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Bush entra no jogo

CB, Mundo, p. 28
27 de Set de 2007

Bush entra no jogo
Washington recebe hoje representantes de 15 países, inclusive o Brasil, para discutir um acordo que substitua a partir de 2012 o Protocolo de Kyoto. Para ambientalistas, reunião é "cortina de fumaça"

Da redação

Representantes de 16 países industrializados e em desenvolvimento, inclusive os anfitriões, se reúnem hoje e amanhã em Washington na tentativa de iniciar negociações para um novo acordo sobre combate às mudanças climáticas para substituir o Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. A reunião se realiza à margem da Assembléia Geral das Nações Unidas, encerrada ontem em Nova York e precedida por um encontro que reuniu mais de 80 chefes de Estado e governo - com o mesmo propósito.

A iniciativa de convidar os principais emissores de gases causadores do efeito estufa e do aquecimento global partiu do presidente George W. Bush, que no início de seu primeiro mandato, em 2001, relutava até mesmo em admitir que atividades humanas tenham influência significativa sobre o fenômeno (leia quadro nesta página). O presidente norte-americano anunciou o convite dois meses depois de ter bloqueado, durante a reunião do G-8 (as sete maiores economias industriais mais a Rússia), um acordo proposto pela Alemanha, então na presidência da União Européia, pelo qual os países do grupo se comprometeriam a reduzir pela metade o nível de emissões de 1990 até 2050.

"O que ele (Bush) está procurando é apenas uma maneira de escapar de um tratado com cotas obrigatórias de redução de emissões", disparou o ambientalista Philip Clapp, presidente do Fundo Ambiental Nacional, falando para o jornal Los Angeles Times. Na sua avaliação, a conferência de Washington "não passa de uma cortina de fumaça, um processo que não levará a nada, como tudo que o governo Bush tem feito sobre o tema até aqui".

O presidente norte-americano, que enviou a secretária de Estado Condoleezza Rice à cúpula ambiental das Nações Unidas, na última segunda-feira, falará apenas amanhã aos participantes da conferência. A Casa Branca insiste em que a iniciativa tem por objetivo "ajudar o processo da ONU, e não competir" com ele. O assessor-adjunto da presidência para Segurança Nacional encarregado de assuntos econômicos internacionais, Dan Price, admite que não é esperada nenhuma decisão prática do encontro de Washington. "Será o primeiro do que esperamos que seja uma série de encontros, já que essas não são questões que se resolvam em dois ou três dias."

Esvaziado
Na prática, Condoleezza Rice e o principal assessor de Bush para questões ambientais, James Connaughton, comandarão um encontro esvaziado, com a presença de alguns chanceleres, vice-chanceleres e autoridades responsáveis por planejamento econômico. Entre os tentos marcados até aqui pelo governo americano está a participação da China, que segundo alguns estudos já teria ultrapassado os EUA e se tornado o país que mais emite gases estufa - porém, como é considerado um país "em desenvolvimento", não está comprometido com metas obrigatórias no Protocolo de Kyoto. A ausência de metas para países como China e Índia, ou mesmo o Brasil, é a principal razão invocada pelos EUA e pela Austrália para não assinar o Protocolo de Kyoto.

O governo alemão, entusiasta de Kyoto e defensor de medidas drásticas contra o aquecimento global, engoliu o revés imposto por Bush à premiê Angela Merkel, anfitriã do G-8, e agora elogia a disposição de Washington a "entrar em campo" na definição de medidas globais contra as mudanças climáticas. "Os EUA têm que liderar esse processo", disse o ministro alemão do Meio Ambiente, Sigmar Gabriel.

Mais cético, o professor Frans van Berkhout, diretor do Centro de Estudos Climáticos da Universidade Livre de Amsterdã (Holanda) e presidente do Instituto Ambiental, lembra que Bush já não tem grande autoridade nem mesmo na política doméstica. "Ele está nos últimos 18 meses de mandato, e não acredito que ainda mude substancialmente suas posições. Ele está fazendo um último esforço para manter os EUA presentes no debate."

Ecocético convertido

Como evoluiu a posição do presidente Bush sobre o aquecimento global

28/3/2001
Três meses depois de assumir o cargo, o presidente oficializa sua recusa a aderir ao Protocolo de Kyoto, que classifica como "injusto" e "nocivo aos interesses econômicos dos Estados Unidos".

11/6/2001
Pouco antes de embarcar para a primeira viagem oficial à Europa, Bush reafirma sua convicção de que a influência das atividades humanas sobre o efeito estufa "não está cientificamente demonstrada".

8/10/2004
Em campanha pela reeleição, o presidente reitera a rejeição ao Protocolo de Kyoto e diz que a adesão dos EUA "nos teria custado muitos empregos".

6/7/2005
Pela primeira vez, Bush reconhece que "o aumento causado pelo homem nas emissões de gases causadores do efeito estufa está contribuindo para o problema" do aquecimento global.
23/1/2007
O discurso anual do presidente sobre o Estado da União menciona pela primeira vez o aquecimento global e aponta os biocombustíveis como opção de "energia limpa e renovável".

9/3/2007
Durante visita de Bush ao Brasil, os dois países assinam acordo de cooperação para desenvolver o etanol, transferir a tecnologia para países latino-americanos e
trabalhar pela transformação do álcool em commodity.

31/5/2007
Às vésperas de reunir-se com os líderes do G-8, na Alemanha, o presidente americano propõe uma iniciativa própria contra o aquecimento, prevendo cortes de emissões também de países em desenvolvimento, como China e Índia.

3/8/2007
Bush convida 15 países industrializados e em desenvolvimento (inclusive o Brasil), mais a União Européia e as Nações Unidas, para discutir o assunto em Washington.

CB, 27/09/2007, Mundo, p. 28

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