O Globo, Rio, p. 14
21 de Mai de 2009
Cabral recua em projeto de muro na Rocinha
Sugestão de moradores para construção de muretas de 60 centímetros modificará proposta original do estado
Ludmilla de Lima
Após afirmar que não modificaria o projeto original do muro da Rocinha, o governador Sérgio Cabral voltou atrás e aceitou sugestão de moradores de erguer muretas em alguns trechos do ecolimite. Cabral e a Associação de Moradores da Rocinha, que era contra o muro, chegaram a um entendimento durante reunião na noite de terça-feira, no Palácio Guanabara. A proposta é transformar alguns espaços ao longo da construção em ecotrilhas. Nesses pontos, uma mureta de 60 centímetros de altura e um corrimão (totalizando 90 centímetros) vão separar a favela da Mata Atlântica.
Originalmente, todo o muro, que tem como objetivo evitar a expansão da comunidade, teria três metros de altura e 2,8 quilômetros de extensão. Segundo o presidente da Empresa de Obras Públicas do Estado (Emop), Ícaro Moreno, a princípio, apenas o parque ambiental que será criado no alto da Rocinha - perto da localidade chamada Cobras e Lagartos -- contará com a ecotrilha. Ainda de acordo com o presidente da Emop, a mureta será contínua e corresponderá a cerca de 20% da extensão do muro.
- No trecho onde vai ser o parque ambiental haverá um centro de educação ambiental, ecotrilhas, quadras de ginástica e faremos o reflorestamento. A partir da reunião, agregamos a sugestão dos moradores de implantar uma ciclovia e uma mureta em volta do parque. Em dez dias teremos o projeto novo - disse Moreno.
O presidente da Associação de Moradores da Rocinha, Antonio Ferreira de Melo, o Xaolim, afirma, no entanto, que foi firmado um acordo com o governador para que a mureta substitua o muro em mais de um ponto. A associação defende ainda que o projeto seja adotado em outras comunidades onde serão construídos ecolimites. O presidente da Emop prometeu estudar a possibilidade de estender a proposta para outras favelas.
Também faz parte do projeto elaborado pelo arquiteto Luiz Carlos Toledo, responsável pelo Programação de Aceleração do Crescimento (PAC) da Rocinha, a pedido dos moradores, a implantação de áreas com brinquedos, mesinhas e equipamentos de ginástica.
- Para nós, a mureta e as ecotrilhas representam a integração das pessoas e o acesso livre à mata em pontos específicos. O projeto mantém a nossa liberdade de ir e vir. Já o muro dá um sentimento de gueto - diz Xaolim.
Projeto inclui ainda a remoção de 400 casas
Para ele, com as adaptações, o muro terá só a função de proteger áreas verdes e de risco, e não de cercar a comunidade.
Em abril, a construção foi reprovada num plebiscito na favela. Para o vice-governador Luiz Fernando Pezão, a rejeição era fruto de desinformação:
- As pessoas não conheciam o projeto. Dos R$ 21 milhões que serão investidos na Rocinha, apenas R$ 2 milhões serão usados na construção do muro. Vai ter muro, mas onde der será um muro menor.
No momento, funcionários da Emop concluem a fase de sondagem do terreno onde será erguido o muro. O projeto do estado ainda inclui a remoção de 400 casas fora dos ecolimites já existentes.
O governador também autorizou a contratação de jovens moradores como guardas florestais comunitários para a fiscalização da área do muro. Pela proposta da associação, serão instalados junto às muretas postes de iluminação, que servirão à noite como sinalizadores dos limites da favela. Luiz Carlos Toledo conta que as muretas serão vazadas para o escoamento e a captação de água:
- Coloquei no papel os desejos dos moradores. O legal é que ao longo da mureta haverá um caminho de pelo menos um metro e meio de largura, que é muito importante para a circulação, e um corrimão para uma grávida ou um idoso andarem melhor.
O Globo, 21/05/2009, Rio, p. 14
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