O Globo, Ciência e Vida, p. 28
06 de Fev de 2007
Brasil terá embaixador de mudança climática
Celso Amorim rechaça críticas feitas ao país sobre desmatamento e afirma estar estudando criação de cargo
Eliane Oliveira
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, reagiu ontem às críticas internacionais sobre a falta de empenho do Brasil na redução do desmatamento da Amazônia para conter o aquecimento global. Amorim disse que o Brasil jamais fugiu de seus compromissos na defesa do meio ambiente e rechaçou as críticas de que o país não está dando a devida importância à preservação da Amazônia. O ministro aproveitou para atacar os países desenvolvidos, por conta das emissões de CO2 na atmosfera.
- Assim como o Ártico, a Amazônia é mais uma vítima do processo de industrialização. Se as emissões de gases no Hemisfério Norte continuarem do jeito que estão, não adianta fazermos tudo o que nos pedem, porque a Amazônia acabará - destacou.
Os recentes e alarmantes diagnósticos sobre o aquecimento global levaram o ministro a estudar a nomeação de um embaixador encarregado, exclusivamente, de mudança climática. Segundo o chanceler, o assunto ganhou importância significativa e merece atenção especial do governo brasileiro.
- Ainda estou analisando quem poderia ficar com essa tarefa. Primeiro vou olhar todos os cargos comissionados e gratificações, para ver se posso atrair um bom embaixador para essa função - afirmou Amorim.
Após receber no Itamaraty o ministro de Negócios Estrangeiros do Canadá, Peter MacKay, com quem conversou sobre o tema, Amorim defendeu a intensificação do diálogo entre as nações desenvolvidas e em desenvolvimento sobre o meio ambiente.
Amorim: cláusulas ambientais são obstáculos
O chanceler, porém, deixou claro que a postura do governo brasileiro não significa que o Brasil cederá às pressões dos europeus, que sempre quiseram incluir, nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) - a Rodada de Doha - cláusulas ambientais.
- Não gostamos dessas cláusulas. E não é porque somos contra defender o meio ambiente. O problema é que, de forma geral, tratam-se de mero disfarce para medidas protecionistas, às vezes até com efeitos perniciosos sobre o meio ambiente - afirmou o ministro.
Ele citou como exemplo a obrigatoriedade de se usar produtos reciclados. Em sua opinião, essa é uma medida que pode prejudicar projetos de desenvolvimento florestal sustentável em países em desenvolvimento. Por isso, Amorim acredita que cláusulas ambientais são um "desincentivo" ao meio ambiente.
- Queremos um tratamento que realmente beneficie o meio ambiente. Mas primeiro precisamos saber qual a cota de carne ou de frango que a União Européia vai nos oferecer - disse Amorim, referindo-se à rígida postura da UE quando o assunto é liberalização das importações agrícolas de nações em desenvolvimento.
O chanceler brasileiro anunciou que Brasil e Canadá criarão um diálogo estruturado na área de energia. Disse também que serão reforçadas as conversas sobre meio ambiente e mudança climática. Uma das vantagens do setor energético brasileiro, destacou Amorim, é o fato de sua base maior - as hidrelétricas - não contribuírem para o aquecimento global.
- Estamos fazendo nossa parte - afirmou.
O Ministério do Meio Ambiente admite que o Brasil ainda está entre os países que mais emitem gases de efeito estufa. No entanto, a ministra Marina Silva ponderou, na sexta-feira passada, que os países ricos são responsáveis pela emissão de 80% de gases poluentes do planeta.
- Mesmo que os países em desenvolvimento conseguissem zerar suas emissões, os 80% lançados pelos países ricos causariam uma catástrofe do mesmo jeito, inclusive destruiriam as nossas florestas - afirmou a ministra.
O Ministério do Meio Ambiente informou que o desmatamento praticado no Brasil em 2006 foi 52% menor em relação aos dados de quatro anos atrás. Isso teria evitado o lançamento de cerca de 430 milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera. A conquista tem um custo estimado de R$ 100 milhões, correspondentes ao valor dos programas do governo federal de combate ao desmatamento.
Colaborou Carolina Brígido
O Globo, 06/02/2007, Ciência e Vida, p. 28
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