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Camada de ozônio restaurada, só daqui a 63 anos

OESP, Vida, p. A23
12 de Out de 2006

Camada de ozônio restaurada, só daqui a 63 anos
Cientistas da ONU fazem nova revisão e afirmam que buraco bateu recorde e mede 29,5 milhões de km2

Jamil Chade

Tapar o buraco na camada de ozônio está cada vez mais parecido ao desafio de saldar a dívida do cheque especial. Quando parece que o rombo está aos poucos sendo zerado, uma consulta ao saldo contradiz a expectativa e adia a solução.

Vinte anos após a primeira vez em que foi medido, o buraco na camada de ozônio sobre a Antártida atingiu neste ano seu tamanho recorde. Os 29,5 milhões de km2 assustaram os cientistas e os obrigaram a refazer suas contas - agora estimam que a recuperação da camada poderá ser comemorada em 2069, não mais em 2047.

Em entrevista ao Estado, o principal cientista da Organização das Nações Unidas (ONU) para o tema da camada de ozônio, Geir Braathen, explicou que o ano de 2006 está sendo um marco. 'De um lado, atingimos o fundo do poço. Não há como o buraco ficar pior', explica Braathen, que lidera o departamento de Meio Ambiente da Organização Meteorológica Mundial. Em 2000 foi registrada a segunda maior dimensão do buraco: 29,4 milhões de km2.

AGORA VAI

A boa notícia, segundo Braathen, não passa de nova expectativa, ainda que aparentemente unânime na comunidade científica: a solução para a deterioração na câmara que protege a Terra já foi encontrada e o problema desaparecerá com as medidas tomadas por governos e pelo setor privado em todo o planeta. Ou seja, a partir de agora a recuperação da camada começará a ocorrer para valer.

A confiança do representante da ONU está baseada no fato de que os gases que são lançados à atmosfera e que causam a deterioração, como o CFC, já não estão sendo emitidos pela maioria dos países. 'O problema não é uma maior emissão, mas sim que as partículas desses gases já na atmosfera continuam fazendo efeito e levarão ainda décadas para desaparecer', explica. 'O importante é que quase já eliminamos as emissões.'

O controle resultou de um acordo internacional de 1987, conhecido como Protocolo de Montreal, celebrado apenas dois anos após a identificação da falha na proteção atmosférica sobre a Antártida. 'A comunidade internacional agiu de forma rápida e o esforço funcionou', diz Braathen.

Resultados concretos, porém, só começaram a aparecer depois que os países ricos aceitaram criar um fundo com quase US$ 2 bilhões para financiar alterações nas linhas de produção de empresas de países pobres. Os gases CFC eram encontrados na maioria dos casos em aparelhos de ar condicionado, latas de spray e geladeiras.

22 ANOS DE ATRASO

Braathen alerta, porém, que o mundo terá de conviver com o problema até o ano 2069, quando os cientistas acreditam que a camada terá sido finalmente recuperada.

Os cientistas admitem que esperavam a recuperação para 2047, mas os novos cálculos e a previsão de permanência das partículas de CFC na atmosfera obrigaram uma revisão. 'Pelos próximos 60 anos as populações terão de continuar se protegendo do sol, principalmente aquelas com pele mais clara.'

A camada de ozônio protege a Terra dos raios ultravioleta do Sol. Sem essa proteção, os efeitos incluem desde uma deterioração do ambiente marinho até uma maior incidência de câncer de pele.

Em algumas regiões do norte dos Estados Unidos, Canadá e Europa, onde a camada de ozônio também sofre um enfraquecimento, os índices de câncer de pele registrados desde os anos 90 aumentaram significativamente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

No hemisfério sul, os piores efeitos do fenômeno estão concentrados sobre o continente antártico. Ainda que com freqüência bem menor, também prejudica o sul da Argentina e do Chile.

Quanto ao impacto da camada de ozônio e o aquecimento da Terra, o cientista alerta que não existe uma relação direta. 'Não há um degelo na Antártida, apesar do buraco recorde na camada de ozônio. Isso ocorreria por causa das mudanças climáticas e da ação de outros tipos de gases', afirma. O que já foi documentado são impactos significativos sobre o ambiente marinho do continente.

NÚMEROS DESENCONTRADOS

Agarrados à esperança de que daqui a exatos 63 anos o problema estará para sempre resolvido, membros da Organização Meteorológica Mundial têm divulgado números diferentes sobre o tamanho do buraco.

Em fins do mês passado, chegaram a afirmar que o buraco na camada de ozônio alcançaria 27,9 milhões de km2 neste ano - 1,6 milhão de km2 abaixo da mais recente estimativa.

NÚMEROS

29,5 milhões de quilômetros quadrados foi o tamanho que atingiu o buraco de ozônio neste ano sobre a Antártida

29,4 milhões de quilômetros quadrados era o recorde anterior, registrado pelos cientistas em 2000

2069 é o ano em que se espera que a camada seja recuperada, segundo previsões feitas por cientistas

1985 foi quando ocorreu a primeira medição do buraco da camada de ozônio sobre o continente antártico

OESP, 12/10/2006, Vida, p. A23

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