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Canadá é favorito ao Fóssil do Ano

O Globo, Ciência, p. 38
02 de Dez de 2011

Canadá é favorito ao Fóssil do Ano
Prêmio é dado por ONGs ao país que mais emperra negociações climáticas

Renato Grandelle
renato.grandelle@oglobo.com.br

RIO - Para o Oscar, há o Prêmio Framboesa. Ao Nobel, se contrapõe o IgNobel. As conferências do clima não poderiam ficar sem o que destaque seus maus exemplos. Para isso a ONG Climate Action Network e seu júri de 700 ativistas elegem o Fóssil do Dia.
Entregue desde 1999, sempre em convenções climáticas, a láurea é concedida ao país que, a cada dia de encontros internacionais, faz o melhor para emperrar as negociações.
A brincadeira cresceu e hoje conta com hino e uma taça de verdade, com um tiranossauro no topo. O troféu é dado em dezembro ao Fóssil do Ano -
uma compilação dos resultados dos últimos doze meses.
O tetracampeão Canadá é favoritíssimo a receber, mais uma vez, a discutível honraria. O vexame é tamanho que, segundo os ativistas, o ministro do Meio Ambiente do país, Peter Kent, prometeu receber menos fósseis que seus antecessores.
Kent, que ocupa a pasta desde janeiro, parece ter esquecido o compromisso. Nos três primeiros dias da conferência de Durban, o Canadá conquistou dois Fósseis; a Polônia ficou com o outro. Ambos os países são acusados de fazerem lobby para indústrias de combustíveis fósseis, em vez de lutarem por fontes de energia limpa.
No boletim de ocorrência canadense pesam ainda outras acusações. O país deixou ambientalistas boquiabertos ao anunciar que poderia deixar o Protocolo de Kioto, acordo do qual é signatário - e cuja renovação é o principal tema de Durban. Seus negociadores também questionaram publicamente a criação de um fundo climático, acertado em Cancún, no ano passado. Com ele, as nações desenvolvidas investiriam US$ 100 bilhões para que as mais pobres troquem sua matriz energética, baseada em carvão e petróleo.
- O governo canadense é claramente influenciado por indústrias como a que explora as areias betuminosas (uma abundante fonte de petróleo de seu território) - protesta David Turnbull, diretor da Climate Action Network. - Mas, embora esperássemos este seu mau comportamento, as declarações até aqui foram impactantes.
Idealizador do Fóssil do Dia, Turnbull espera que a láurea sirva como um alerta global.
- Ficaríamos encantados se os países aceitassem o prêmio quando o recebem, mas é muito incomum que as delegações se disponham a pegá-lo - lamenta. - O Fóssil do Dia é um modo de colocar sob os holofotes quem adota ações contra o que é necessário. Mas é, também, uma forma de instigar o diálogo.
O Brasil segue como uma menina-dos-olhos das ONGs, porque, segundo Turnbull, "tem um papel muito positivo nas discussões". Nada, porém, que os acontecimentos de Brasília não possam mudar.
- Há muitos olhos sobre as decisões ligadas ao Código Florestal - alerta. - Se dali sair algo negativo, isso pode denegrir os esforços domésticos brasileiros, assim como seu papel na luta internacional para refrear o desmatamento.
Em Durban, segue o impasse entre países em desenvolvimento. Índia, China e Brasil acreditam que as nações ricas devem cumprir os compromissos existentes, antes de se discutirem novos; as nações mais pobres, porém, querem que um novo acordo climático seja debatido imediatamente.

O Globo, 02/12/2011, Ciência, p. 38

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