OESP, Vida, p. A36
09 de Dez de 2006
Calçoene, o Stonehenge do Amapá
Sítio a 390 km de Macapá abriga 127 pedras dispostas em círculo
São 127 pedras escuras, fincadas no solo num círculo de 30 metros de diâmetro. Duas delas parecem indicar o solstício de inverno (época do ano em que o Sol atinge seu grau mais afastado da Linha do Equador), como se formassem um observatório astronômico pré-histórico. Para os leigos, lembra Stonehenge, o famoso monumento megalítico localizado na Inglaterra. Para os arqueólogos, o sítio de Calçoene, a 390 quilômetros ao norte de Macapá, é uma excelente oportunidade para se desvendar segredos dos índios pré-colombianos e principalmente da ocupação humana da Amazônia.
Os blocos de granito chegam a mais de 4 metros de altura. Certamente talhados para este fim, foram levados para o alto de uma colina - as possíveis fontes rochosas ficam de 300 a 400 metros dali, pelo menos.
Os gaúchos Mariana Pety Cabral e seu marido, João Darcy de Moura Saldanha, do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, são os primeiros a escavar o local de forma sistemática. A formação era conhecida por moradores de Calçoene e cientistas, mas nunca havia sido estudada em detalhes.
No solstício do ano passado, dia 22 de dezembro (data válida para o Hemisfério Norte, onde se localiza Calçoene), o casal estava no sítio e percebeu que um dos menires não projetava sombras para os dois lados - apenas em direção a um buraco desenhado num bloco vizinho.
O fenômeno indica que a pedra está exatamente alinhada ao Sol, tanto que no zênite (o momento em que o Sol atinge sua posição mais alta no céu) nenhuma sombra foi projetada. A prova será tirada neste ano, em 21 de dezembro, o solstício de 2007. "No ano passado não pudemos acompanhar o fenômeno completo. Estaremos lá para isto neste ano, do nascer ao pôr-do-sol", diz Mariana.
QUEM ERAM?
Pouco se sabe sobre a população que ali viveu, mas um monumento deste porte não pode ter sido feito em pouco tempo. "Ela exige bastante gente, uma certa permanência no lugar e uma certa organização social, para que uma obra coletiva se viabilize", explica a arqueóloga.
Eles encontraram fossas repletas de vasos de cerâmica decorados, dispostas por toda a área e fechadas com grandes círculos de pedra. O material já indica que uma das principais teses de ocupação amazônica não explica este povo. Formações semelhantes são encontradas no Caribe, e, segundo outro casal de arqueólogos, os americanos Betty Meggers e Clifford Evans, o mesmo povo teria levado esta cultura para o Amapá.
Não é o que o par gaúcho acredita. As características observadas nos vasos de Calçoene indicam que a população que li viveu era efetivamente tropical, não do Caribe. "Eles não seriam povos migrantes", diz Saldanha. "A hipótese de Meggers não se confirma."
DIA-A-DIA
Além da origem, Saldanha também diz que o povo que construiu o círculo de pedras teria se organizado num grupo único ou vários separados, mas com alguma coisa em comum, que se articulavam quando havia necessidade. Provavelmente as pessoas moravam nas proximidades - e os dois arqueólogos estão ansiosos para buscar sítios com sinais cotidianos destes povos. Um caco de cerâmica ou um punhado de terra preta (ligada à permanência longa de um grupo de pessoas num ponto amazônico) são peças fundamentais neste quebra-cabeças histórico.
Ainda é cedo para estabelecer certezas sobre esta população. Neste momento, os arqueólogos trabalham com uma série de hipóteses, num exercício imaginativo sobre o passado. Um exemplo é a data de ocupação: pode ter sido de 2 mil atrás até a chegada dos europeus, mas a resposta só virá com o resultado da datação do material.
Aos poucos eles começam a desenhar o que teria ocorrido ali. Algumas dúvidas serão sanadas ainda neste ano. Quatro especialistas brasileiros integram, no domingo, a próxima expedição a Calçoene para indicar se a pedra do solstício foi colocada propositalmente ali - o que certificaria seu uso como instrumento astronômico - ou se ela se moveu no solo ao longo dos séculos, parando coincidentemente nesta posição.
Cristina Amorim, Macapá
OESP, 09/12/2006, Vida, p. A36
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.