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Calor e consumo alto já levam cidades a racionar água

Valor Econômico, Brasil, p. A4
11 de Fev de 2014

Calor e consumo alto já levam cidades a racionar água

Por Rodrigo Pedroso
De São Paulo

O aumento do consumo mês passado, as temperaturas acima da média histórica e a falta de chuvas têm levado algumas cidades do país a adotar o racionamento ou "rodízio de água", como preferem chamar algumas empresas que prestam o serviço à população. Em duas regiões do Paraná, cerca de 780 mil pessoas já estão enfrentando interrupções diárias no abastecimento. No Centro-Oeste de Minas Gerais, municípios que já implantaram o racionamento planejam usar carros-pipa a partir da próxima semana.
Em São Paulo, cidades do interior e da região metropolitana estão interrompendo o fornecimento em alguns bairros. Ontem, o sistema Cantareira, que atende 9,3 milhões de paulistas, chegou ao nível mais baixo da história.
A Sanepar, estatal que faz o saneamento paranaense, informou que a população de cinco cidades está sendo afetada: Ponta Grossa e Guarapuava, na região central, e Francisco Beltrão, Assis Chateaubriand e Toledo, no Sudoeste.
Na região central paranaense, desde a metade da última semana, a Sanepar fornece 14 horas de água para a população e desliga as bombas nas 14 horas seguintes. Ponta Grossa e Guarapuava, que somam cerca de meio milhão de habitantes, foram divididas por setores. De acordo com Antonio Carlos Gerardi, gerente-geral da estatal, registrou-se em janeiro aumento de 9,6% no consumo de água na região em relação a janeiro do ano passado. A temperatura média na região neste ano também está maior: cerca de 3oC acima da média de histórica de 30oC para o período.
"Depois do início do rodízio sentimos diminuição no consumo em função da maior conscientização da população. O problema foi o aumento de consumo junto com redução do nível dos reservatórios", afirma Gerardi.
No Sudoeste paranaense, Toledo entrou no mesmo esquema de racionamento de Francisco Beltrão e Assis Chateaubriand, que registram temperaturas ao redor de 35oC, acima da média de 28oC. As três cidades foram divididas em quatro setores. Cada uma tem o fornecimento de água interrompido por quatro horas ao dia.
Há 26 anos trabalhando no setor, Renato Bueno, gerente-geral para a região da Sanepar, diz que nunca viu situação similar. Os mananciais que abastecem as três cidades do Sudoeste têm previsão para seguir fornecendo água por até mais 15 dias sem chuva. A meteorologia diz que deve voltar a chover com mais intensidade no início de março. "Em duas semanas caiu muito a produção dos mananciais subterrâneos. Se não chover, vai começar a gerar um efeito em cascata no abastecimento de cidades próximas", diz.
No início de fevereiro, Oliveira, no Centro-Oeste de Minas Gerais, cortava o abastecimento por 12 horas ao dia. Na última sexta-feira, a "janela" de água para os cerca de 40 mil habitantes foi reduzida para quatro horas diárias. O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) do município projeta que, caso não chova nos próximos dias, o único manancial que ainda serve para abastecer os moradores vai ficar em nível muito baixo, impedindo o bombeamento da água.
Outras cidades da região estão em situação similar, de acordo com Eleonora Teresa Silva, diretora-adjunta da Saae do município de Oliveira. Trabalhando há 32 anos na autarquia municipal, ela também afirma não ter testemunhado situação parecida. "Há falta de agua nos mananciais da região toda, como em Formiga e Pará de Minas. Nunca vi janeiro e fevereiro com falta tão grave de água como agora", afirma.
Os habitantes da cidade estão ajudando a autarquia a tentar aumentar as fontes hídricas. Ontem, uma equipe de técnicos foi a uma fazenda na zona rural avaliar um lago indicado pelo dono como possível fonte de abastecimento. "Até o fim da semana vamos manter os poços artesanais para o mínimo de uso pela população. Depois terá que ser à base de caminhão pipa mesmo", diz.
Em São Paulo, os municípios de Valinhos, na região de Campinas, e Itu anunciaram desde a semana passada que ficarão sem abastecimento de água por algumas horas diariamente. Na região metropolitana de São Paulo, Diadema, Guarulhos e São Caetano do Sul informaram, por meio de comunicados, que iniciaram o racionamento de água em alguns bairros. A prefeitura de Campinas divulgou nota informando que vai multar o morador que for flagrado desperdiçando água.
Ontem, a Sabesp informou que o nível do reservatório de água do sistema Cantareira, operado pela empresa, caiu mais um pouco no fim de semana e está no momento em 19,6%, segundo a última atualização feita pela empresa. Na sexta-feira, o indicador apontava 20,4%. O atual nível, o menor em 39 anos, é considerado crítico pela Sabesp. Nesta mesma época no ano passado, o nível estava em 52% e, no ano anterior, em 75%.
A Sabesp, responsável pelo abastecimento de água de 364 dos 645 municípios de São Paulo, afirmou que não há registro de racionamento entre as cidades em que presta serviço e que ainda não trabalha com essa hipótese.
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), também descartou, pelo menos por enquanto, a necessidade de racionamento. "Estimulamos o combate ao desperdício de água. As pessoas que economizarem 20% do consumo terão mais 28% de desconto [no valor da conta]", afirmou. Ele, porém, reforçou que isso vai depender das chuvas, que estão muito abaixo da média para este mês. A Sabesp tem investido em anúncios em TVs e jornais para incentivar o consumo moderado de água. (Colaboraram Francine de Lorenzo e Olivia Alonso, de São Paulo)

Valor Econômico, 11/02/2014, Brasil, p. A4

http://www.valor.com.br/brasil/3425552/calor-e-consumo-alto-ja-levam-ci…

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