O Globo, Rio, p. 9
13 de Fev de 2006
Caçada às araras-azuis
Uma perseguição cinematográfica, incluindo o cerco na Rio-Santos de dois helicópteros a um furgão, que supostamente estava levando duas araras-azuis, encerrou ontem a Operação Ceriá na Costa Verde. Durante uma semana, a força-tarefa formada por policiais federais, policiais rodoviários federais, soldados do Exército e homens do Batalhão Florestal agiram, sob o comando do Ibama, para flagrar crimes ambientais. Além de encontrarem animais sofrendo maus-tratos, os fiscais identificaram construções irregulares e descobriram pés de maconha no Parque Nacional da Serra da Bocaina. As multas contra os infratores chegaram a quase R$ 820 mil.
A perseguição ontem começou depois que os fiscais foram de lancha à Ilha do Breu, a cerca de 34 quilômetros de Paraty, para apreender animais silvestres numa reserva particular. Lá, receberam a denúncia de que o dono da ilha, Márcio Luiz Gouveia de Oliveira, teria deixado o local de barco e em seguida num furgão Sprinter, levando duas araras-azuis. Um helicóptero do Ibama, que sobrevoava a região, foi avisado e localizou o veículo na Rio-Santos.
O carro, segundo o gerente do Ibama no Rio, Rogério Rocco, pegou a rodovia na altura da Praia de Tarituba e seguiu em direção a Angra dos Reis, mas retornou no sentido Paraty ao avistar um carro da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Por alguns minutos, a equipe que estava no helicóptero do Ibama perdeu de vista o veículo. Um outro helicóptero, da PRF, passou então a também perseguir o furgão e, 40 quilômetros depois, no Km 565, interceptou o veículo pousando na pista.
As duas araras-azuis - espécie em extinção, natural do Pantanal - que os fiscais procuravam não estavam no carro de Márcio Luiz, de 58 anos. Dono da Ilha do Breu, ele foi levado pelos fiscais para o aeroporto de Paraty, onde estavam os chefes da operação. Depois de ouvido, o empresário foi liberado. Ele foi, no entanto, autuado e multado em R$ 1 mil por cada um dos dois macacos bugio apreendidos na Ilha do Breu e em R$ 10 mil pelas aves - todos sem autorização do Ibama.
- Sou o fiel depositário das araras, que não ficam presas. Elas se alimentam e pernoitam na minha ilha, mas voam por todas as ilhas em volta. Há quatro ou cinco anos, tentei devolver os animais ao Ibama, mas ninguém compareceu à ilha - disse o empresário, que, segundo o Ibama, não apresentou documento comprovando o que afirmara.
A veterinária do Ibama de Brasília Tatiana Pimentel disse que os bichos encontrados na Ilha do Breu eram maltratados e serviam de atração para os turistas que pagavam para entrar no local.
- Quando chegamos, surpreendemos o macaco subindo na mesa dos visitantes e bebendo cerveja. Os empregados só agiram e enxotaram o macaco quando eu peguei a máquina para fotografar. A reserva era, na verdade, um circo para distrair turistas - disse a veterinária.
Multa também por aumento de ilha
Na última quinta-feira, o empresário já fora multado em R$ 30 mil por ter aumentado o tamanho da Ilha do Breu, que passou, segundo o gerente do Ibama Rogério Rocco, de três para dez mil metros quadrados. As atividades econômicas da ilha também foram embargadas.
- Os fiscais constataram ontem que havia hóspedes na ilha e que estava sendo realizada uma festa de aniversário no local. Uma nova multa de R$ 30 mil foi lavrada por descumprimento ao embargo. Agora vamos comunicar o Ministério Público sobre os autos de infração para que sejam abertos inquéritos civil e criminal - disse Rocco.
Márcio explicou que tinha autorização do Serviço do Patrimônio da União (SPU) para fazer a ampliação da Ilha do Breu. Ele construiu um grande píer em torno da ilha, apoiado em pilares de concreto. Desde 1979 na região, ele disse que, na época, era permitido aumentar a área de ilhas.
Os fiscais da Operação Cebiá também aplicaram ontem uma multa, de R$ 25.300, ao Hotel do Frade, em Angra dos Reis, pela instalação de uma antena de telefonia celular numa área de preservação permanente. Segundo o gerente do Ibama, o resort havia solicitado uma licença para a instalação da antena, mas ela foi instalada antes de qualquer parecer.
O gerente do Hotel do Frade, Paulo Alcântara, disse que encaminhará a multa a seu departamento jurídico para avaliação.
- Vamos resolver o problema. Ou pagando a multa e legalizando a situação ou a contestando, se confirmarmos que não há problemas com a antena - disse Alcântara.
Alexandre Negrão, ex-corredor de Stock Car, que construiu uma mansão num costão, pode ter a multa de R$ 1,3 milhão elevada para R$ 2 milhões. As outras multas por crimes ambientais diversos somaram R$ 811 mil, sem considerar o valor da punição ao dono da Ilha do Breu.
No sábado, a força-tarefa descobriu até maconha plantada dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, na divisa dos estados do Rio e de São Paulo. Foram recolhidos quatro pés da planta. No local, os 70 homens da força-tarefa, com o apoio de helicópteros e um documento de busca e apreensão emitido pela Justiça de Paraty, fizeram uma operação na reserva. Eles lavraram quatro autos de infração, com um total de multas de R$ 30 mil, recolheram 70 quilos de palmito Juçara beneficiados para consumo, dois papagaios, duas espingardas, um trabuco, munições, facões, foices e armadilhas.
Um bar à beira da RJ-165, estrada de 45 quilômetros que liga Paraty à Via Dutra, que tinha 29 potes de palmito Juçara para a venda, foi multado em R$ 7.500. No meio da semana, policiais rodoviários do posto de Mambucaba da Rodovia Rio-Santos apreenderam 140 peças de palmito.
O Globo, 13/02/2006, Rio, p. 9
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.