.

Ele já queria parar e mudar para Campinas com a mulher Maria Margareth para ficar perto dos filhos Edson e Robson. "Já estavam se preparando para mudar, era a última vontade dele", disse Michele, mulher de Edson. A família ficou abalada com a morte repentina de Martins, que não tinha problemas de saúde, mas se queixava à mulher, nos últimos dias, de cansaço e do calor. "Foi um baque para todos", explicou Michele.

A mulher e os filhos não querem falar mais sobre a morte do trabalhador, mas Michele mencionou que a família acredita que Martins tenha sido vítima de excesso de esforço físico nos canaviais. "A família só quer os direitos dele e nada fará contra a usina", informou ela, que se mostrou descrente contra qualquer tipo de punição às empresas por morte no campo. "É mais um caso que será investigado, mas ninguém faz nada."

Serra quer rigor para canavial
Governador pede mudanças na lei sobre uso de fogo

Brás Henrique

A morte esta semana, em Guariba, do bóia-fria José Pereira Martins, que completaria 52 anos na segunda-feira, será lembrada hoje, durante a campanha "Basta de queimadas! Queremos respirar", em Ribeirão Preto, com cartazes de cruzes brancas simbolizando os óbitos ocorridos nos canaviais.

"Fazemos essa campanha desde 1988 e vamos distribuir 5 mil adesivos e panfletos à população sobre os malefícios da queimada da cana-de-açúcar à saúde e ao meio ambiente", comentou a diretora da Associação Cultural e Ecológica Pau-Brasil, Simone Kandratavicius.

COBRANÇA

O governador José Serra quer apressar o fim das queimadas nos canaviais, método largamente usado no Estado na preparação da colheita. Ele disse ontem que já determinou mais rapidez nos estudos para alterar a legislação atual, considerada muito tolerante.

Uma lei estadual estabelece a redução gradual do uso do fogo nos canaviais até 2031. Em Itapeva, sudoeste do Estado, o governador afirmou que as queimadas agravam as condições de saúde dos trabalhadores e causam impacto grande ao meio ambiente, prejudicando toda a população. "Hoje, são queimados 2,5 milhões de hectares todo ano, 10% da superfície do Estado."

As declarações de Serra ocorrem na semana em que o bóia-fria Martins morreu supostamente por excesso de trabalho no plantio de cana-de-açúcar

Mesmo reconhecendo que a cana-de-açúcar gera riqueza para o Estado, Serra lembrou que precisam ser minimizados os impactos sociais e ambientais. A fumaça e a fuligem geradas no processo de queima poluem o ar e atingem as cidades. "Isso é inaceitável, porque afeta a saúde da nossa população."

Ele disse que o governo está preparando uma nova regulamentação sobre o tema.

A queima da cana elimina a palha e facilita o trabalho de corte nos canaviais, mas causa impacto ambiental. O rendimento do trabalho humano no corte da cana crua é mais baixo, tornando vantajosa para as usinas a mecanização, com o conseqüente corte de mão-de-obra.

O governador disse que os órgãos técnicos do governo estão analisando todos os ângulos da questão. Ele não fixou o prazo em que esse estudo será concluído. "Estamos revisando o que já existe e proximamente apresentaremos a nossa decisão."

Serra disse que a proposta do governo será bem fundamentada, "para que seja exeqüível", mas será "muito rigorosa".

OESP, 31/03/2007, Economia, p. B10

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