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Cana ainda é combustível para o trabalho escravo

CB, Economia, p. 15
14 de Mai de 2007

Cana ainda é combustível para o trabalho escravo
"Gatos" e empresários continuam explorando nordestinos no ciclo de expansão econômica de cidades do Triângulo Mineiro

Amaury Ribeiro JR.
Do Estado de Minas

Em janeiro deste ano, um grupo de 70 trabalhadores do município de Ibiassuce, na Bahia, recebeu uma proposta tentadora de um "gato"(agenciador de bóias-frias), para trabalhar nos canaviais da Fazenda Lagoa da Prata no município de Perdizes, no Triângulo Mineiro. O gato, que se identificou apenas como "Zoinho", garantiu que os cortadores de cana, além de um salário de R$ 400, teriam direito a uma remuneração extra por produção e ajuda de custo para alimentação.

Os trabalhadores começaram a perceber que haviam sido enganados logo na viagem de ida para Minas. Espremidos em pé num ônibus velho, os trabalhadores não receberam nem mesmo dinheiro para comer durante a viagem. O sofrimento só acabou três meses depois. Trabalhando sem receber praticamente nada, entraram em greve em abril. Em protesto à exploração, os trabalhadores decidiram sair em passeata pela ruas da cidade.

"Vivíamos praticamente em regime de escravidão. Não tínhamos carteira assinada e os funcionários fazenda, além de roubarem na pesagem da cana, descontavam R$ 170 por mês por uma cesta básica que só tinha feijão e salsicha. No final do mês, a gente sempre estava devendo para os patrões", afirmou o trabalhador rural, Raimundo da Silva.

Por solicitação do procurador do Trabalho, Elias Queiroz, os proprietários da fazenda tiveram de assinar um termo de acordo com os trabalhadores. Os lavradores foram indenizados com um salário de R$ 380 e receberam uma ajuda de custo de R$ 100, a fim de retornarem para a Bahia.

Mas não é sempre que os retirantes nordestinos conseguem receber seus direitos nos canaviais de Minas. Trabalhando há cinco meses para o gato Juarez César de Carvalho, dono do Armazém Carvalho, o cortador de cana alagoano Jaílton Lopes disse que não recebe salário há cinco meses. "E o pior é que não posso ir embora porque o Juarez apreendeu os meus documentos", afirma. A denúncia de Jaílton é reforçada pelo cortador de cana alagoano Leandro dos Santos da Costa, que trabalhou até abril na empresa Mitsvo Naga, de propriedade do "gato". Ele afirma que até hoje não recebeu a indenização trabalhista ."Nem mesmo o fundo de garantia foi depositado. Os trabalhadores rurais explorados raramente reclamam porque são ameaçados por Juarez , que anda armado", afirma o trabalhador.

Essa não é a primeira vez que Juarez é acusado de explorar os cortadores de cana nordestino. Em 2005, quando trabalhava para a Usina Delta, o "gato" foi preso pela Polícia Federal sob a acusação de manter em regime de escravidão 170 cortadores de cana. Foi preso, também, o sócio de Juarez no armazém Lélio Zanuto.

Recrutados por Jaurez em Alagoas, os trabalhadores eram obrigados a comprar no supermercado do "gato", que vendia alimentos a preços superfaturados. Como garantia, os bóias-frias eram obrigados pelos donos do armazém a deixar os cartões bancários e as senhas bancárias. Juarez e Zanuto também engordam suas contas emprestando dinheiro para os trabalhadores a juros altos. "No final de cada mês, os comerciantes reuniam todos os 170 cartões, sacavam o dinheiro, abatiam o débito e entregavam uns trocados para os trabalhadores
que contraíam cada um, em média, R$ 700 em dívidas no armazém", explicou o delegado da Polícia Federal Davdson Chagas, que indiciou Zanuto e Juarez por aliciamentos de trabalhadores e crime contra a organização do trabalho.

Demitido da usina Delta,Juarez montou a própria empresa, que recruta trabalhadores para usineiros da região. Respondendo processo em liberdade, o "gato" comprou a parte de Zanuto no armazém. Os trabalhadores e moradores da região garantem que ele continua se apossando dos cartões.

Segundo os moradores, o mesmo procedimento é tomado praticamente por outros estabelecimentos comerciais da cidade. "No dia do pagamento, o banco fica cheio de pessoas carregando dezenas de cartões. Isso é, no mínimo, estranho", afirma o prefeito do município, José Estáquio da Silva (PMN).

Na carteira: R$ 1,69

Trabalhando mais de oito horas por dia no município de Conceição de Alagoas (MG), o trabalhador rural cearense Daniel da Silva (foto), 23 anos, foi registrado pelo gato Arnaldo Jerônimo com um salário de R$ 1,69 por mês (veja círculo ao lado).Na carteira não consta nem mesmo a data em que o cortador de cana foi contratado "Esse registro só serve para a empresa dizer que eles não estão descumprindo a lei. Na verdade eu recebo por produção ", afirma. Ganhando pouco mais de R$ 300 por mês,Daniel divide o aluguel de uma casa de dois cômodos em Conceição de Alagoas com outros sete cortadores de cana. A residência não tem móveis,nem camas. A exemplo dos demais companheiros,Daniel se alimenta exclusivamente à base de arroz e feijão, e dorme em cima de caixa de papelão. "Meu sonho é ir embora para o meu Ceará, mas infelizmente não tenho dinheiro", disse.

CB, 14/05/2007, Economia, p. 15

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