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Bruno e Dom: MPF detalha 'logística do horror' em alegações finais que pedem condenação máxima a acusados de ocultação de corpos

O Globo - oglobo.globo.com
Autor: Daniel Biasetto — Rio de Janeiro
26 de Mar de 2026

O Ministério Público Federal (MPF) apresentou as alegações finais no processo que apura a ocultação e destruição dos cadáveres do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, assassinados a tiros quando voltavam de uma viagem pelo rio Itacoaí, no dia 5 de junho de 2022, após uma emboscada motivada por vingança contra atividades de fiscalização da pesca ilegal, no Vale do Javari. No documento obtido pelo GLOBO, o MPF pede a condenação máxima para os crimes de ocultação de cadáver e corrupção de menores contra o grupo formado por Eliclei Costa de Oliveira ("Sirinha"), Otávio da Costa de Oliveira ("Guerão"), Edivaldo da Costa de Oliveira e Amarílio de Freitas Oliveira ("Dedei"), que teriam executado o esquartejamento e a queima. Já Francisco Conceição de Freitas ("Seu Chico") teria atuado na logística.

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No manifestação de 17 páginas enviada à Justiça Federal de Tabatinga, o procurador da República Guilherme Diego Rodrigues Leal descreve uma operação brutal e coordenada para eliminar vestígios dos assassinatos, envolvendo esquartejamento, uso de combustível e ocultação em área de difícil acesso. Nove pessoas foram indiciadas no processo, incluindo Ruben Dario Villar, o "Colômbia", apontado como mandante dos crimes, como revelou O GLOBO.

Segundo o MPF, a materialidade dos crimes de ocultação e destruição de cadáver (Art. 211 do Código Penal) está "sobejamente comprovada" por laudos periciais e confissões. A perícia técnica foi fundamental para reconstruir a dinâmica do crime, apontando que as vítimas foram desmembradas em dois momentos distintos - antes e depois de serem queimadas - em uma tentativa persistente de fazer os remanescentes humanos desaparecerem.

Divisão de tarefas e corrupção de menores

O MPF sustenta que houve uma clara divisão de tarefas entre os réus. Enquanto o grupo formado por Eliclei Costa de Oliveira ("Sirinha"), Otávio da Costa de Oliveira ("Guerão"), Edivaldo da Costa de Oliveira e Amarílio de Freitas Oliveira ("Dedei") teria executado o esquartejamento e a queima, Francisco Conceição de Freitas ("Seu Chico") teria atuado na logística, fornecendo sua embarcação e servindo como "vigia" da operação.

Um dos destaques da ação, é a acusação de corrupção de menor. O MPF argumenta que os réus utilizaram um adolescente de 17 anos, sobrinho de parte dos acusados, para auxiliar no transporte e na ocultação dos corpos, o que agrava a situação jurídica do grupo.

O documento assinado pelo procurador Guilherme Diego Rodrigues Leal utiliza termos contundentes para descrever a gravidade das condutas:

"A culpabilidade dos réus é elevada, considerando que o crime foi cometido com frieza acentuada, tendo em vista que os corpos das vítimas foram esquartejados e queimados, demonstrando um total desrespeito à dignidade dos mortos."

Sobre a motivação da ocultação, o MPF alega que o crime foi praticado para assegurar a impunidade de outro crime. Já sobre a prova pericial e a tentativa de destruição total, a Procuradoria afirma que os vestígios encontrados, "embora ínfimos diante da tentativa de destruição total por meio do fogo e do esquartejamento", foram suficientes para a identificação genética e antropológica, "confirmando a autoria e a dinâmica descrita nas confissões e na reprodução simulada."

O MPF pede a condenação máxima para os crimes de ocultação de cadáver e corrupção de menores, ressaltando que as consequências do crime foram "gravíssimas", não apenas pela perda das vidas, mas pelo trauma causado às famílias e à sociedade brasileira. Com a entrega das alegações finais do MPF, o processo entra em sua fase final antes da sentença. A defesa dos réus deverá apresentar seus argumentos derradeiros antes que o Juízo Federal de Tabatinga decida as penas a serem aplicadas.

Relembre o caso

A participação de "Colômbia" no crime foi revelada pelo GLOBO seis dias após a morte da dupla. Além de "Colômbia", a PF também indiciou outras oito pessoas. De acordo com a PF, os demais indiciados tiveram papéis na execução dos homicídios e na ocultação dos cadáveres das vítimas.

Segundo as investigações, Colômbia era líder de uma organização criminosa que operava de forma estruturada e hierarquizada, visando a obtenção de lucro por meio da pesca e da caça ilegais na Terra Indígena Vale do Javari. O acusado fornecia os recursos materiais, como embarcações, armamento e combustível, necessários à pesca e à caça ilegais e, depois, garantia a aquisição dos produtos ilícitos que eram por ele revendidos em território peruano e colombiano.

Servidor licenciado da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Bruno era alvo constante de ameaças pelo trabalho que vinha fazendo junto aos indígenas contra invasores na região, pescadores, garimpeiros e madeireiros. Ele estava acompanhado de Dom, que havia ido à região produzir reportagem sobre a região, que concentra a maior quantidade de indígenas isolados do mundo.

Os dois foram vistos pela última vez em 5 de junho de 2022. Os restos mortais deles seriam encontrados dez dias depois. Os corpos estavam queimados, esquartejados e com marcas de tiro. Conforme a perícia da PF, Bruno foi atingido por três disparos, dois no tórax e um na cabeça. Dom foi atingido uma vez, no tórax.

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/03/26/bruno-e-dom-mpf-deta…

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