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Brasil vai 'esconder' gás carbônico no fundo do mar

OESP, Economia, p. B20
01 de Out de 2008

Brasil vai 'esconder' gás carbônico no fundo do mar
Petrobras começa em 2009 a testar sistema que joga o CO2 em poços submarinos, diminuindo a poluição do ar

Andrea Vialli

A polêmica tecnologia que permite capturar e enterrar o gás carbônico no subsolo dos oceanos - conhecida como captura e armazenamento geológico de carbono - começa a ser testada no primeiro semestre de 2009 no Brasil. A Petrobrás vai começar a operar os primeiros pilotos da tecnologia, em áreas já usadas para exploração de petróleo, na bacia de Campos e no campo de Miranga, na Bahia.

O processo de injetar gás carbônico em poços de petróleo é uma prática já conhecida entre as petrolíferas, pois ajuda a aumentar a produtividade dos poços de exploração. Agora, a intenção das empresas seria compensar uma parte da poluição que, lançada na atmosfera, contribui para causar o efeito estufa. No processo, o carbono que seria lançado pelas refinarias é capturado por dutos, e o gás é injetado no subsolo.

"Essa técnica já é usada para aumentar a produtividade dos campos de óleo desde a década de 1960 nos Estados Unidos, e no Brasil desde 1987. A diferença agora é a escala em que vai ser feita, e com o propósito de manter o CO2 armazenado no subsolo por muito tempo", diz João Marcelo Ketzer, coordenador do Centro de Excelência em Pesquisa sobre Armazenamento de Carbono (Cepac), ligado à PUC/RS.

Segundo o pesquisador, alguns projetos-piloto já estão em desenvolvimento no País. São minas de carvão e aquíferos salinos que estão sendo testados para armazenar carbono. A expectativa da Petrobrás é estocar 10 milhões de toneladas de CO2 até 2014. No Cepac, já são 65 pesquisadores desenvolvendo estudos sobre o tema, com um orçamento de R$ 35 milhões, a maior parte da Petrobrás e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

No mundo todo há três grandes projetos em andamento: na Noruega, pela petrolífera Statoil, no Canadá, pela EnCana, e na Argélia, pela BP. "A princípio, empresas de todos os setores podem compensar suas emissões com a tecnologia. As petrolíferas estão liderando esse processo porque já têm know-how", diz Ketzer.

PALIATIVO

O uso da tecnologia, porém, é polêmico. Embora figure como uma das sugestões para combater o aquecimento global por parte dos cientistas do IPCC, o painel do clima da ONU, os críticos acham que é só uma maneira de varrer o lixo para debaixo do tapete. Segundo o IPCC, até 2050, será preciso eliminar 25 bilhões de toneladas de CO2 por ano da atmosfera, e o processo de captura e armazenamento de carbono poderia estocar pelo menos 20% desse volume.

Para Marcelo Furtado, diretor executivo do Greenpeace, o investimento na tecnologia de estocagem de carbono é um paliativo. "Alguns vêem essa tecnologia como a corrida ao pote de ouro. Mas pesquisas já mostram que não será possível usar a tecnologia em larga escala antes de 2030, o que faz perder sua eficácia para conter o aquecimento global", avalia. Outros entraves são o alto custo do sistema e questões de segurança.

Essas preocupações levaram outra ONG, o Instituto Ecoar, de São Paulo, a traçar o primeiro estudo dos impactos socioambientais da tecnologia.Segundo a diretora do Ecoar, Miriam Duailibi, a tecnologia pode permitir que o País explore os recursos do petróleo sem ônus para o meio ambiente e a população. "A demanda por energia no mundo só cresce, e, por mais que nós queiramos fontes renováveis, ainda vai levar de 20 a 30 anos para que essas fontes se tornem baratas. Ainda vamos precisar dos combustíveis fósseis."

OESP, 01/10/2008, Economia, p. B20

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