O Globo, Ciência, p. 39
22 de Dez de 2009
Brown defende órgão climático global
Países em desenvolvimento alertam para risco de esvaziamento da ONU
O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, defendeu ontem a formação de um órgão global dedicado exclusivamente ao gerenciamento de políticas ambientais. Uma de suas funções seria monitorar os gases-estufa emitidos pelos países, certificando-se de que estes obedeceriam as metas de redução que anunciaram. A sugestão do premier é uma resposta ao fracasso da Conferência das Mudanças Climáticas, em Copenhague, cujas negociações foram marcadas por impasses.
A criação de um órgão ambiental internacional fora do âmbito da ONU chegou a ser proposta na cúpula da COP-15, mas foi muito criticada por países em desenvolvimento.
Há, segundo eles, o perigo de esvaziar a ONU e enfraquecer o poder de barganha dos países pobres.
- Nunca mais devemos passar por um entrave como o da COP-15 - alertou Brown.
- Precisamos reformar as instituições internacionais no ano que vem para enfrentarmos os desafios em comum.
A carta de intenções divulgada no fim da conferência de Copenhague não foi aprovada consensualmente no plenário da COP-15. Este procedimento é fundamental para que as decisões, em eventos organizados pela ONU, tenham valor legal. O estrago só não foi maior porque as discussões foram concluídas sem atingir seus maiores objetivos, como a definição de metas de redução dos gases-estufa para cada país.
Os britânicos ressentiram-se com a exclusão de Brown e da União Europeia do grupo que formulou a proposta aprovada no último dia da conferência. O texto foi resultado de um encontro de Brasil, China, Índia, África do Sul e Estados Unidos.
Europeus dizem que não foram excluídos
Maior emissora de gases-estufa do mundo, a China foi apontada pelo ministro britânico do Meio Ambiente, Ed Miliband, como a maior culpada pela frustração que marcou o fim da COP-15. Miliband, porém, negou que a União Europeia tenha sido deixada de lado na elaboração do documento final.
- Na verdade, as maiores decisões aconteceram durante discussões entre líderes de 30 países, entre os quais estavam Gordon Brown, (o presidente francês) Nicolas Sarkozy e (a chanceler alemã) Angela Merkel - destacou. - O resultado final foi decepcionante, mas a ideia de que rejeitar o acordo é a melhor forma de protestar pelas pessoas pobres, as primeiras a enfrentar as mudanças climáticas, é simplesmente ridícula.
Mídia americana minimiza fiasco
Posição dos EUA é considerada avançada
O mundo amarga a falta de resultados concretos da cúpula de Copenhague, mas, nos EUA, a situação é diferente. Alguns dos mais importantes jornais americanos publicaram reportagens e editoriais que minimizaram o fiasco e amplificaram a participação do presidente Barack Obama, que deixou a Dinamarca sob críticas de vários países.
O "Wall Street Journal" publicou em seu site manchete dizendo que havia sido alcançado um acordo. E o "New York Times" ontem publicou editorial em que eleva Obama a artífice de um acordo significativo. "As conquistas de Copenhague não são triviais, dadas a complexidade do tema e as diferenças entre os países ricos e pobres. O presidente Obama merece muito do crédito. Ele chegou quando as negociações estavam à beira do colapso, passou 13 horas em negociações ininterruptas, em especial com os chineses. Com o tempo se esgotando - e com a ajuda de China, Índia, Brasil e África do Sul - ele forjou um acordo que quase todas as 193 nações aceitaram", disse o "New York Times".
Em seguida, o mesmo editorial transforma a proposta americana de levantar US$ 100 bilhões ao ano a partir de 2020 para um fundo climático em "uma surpreendente oferta de US$ 100 bilhões das nações industrializadas para ajudar os países pobres... A oferta teve um efeito apaziguador instantâneo em muitas nações pobres que haviam ameaçado abandonar as negociações". Na verdade, nem os EUA nem o texto negociado em Copenhague explicam como esses recursos serão obtidos. No sábado, na principal notícia do "New York Times" sequer o nome de Brasil, China, Índia e África do Sul foi mencionado com destaque, aparecendo apenas no fim da matéria.
O Globo, 22/12/2009, Ciência, p. 39
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