OESP, Economia, p. B12
Autor: STIGLITZ, Joseph E.
07 de Jun de 2007
Bush rejeita metas de redução de gases que provocam efeito estufa
Chanceler alemã defende que G-8 assuma compromisso de impedir o aquecimento da Terra
A reunião do G-8 (grupo dos sete países mais industrializados do mundo mais a Rússia) começou ontem com forte revés para a anfitriã, a chanceler alemã Angela Merkel. Os Estados Unidos reiteraram que não aceitam estabelecer metas concretas para a redução dos gases causadores do efeito estufa. Quem deu o recado foi o próprio presidente americano, George W. Bush, durante almoço com a líder alemã.
Merkel defende que os países do G-8 assumam o compromisso de limitar a dois graus Celsius o aumento da temperatura global até 2050, o que implicaria reduzir à metade as emissões dos gases que causam o efeito estufa em relação aos níveis de 1990. Perguntado se aceitaria a idéia de metas concretas, o presidente americano foi taxativo: "Não. Direi do que estou a favor. Estou a favor de que nos sentemos e falemos sobre a forma de avançar."
Essas palavras resumem a contra-proposta americana, anunciada pelo próprio Bush na semana passada, em Washington: reunir os 15 países mais responsáveis pelas emissões para que, juntos, determinem um limite mundial para as emissões. Entre esses países estão a China e a Índia.
"A meta não pode ser definida aqui porque só incluiria os países do G-8", reforçou o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Stephen Hadley. O principal assessor ambiental de Bush, Jim Connaughton, também foi claro: "Os Estados Unidos poderiam, com a Europa, impor um limite às suas emissões, mas, se outras nações importantes não tomam parte dessa equação, nossas indústrias que usam muita energia se mudarão para esses países."
Merkel, que foi ministra do Meio Ambiente da Alemanha, pareceu render-se aos fatos. "Está claro que os objetivos definidos pelos europeus não poderiam ser compartilhados imediatamente em sua totalidade pelo resto do mundo", declarou ela à TV oficial do G-8.
O presidente da Comissão Européia, José Manuel Barroso, sentiu o golpe e se mostrou pessimista sobre acordos concretos em matéria de mudança climática. "Não espero que esta reunião de cúpula estabeleça objetivos", afirmou.
O presidente da França, Nicolas Sarkozy, não se rendeu e sugeriu que os europeus pressionem Washington em relação ao tema que provoca tanta discórdia. "Nós precisamos de metas quantitativas no texto final (do encontro)", disse. "É um ponto extremamente importante e pretendo conversar a respeito com o presidente dos Estados Unidos ainda na noite de hoje (ontem)."
Se serve de consolo, Bush disse ter assegurado a Merkel seu "forte desejo" de trabalhar na busca de um novo plano para quando expirar o Protocolo de Kyoto, em 2012. "Venho com um forte desejo de trabalhar contigo (refere-se a Merkel) para conseguir um acordo pós-Kyoto, sobre como conseguir objetivos importantes, um dos quais, claro, diz respeito à redução dos gases que causam o efeito estufa. O outro é ter mais independência energética", disse.
O antecessor de Bush na Casa Branca, Bill Clinton, assinou o Protocolo de Kyoto, mas Bush retirou a assinatura americana logo após assumir a presidência, em 2001.
Merkel inaugurou oficialmente a reunião de cúpula às 19 horas locais. Os líderes e suas esposas encontraram-se no Castelo de Hohen Luckow, fazenda de estilo barroco que fica a 15 quilômetros de Heiligendamm. Hoje começam as reuniões de trabalho.
Emergentes tentam acertar posição comum
Os cinco países emergentes convidados para o encontro do G-8 terão seu próprio evento paralelo em Berlim. México, Brasil, Índia, China e África do Sul tentarão fechar uma posição comum para levar aos líderes mundiais na sexta-feira em Heiligendamm.
O chanceler Celso Amorim disse ao 'Estado' que Lula defenderá hoje, diante dos demais emergentes, temas relacionados ao meio ambiente e ao comércio. O governo espera que os cinco países convidados pelo G-8 dêem um recado claro de que a rodada da Organização Mundial do Comércio (OMC) precisa ser concluída de forma positiva para os países emergentes.
Sobre o meio ambiente, os emergentes não querem receber um teto para emissões de CO2². O grupo acredita que essa responsabilidade é dos países ricos, pelo menos por enquanto.
Agenda
Hoje
8h30: Blair (Grã-Bretanha) encontra Bush (EUA)
10h: sessão de trabalho do G-8, com foco na economia mundial e nos países em desenvolvimento
13h15: lanche de trabalho dos líderes para discutir Oriente Médio, Irã e Darfur
14h30: Putin (Rússia) encontra Harper (Canadá)
14h30: Sarkozy (França) encontra Blair (Grã-Bretanha)
15h15: Putin (Rússia) encontra Bush (EUA)
16h: sessão de trabalho, com foco nas mudanças climáticas
18h10: Putin (Rússia) reúne-se com Sarkozy (França)
18h45: Putin (Rússia) encontra Abe (Japão)
19h30: jantar dos líderes. Rodada Doha no centro da discussão
Amanhã
7h55: Sarkozy (França) reúne-se com Bush (EUA)
8h30: Blair (Grã-Bretanha) encontra o presidente da Nigéria, Umaru Yar'Adua
9h: sessão de trabalho com a participação de diversos países da África e do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon
10h15: Blair (Grã-Bretanha) encontra Lula
10h45: sessão de trabalho do G-8 com líderes de Índia, China, Brasil, México e África do Sul
12h45: Blair (Grã-Bretanha) encontra o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh
13h: lanche dos líderes do G-8 com representantes de países convidados
14h30: Putin (Rússia) encontra Blair (Grã-Bretanha)
14h40: Sarkozy (França) encontra o presidente da China, Hu Jintao
15h: Merkel (Alemanha) dá entrevista coletiva como presidente do G-8
15h30: Putin (Rússia) concede coletiva
15h30: Sarkozy (França) concede coletiva
16h45: Putin (Rússia) encontra Hu (China)
'Quero ver os chefes de Estado enfrentarem Bush'
Para economista, líderes de outros países devem pressionar presidente americano na questão das mudanças climáticas
Entrevista: Joseph Stiglitz
Hasnain Kazim
O Prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz não pensa muito no encontro do G-8 - e ainda menos no presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Mas o economista e crítico da globalização revela que tem algumas expectativas sobre o encontro que se realiza em Heiligendamm, na Alemanha.
Quais são as suas expectativas para a cúpula do G-8?
Até agora, os Estados Unidos não quiseram se unir a outras nações industrializadas para encontrar uma solução razoável para proteger o clima. Há esforços sérios em cada país industrializado para fazer alguma coisa para proteger o meio ambiente - mas não nos Estados Unidos. Quero ver os chefes de Estado em Heiligendamm enfrentarem o presidente Bush e dizerem: "Precisamos de um conjunto de regulações internacionais, e o senhor, como o homem mais poderoso do mundo, tem a obrigação de fazer parte disso!"
Bush anunciou suas próprias propostas sobre mudança de clima na semana passada...
Os participantes da cúpula devem deixar claro a Bush que as políticas dele estão acelerando a mudança climática e que países estão sendo destruídos por isso. Mas ele não compreende a linguagem civilizada. O problema precisa ser deixado claro para ele em termos mais drásticos.
Há receios nas nações do G-8 de que os esforços para impedir a mudança do clima serão destruídos pelo rápido crescimento da China e da Índia.
É por isso que o grupo de nações do G-8 deve ser ampliado. Não faz nenhum bem um pequeno grupo de pessoas de um punhado de países ricos discutir os problemas mundiais sem a participação das maiores nações do mundo. Isso inclui China e Índia, mas também muitos outros países.
Brasil, México e África do Sul, as outras três grandes economias emergentes?
Não sei como a cúpula poderia ser estruturada para que todos os interesses fossem devidamente representados. Existiriam argumentos pró e contra qualquer país. Uma coisa é clara, e esta é que em sua forma corrente: com oito países, ela não está funcionando.
Seria melhor se esses oito países não conversassem?
Conversar sempre é bom. Mas o presidente Bush já se mostrou extremamente obstinado no passado. Seu princípio sempre foi o de que, em última instância, a sua política prevaleceria qualquer que fosse a questão - e quaisquer que fossem as implicações para o resto do mundo de suas políticas.
O sr. é considerado um ícone intelectual para os críticos da globalização. Isso é embaraçoso ou o senhor se orgulha desse papel?
Você está certo, sou muito crítico à globalização. Por que isso deveria me embaraçar? Não é fácil encontrar uma abordagem que beneficie a todos. Mas pouquíssimas pessoas se beneficiam do jeito que as coisas vão.
Somente um pouco? As economias de alguns emergentes estão crescendo rapidamente.
Tanto em países industrializados como em países como a Índia e a China, freqüentemente mencionados como os vencedores da globalização, há centenas de milhões de pessoas que na verdade sofrem com a globalização.
OESP, 07/06/2007, Economia, p. B12
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