OESP, Metrópole, p. C6
06 de Fev de 2006
Calçada, vilã do desperdício de água
Consumo em dezembro em SP foi o maior desde 97, impulsionado por hábitos como usar mangueira e lavador a jato
Adriana Carranca
O faxineiro de um edifício na Avenida Jacutinga, em Moema, zona sul, parece distraído enquanto trabalha. Com o jato d'água de um daqueles modernos aparelhos de alta pressão, ele empurra a sujeira do prédio portão afora. Fixa num mesmo ponto, até o jato vencer a batalha com uma única folhinha de árvore que teimava em ficar presa na calçada irregular. Cada minuto desta cena consumiu dos reservatórios de São Paulo 9 litros de água. A cada 13 minutos, o faxineiro gasta água suficiente para o consumo diário de uma família de quatro pessoas: 120 litros, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).
Poderia ser pior. Se usasse uma mangueira no lugar do equipamento, o tal faxineiro gastaria o dobro, 18 litros por minuto. Para quem vê, dia após dia, funcionários de condomínios e moradores de casas "varrerem" a sujeira de vias públicas, áreas comuns dos prédios e quintais com jatos de água, fica a pergunta: que fim levou a boa e velha vassoura?
"Os lavadores a jato são mais econômicos em relação às mangueiras, mas acabam sendo usados no lugar da vassoura por causa da força d'água. E, é claro, nada gasta menos água do que a tradicional vassoura", diz o consultor em programas de uso racional da água Paulo Costa, da empresa H2C.
"Eu só lavo às sextas-feiras", garante o zelador José Nilson Batista, de 34 anos, flagrado com seu lavador a jato "varrendo" a calçada de um edifício na Rua Doutor Cardoso de Melo, na Vila Olímpia, zona sul. A copeira Marinalva Pereira Silva, de 58, diz utilizar o esguicho para se livrar da terra que invade o seu quintal com a chuva. E de calçada em calçada, de quintal em quintal, a água vai pelo ralo.
O desperdício é especialmente problemático nos meses de verão, quando o consumo de água aumenta em média 4% nas residências da região metropolitana e 10% no litoral paulista. Os vilões são, justamente, o uso nas áreas comuns dos prédios e casas, como jardins, e hábitos como gastar horas - e muita água - lavando o carro sob o sol, além dos já conhecidos banhos prolongados por conta do calor. Nos feriados, como réveillons, quando o litoral paulista chega a receber mais de 1,5 milhão de turistas, o crescimento do consumo de água chega a 40%.
O consumo de 128 milhões de metros cúbicos em dezembro foi o maior registrado nesse mês desde 1997 nos 368 municípios atendidos pela Companhia de Saneamento Básico do Estado (Sabesp). Entre janeiro e dezembro de 2005, o consumo aumentou em 4% com relação ao ano anterior. Não é pouco: são 5 milhões de metros cúbicos a mais, o suficiente para encher 2.162 piscinas olímpicas como a da sede social do São Paulo Futebol Clube.
Parte desse aumento do gasto pode ter sido causado pelo crescimento da população. Mesmo assim, a média de consumo diário por pessoa em São Paulo é de 200 litros, superior ao recomendado pela ONU.
"É difícil medir o comportamento do consumo porque ele é influenciado não apenas por razões particulares, mas pelo clima, pela situação econômica do País e pelos períodos do ano, como férias", diz Emília Dalla Rosa, gerente de Gestão de Processo Comercial da Sabesp. "Agora, a preocupação de uso racional tem de ser constante. Sempre há espaço para economizar. E são os pequenos hábitos, como usar mangueira no lugar da vassoura, que determinam a maior parte do desperdício de água e o valor da conta para o consumidor."
Um projeto de lei do vereador Ricardo Montoro (PSDB) propunha multar quem fosse flagrado lavando carros e as calçadas com esguicho, entre outros desperdícios. Aprovado pela Câmara em 2003, o projeto foi vetado pela então prefeita Marta Suplicy (PT).
Hábitos como deixar chuveiros e torneiras abertos, abusar no uso de máquinas de lavar roupa e louça, mangueiras e lavadores a jato, no entanto, não são os únicos vilões do desperdício. Cerca de 20% água potável produzida na Grande São Paulo se perde nas tubulações de captação e distribuição, basicamente em canos furados, segundo o Instituto Akatu Pelo Consumo Consciente - a média mundial fica entre 6 e 10%.
OESP, 06/02/2006, Metrópole, p. C6
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