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Busca de um pacto

O Globo, Opinião, p. 6
09 de Out de 2009

Busca de um pacto

Escaramuças entre ambientalistas e ruralistas são embates rotineiros na crônica parlamentar brasileira.

Carregado de ideologia e com altas doses de maniqueísmo, o choque entre "ecorradicais" e "desmatadores" mobiliza incontáveis assessores, toneladas de estudos, estatísticas as mais diversas, fontes inúmeras. A mais nova frente de batalha entre os dois exércitos é o controle da comissão especial instituída na Câmara para tratar de mudanças no Código Florestal, criado em 1934, alterado algumas vezes desde então, a última dessas mudanças em discussão no momento.

O Código estabelece a proporção da reserva de cobertura vegetal por regiões. Pode-se ter uma ideia dos interesses em jogo. Ainda mais num país em que a fronteira agrícola se expandiu em grande velocidade nos últimos 40 anos em direção à Amazônia, já tendo conquistado boa parte do cerrado, tornado fértil à base de muito investimento em pesquisa (Embrapa), diga-se, realizado com grande êxito.

Ao se analisar os embates de forma fria e objetiva, é possível constatar que a arma do catastrofismo é manejada de lado a lado. A depender da fonte que se consulte, ora o país se converte em deserto em pouco tempo - independentemente das mudanças climáticas -, pois o produtor rural não é controlado; ora o país, um dos três maiores exportadores mundiais de alimentos, é forçado a voltar a importar leite e carne, porque o agricultor/pecuarista é forçado a se enquadrar em normas ambientais equivocadas.

Este é um conflito que pode se estender indefinidamente. Mas não deve. A sensatez aconselha a defesa da agricultura, um dos setores mais dinâmicos da economia, responsável direto pelo fato histórico de o Brasil ter resgatado sua dívida externa, como também justifica cuidados com a preservação do meio ambiente, vital para a Humanidade.

A aceleração do aquecimento global deve funcionar como um basta à cansativa guerrilha entre ambientalistas e produtores rurais. As melhores lideranças de ambos os lados precisam trabalhar por um pacto realista destinado a acabar com abusos na agricultura e na expansão da fronteira de produção, assim como remover de projetos, leis e regulamentos exigências descabidas e irreais idealizadas com ambientalistas com viés contrário ao capitalismo no campo. Efetivado, este pacto será contribuição estratégica para acordos mundiais de preservação do meio ambiente, sem a desarticulação da produção de alimentos. O Brasil pode servir de exemplo, se a picuinha política e a cegueira ideológica forem erradicadas deste debate.

O Globo, 09/10/2009, Opinião, p. 6

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