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Brasil pode fazer mais. Seria bem-vindo

O Globo, Ciência, p. 29
16 de Dez de 2009

'Brasil pode fazer mais. Seria bem-vindo'
Secretário-geral da ONU defende ações de países desenvolvidos e em desenvolvimento que sejam verificáveis

Entrevista Ban Ki-moon

Em entrevista exclusiva ao GLOBO, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirma que o Brasil pode fazer mais. O sul-coreano de 65 anos - diplomata de carreira, de fala mansa, que hoje comanda uma organização de 192 países membros -transformou as mudanças climáticas na grande bandeira de sua gestão.

Ele defende abertamente um novo tratado "robusto e amplo", diz que os chineses - segundo maiores poluidores do planeta - não estão fazendo o suficiente, e toca num ponto delicado: para ele, seja quais forem as medidas que Brasil, China ou nações ricas anunciarem, elas "têm que ser internacionalmente verificáveis".

Deborah Berlinck
Enviada especial Copenhague

O Globo: Em novembro, o senhor afirmou que Copenhague não produziria um acordo legalmente vinculante (que tenha metas obrigatórias).

Que resultado espera daqui?

Ban: Estamos trabalhando para obtermos um acordo justo, robusto e amplo em Copenhague, que teria um efeito operacional imediato, inclusive ajuda financeira de curto prazo para os países em desenvolvimento.

Isso levaria a um tratado legalmente vinculante o mais cedo possível em 2010. A maioria dos países concorda com isso.

A morte do Protocolo de Kioto está apenas sendo adiada?

Ban: Não, não estamos mudando, não estamos comprometendo nossos princípios. Vamos ter um amplo e ambicioso tratado legalmente vinculante.

Japão e Rússia estão quase saindo do Protocolo de Kioto. O Canadá está ignorando seus compromissos e os europeus dizem que não querem ficar sozinhos. Quem está levando Kioto a sério, além dos países em desenvolvimento?

Ban: O entendimento geral dos paí ses membros é continuar com o Protocolo de Kioto. Teremos acordo para uma convenção o mais depressa que pudermos em 2010. Mas aqui (em Copenhague) vamos ter um acordo politicamente vinculante cobrindo todos os elementos: metas ambiciosas para os países desenvolvidos e em desenvolvimento devem limitar suas emissões, através de ações nacionais para mitigação. Será preciso um importante pacote de ações para os mais vulneráveis, e ajuda financeira e tecnológica para os países em desenvolvimento. Precisamos ter também uma estrutura de governança global. Tudo isso nos vai nos permitir limitar que a temperatura suba além de 2 graus.

Países em desenvolvimento temem que nações ricas estejam transferindo para eles as suas responsabilidades de cortar emissões, quando pressionam China e Brasil para agir mais. O que o senhor acha?

Ban: Não é hora de jogo político de transferir responsabilidades de um para outro. Estamos diante de um desafio global que precisa de uma resposta global. O grande problema é que a mudança do clima está atingindo mais os países em desenvolvimento que não têm capacidade para se adaptar. Faço um apelo para que países desenvolvidos providenciem a ajuda financeira.

É hora para países emergentes que emitem muito, como China, concordarem com metas?

Ban:China e Índia anunciaram metas. A China vai reduzir em 40% a 45% sua intensidade energética, e a Índia, em 2 0 % a 2 5 % . É uma boa contribuição. Mas, neste momento, países desenvolvidos e em desenvolvimento podem e devem fazer mais.

O Brasil anunciou que vai reduzir suas emissões entre 36% e 39%. O Brasil também precisa fazer mais?

Ban:O Brasil também anunciou que vai reduzir em 80% o desmatamento.
No entanto, acho que pode fazer mais. Seria bem-vindo.

Estas ações de Brasil, China e outros países em desenvolvimento devem ser medidas e verificadas internacionalmente?

Ban:O plano de ação de Bali diz que países desenvolvidos e em desenvolvimento precisam adotar nacionalmente ações para mitigação, de uma forma que possam ser medidas, reportadas e verificadas.
Seja lá o que fizerem, isso tem que ser feito de uma forma verificável.

A verificação não colocaria os países em desenvolvimento em pé de igualdade com os países ricos?

Ban: Neste momento, precisamos que Copenhague chegue a um acordo.
Se deixarmos esta conferência sem um acordo, vai ser muito, mas muito pior. Precisamos de um acordo.
Para isso, bom senso, compromisso e coragem têm que prevalecer.

Países desenvolvidos concordaram com um pacote de US$ 10 bilhões nos próximos três anos, mas não há sombra de um acordo para financiamento a longo prazo. A batalha por dinheiro pode levar ao fracasso da conferência?

Ban: Acho que a ajuda financeira a curto prazo de US$ 10 bilhões está conseguindo apoio entre os paísesmembros, apesar de certos membros do G-77 (países em desenvolvimento) quererem mais.
Quanto ao longo prazo, as negociações têm que começar o mais rapida mente possível.
Sem ajuda financeira de longo prazo, um acordo não sera eficaz.

Muito está sendo deixado para os líderes decidirem. Há o risco de não haver acordo algum?

Ban: Estou convencido de que vamos ter um acordo. Não estamos aqui para o fracasso. Estamos aqui para o sucesso.

A mudança climática virou uma prioridade na sua gestão, mas há 1 bilhão de pessoas vivendo com menos de US$ 1 por dia. Por que o clima é sua prioridade?

Ban: A mudança climática afeta cada aspecto de nossas vidas, incluindo a segurança alimentar que você mencionou. Há 1 bilhão de pessoas que vão para a cama com fome todas as noites. E há 1 bilhão de pessoas que não têm acesso a água. Os efeitos não são só econômicos, cria-se instabilidade política por causa das consequências negativas da mudança do clima. Portanto, enfrentar a questão da mudança climática vai ser chave para a solução de muitas questões que estão interconectadas, como comida, energia, falta de água, segurança, saúde e instabilidade política.

O Globo, 16/12/2009, Ciência, p. 29

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