CB, Política, p. 4
Autor: AZEVEDO, Luiz Carlos
26 de Abr de 2007
Calma, que o Brasil tem pressa
A tese do aquecimento global reforça a idéia na opinião pública mundial de que a maior floresta do mundo deve ser internacionalizada
Por Luiz Carlos Azedo
luiz.azedo@correioweb.com.br
O impressionante documentário do ex-vice-presidente americano Al Gore, intitulado Uma verdade inconveniente, situou o aquecimento global como a questão ecológica número um do planeta. É um bombardeio de artigos, reportagens e entrevistas. Com previsões e simulações catastróficas, como a completa inundação da Amazônia, a submersão do Rio de Janeiro numa espécie de nova Atlântida ou a formação de praias oceânicas nos arredores de Brasília (que bom, estaríamos salvos!). A imaginação não tem limites. E já há quem comemore a descoberta de um planeta habitável, para o qual humanos eleitos poderiam emigrar, numa viagem que hoje seria de 20 anos à velocidade da luz.
Alarmismo
Ontem, recebi a mensagem de um velho amigo contestando a tese: Airton Queiroz, o "Gaguinho", antigo professor de economia na Universidade Federal Fluminense, que estudou engenharia de minas na UFPE e é um apaixonado por geologia. "É mentira que a espécie humana seja a principal culpada pelo aquecimento global", dispara.
A terra surgiu como uma bola de fogo, resfriou-se lentamente e passou por muitos ciclos naturais de grandes variações de temperatura. A maioria desses ciclos ocorreu quando a humanidade não existia. E em vários deles, o aquecimento alcançou níveis muito mais altos de temperatura devido, em parte, à emissão natural de dióxido de carbono (CO2) e de gás metano (H4). Além desses ciclos, têm sido comuns nos últimos milhões de anos (período pequeno, se comparado com a idade da terra, que tem 4,6 bilhões de anos ) os ciclos glaciais, o último deles há aproximadamente 10 a 12 mil anos. Estamos, portanto, no fim de uma era interglacial e nos aproximando de outra inevitável glaciação. Esse fenômeno é precedido da elevação da temperatura, o que reduz as geleiras, desfaz os circuitos das correntes marítimas, eleva as mares e intensifica as tormentas. Quando a nova glaciação chegar, tudo se inverte: as temperaturas caem bastante, durante milhares de anos. No período interglacial seguinte, o clima de novo ficará ameno, que é o melhor para os humanos. Ou seja, ainda temos muito a aprender com esquimós e tuaregues.
Contingência
Mas o futuro pode ser ainda pior. "A natureza não tem o compromisso ético de preservar a vida de qualquer espécie", argumenta Queiroz. Na verdade, a humanidade tem colaborado com o aquecimento global, mas numa parcela desprezível. Isso não significa que podemos ser irresponsáveis com o meio ambiente. Devemos reduzir a poluição e preservar os ecossistemas, mas sem a pretensão de alterar os ciclos naturais do planeta. O aquecimento global é uma contingência da vida na terra. "Quando todas as potências mundiais promovem uma cruzada, o interesse maior é manter o status quo: quem já é rico, fica rico; quem é pobre, fica pobre. Avaliam que, se os pobres quiserem se desenvolver para ter padrões de vida iguais aos dos países desenvolvidos, certamente também vão destruir os recursos do planeta. O que acontece, porém, é o contrário, quanto mais um país é desenvolvido, mais condições tem de limpar o que sujou. Veja que não só o rio Tamisa, que banha Londres, mas os rios da Europa e os dos USA são, hoje, muito mais limpos ( ou menos sujos ) que durante a era da Revolução Industrial", sustenta.
Amazônia
Precisamos ir devagar com o andor nessa questão. Uma das razões é a Amazônia. A tese do aquecimento global reforça a idéia na opinião pública mundial de que a maior floresta do mundo deve ser internacionalizada. A gravidade do assunto provocou uma crise no governo por causa dos investimentos previstos pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) na Amazônia. A falta de energia é uma trava no crescimento do país, porque inibe os investimentos em novas plantas industriais. A idéia de que a Amazônia deve ser um santuário intocável é reacionária. Sequer é a melhor maneira de defender os povos da floresta e a integridade territorial.
A Amazônia corresponde a 1/20 da superfície do planeta e 2/5 da América do Sul, tem 1/5 da disponibilidade de água doce do mundo, 1/3 das reservas mundiais de florestas latifoliadas. Mais de 63% desse território, onde vivem 20 milhões de pessoas, pertencem ao Brasil. Seu potencial energético é de 160.000 MW, contra 84.000 MW instalados no país. Explorar parte desse potencial energético é vital para o desenvolvimento do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A questão é como fazê-lo com menor risco ambiental e maior proveito econômico e social. Não é simplesmente deixar de fazê-lo. E condenar o caboclo da Amazônia à eterna exploração dos seringais - até a chegada do Juízo Final.
CB, 26/04/2007, Política, p. 4
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