OESP, Internacional, p. A18
13 de Out de 2007
Brasil rejeita cana na Amazônia, afirma Dilma
Ministra diz que o País 'não precisa de nenhuma área agricultável para produzir álcool'
João Domingos e Tânia Monteiro
As ministras da Casa Civil, Dilma Rousseff, e do Meio Ambiente, Marina Silva, reafirmaram ontem que o Brasil não vai usar áreas agricultáveis destinadas à produção de alimentos para o cultivo de plantas que produzem biocombustível, como a cana-de-açúcar, matéria-prima do etanol, após apelo do presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, para que a Floresta Amazônica seja preservada e áreas onde hoje são plantados alimentos não cedam lugar para o biocombustível. "Dizer que o governo é a favor do uso de terras da Amazônia para o plantio da cana-de-açúcar é um grande equívoco", disse Dilma em São Gabriel da Cachoeira, 860 quilômetros a oeste de Manaus . "O governo é contra a produção de etanol na Amazônia."
Sobre um eventual conflito entre etanol e alimentos, Dilma disse que esse risco não existe. "Menos de 1% de terras agricultáveis é usado para produzir etanol. O Brasil não precisa da Amazônia nem de nenhuma área agricultável para produzir álcool. A segurança alimentar e a energética caminham paralelamente no Brasil. Quem diz o contrário quer confundir essa questão."
Marina Silva disse que o Brasil tem mais de 300 milhões de hectares de área agricultável, além de 50 milhões em repouso. "Para chegarmos a uma produção razoável de etanol, com garantia da segurança alimentar e ambiental, basta observar todos os critérios de zoneamento ambiental e agrícola e cumprir o que está estabelecido pelo Ministério da Agricultura - que não se vai produzir cana na Amazônia, nem abrir áreas no cerrado."
Em relação à Amazônia, a ministra lembrou que o desmatamento foi reduzido em 50% nos últimos dois anos. "Se confirmarmos a previsão do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real, chegaremos neste ano a 65%, o que representa meio bilhão de toneladas a menos de emissões de dióxido de carbono. Isso é 20% de tudo o que teria de ser reduzido pelos países ricos em dois anos. E criamos 20 milhões de hectares em unidades de conservação. Se for considerado que essas áreas ficarão de fato protegidas, é a garantia de um estoque de carbono que não será emitido na atmosfera", afirmou.
O desmatamento é a maior fonte de gases do efeito estufa no Brasil, responsável por 75% das emissões nacionais de gás carbônico.
Marina concordou, no entanto, com Pachauri quando o indiano disse não ser a hora de criar teto de emissão de dióxido de carbono para países emergentes. "Ele se refere ao princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas. Os ricos têm uma emissão histórica muito grande e os países em desenvolvimento, um emissão pequena. Mas hoje Índia, China e Brasil já têm emissão, que precisa ser tratada com toda a responsabilidade, para que em 50 anos não sejamos os responsáveis por uma grande emissão de CO2", disse Marina. Isso, no entanto, tem ser feito sem que o País abra mão de cumprir metas, disse. "Se para os países ricos é difícil mudar a matriz energética, para nós é difícil mudar o modelo de desenvolvimento."
País tem 10 cientistas no IPCC
Herton Escobar
O Nobel foi comemorado pela comunidade científica no Brasil, que tem 10 representantes entre os cerca de 600 autores que assinam os relatórios do IPCC - além de muitos outros colaboradores e revisores. "É realmente muito merecido", disse José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que há 11 anos participa do IPCC. "Embora não seja um prêmio científico, é um reconhecimento do trabalho que o IPCC tem feito. Agora os céticos terão de pensar duas vezes antes de criticar nosso trabalho." Para outro autor, Roberto Schaeffer, da Coordenação dos Programas de Pós-graduação de Engenharia da UFRJ, o prêmio "coloca a problemática das mudanças climáticas no devido lugar", mostrando que não se trata apenas de uma questão ambiental, mas de uma ameaça política, econômica e social à paz mundial. "Pela primeira vez, a humanidade se vê diante de uma ameaça comum. As mudanças climáticas são um problema de todos, e só vamos resolver esse problema se trabalharmos em parceria", avaliou, também, o matemático Pedro Leite da Silva Dias, diretor do Laboratório Nacional de Computação Científica, autor do IPCC desde 1996.
OESP, 13/10/2007, Internacional, p. A18
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