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Brasil: subida do mar ameaça causar catástrofe

O Globo, Ciência e Vida, p. 40
12 de abr de 2006

Brasil: subida do mar ameaça causar catástrofe
Boa parte da Ilha de Marajó desaparecia. Destino similar teriam Santos e Atafona. Rio também seria afetado

Ana Lucia Azevedo

Muito se fala sobre a elevação do nível dos mares causada pelo aquecimento global. Bangladesh será inundado. Nova York, alagada. Mas o impacto previsto para o Brasil é pouco discutido. Uma pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), porém, traz dados brasileiros e um cenário de destruição. Cumpridas as previsões de elevação do mar publicadas mês passado pela revista "Science", a Ilha de Marajó seria reduzida quase à metade. O mesmo destino teriam outras áreas do Brasil, como Santos e Atafona (norte do Estado do Rio), que compartilham muito da geologia de Marajó.
Efeitos começariam a ser sentidos em décadas
É uma tragédia climática que pesquisadores dizem ser provável ocorrer não em séculos, mas em décadas. Alguns efeitos seriam percebidos em 25 anos, apenas uma geração. A distinção entre ser provável e poder acontecer parece sutil. Mas faz toda a diferença, dizem cientistas. Há agora dados de satélites mais confiáveis sobre a progressão do degelo da Groenlândia e da Antártica Ocidental. Se ambas derreterem, despejarão água suficiente para aumentar em cinco ou seis metros o nível dos mares. E a projeção de cientistas da Universidade do Arizona (EUA), autores da pesquisa na "Science", é que isso ocorra até o fim do século, pois o nível dos mares sobe mais depressa do que o imaginado.
A pesquisa sobre a Ilha de Marajó foi realizada por pesquisadores da Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe. Eles escolheram Marajó porque tinham dados consolidados sobre características geológicas e ecológicas da ilha, situada na foz do Rio Amazonas, no Pará. Além disso, a ilha tem altitude baixa, em sua maior parte inferior a quatro metros.
Marajó é uma gigante com 48 mil quilômetros quadrados, a maior ilha fluvial-marítima do mundo. Maior, por exemplo, do que o Estado do Rio, que não chega a 44 mil quilômetros quadrados.
Segundo a simulação do Inpe, dois metros de elevação do Oceano Atlântico serão suficientes para alagar 28% da ilha. Se o aumento chegar a seis metros, 36% de Marajó desaparecerão sob as águas.
- Todo um ecossistema desaparecerá. Marajó tem ainda um rico patrimônio arqueológico, uma herança de milhares de anos. A perda será dramática - disse Oton Barros, um dos autores do estudo, feito em colaboração com Márcio de Morrison Valeriano e Paulo Roberto Martini. Os cientistas usaram ainda dados de pesquisa realizada por Dilce de Fátima Rossetti, também do Inpe.
O grupo fez simulações computacionais e análises baseadas em imagens do satélite Landsat e do SRTM (Shuttle Radar Topographic Mission), da Nasa, um radar topográfico). Foi possível fazer a simulação porque a cobertura vegetal de Marajó é esparsa e não há urbanização. Barros explica que o método usado não é adequado a cidades ou florestas densas. De acordo com os pesquisadores, Marajó sofrerá uma rápida transformação, assim que o mar começar a subir em ritmo mais acelerado.
- Nosso grupo acompanha há algum tempo catástrofes naturais e quando a pesquisa da "Science" foi publicada, achamos que era necessário analisar o que ocorreria no Brasil. Estudos como esse podem estabelecer cenários e ajudar na prevenção de desastres - diz Barros.
O pesquisador lembra que há poucos dados disponíveis e que países costeiros, como o Brasil, enfrentarão conseqüências econômicas graves. Por terem uma geologia parecida, Santos e Atafona - essa última já às
voltas com a erosão costeira - poderiam receber um impacto semelhante ao de Marajó.

Grandes cidades à beira-mar, como o Rio de Janeiro, não foram analisadas. Mas Barros observa que não é difícil imaginar que áreas baixas, como as do entorno da Baía de Guanabara, correm risco.

- As áreas mais pobres são as que mais sofrerão. O mar poderá cobrir, por exemplo, a Favela da Maré - diz ele.

O mar poderá ir cada vez mais longe. Inundações antes raras e associadas apenas a ressacas violentas e marés excepcionalmente altas poderão se tornar corriqueiras.

- Se o mar subir de forma drástica, o mundo todo sofrerá e o Brasil não será exceção - afirma.

O Globo, 12/04/2006, Ciência e Vida, p. 40

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