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Brasil na seca, luz mais cara

FSP, Mercado, p. A20
Autor: FREIRE, Vinicius Torres
21 de set de 2017

Brasil na seca, luz mais cara

Vinicius Torres Freire

O tempo não está bom. Trata-se aqui da falta de chuvas, não do dilúvio de lixo político. Os reservatórios das usinas hidrelétrica estão nos níveis mais baixos deste século, que teve o apagão de 2001 e a estiagem crítica de 2014-15, quando até São Paulo quase ficou sem água.
O Nordeste está no sexto ano de seca, tida como a maior em um século, tão longa quanto o horror de 1910-1915 ("O Quinze", de Rachel de Queiroz, lembra o ano triste da seca de 1915). O nível dos reservatórios da região, em 10,6% agora em setembro, está abaixo do registrado no setembro de 2001, ano do racionamento (12%).
O Sudeste tem a terceira pior marca do século, 28,4% (ante 25% no setembro da estiagem de 2014 e 21% no ano do apagão de FHC).
Nesta quarta-feira, o governo autorizou a importação de energia da Argentina e do Uruguai. Não, não se trata de risco de racionamento, favor prestar atenção.
O Brasil depende algo menos de energia de hidrelétricas. Em 2000, 94% da geração da eletricidade vinha dessas usinas e praticamente não havia alternativas de fontes; no ano passado, 73%. Os entendidos dizem que o sistema seria atualmente mais seguro (há mais linhas de transmissão, mais alternativas de geração, administração melhor etc.).
No entanto, há gente no governo que defende uma campanha de racionalização do consumo, como se cogitou na seca de 2014 no governo Dilma Rousseff, ideia vetada pela própria presidente. Os responsáveis pelo setor elétrico são a favor da campanha pelo consumo consciente. É uma atitude responsável, até porque o Brasil ainda desperdiça muita eletricidade. O diretor-geral da Aneel, Romeu Rufino, disse tal coisa em público (segundo o jornal "Valor").
No governo de fato, ainda se considera "alarmismo" tratar do assunto, pelo menos até dezembro. No Sudeste/Centro-Oeste, com 70% da capacidade de armazenamento, o dito período úmido inicia em novembro.
Por enquanto, de mais concreto, há apenas o risco de que volte a "bandeira vermelha", cobrança extra de até R$ 3,50 pelo consumo de 100 kWh, e a autorização para importar eletricidade. O Brasil vai comprar energia apenas a fim de economizar água dos reservatórios, caso a seca perdure. Por ora, as estimativas são de que deve voltar a chover normalmente a partir de outubro.
Feitas todas essas ressalvas, o fato é que há incômodo, talvez aperto, mesmo em um país em que a renda per capita terá regredido por quatro anos. Nesta década, o consumo de eletricidade em geral cresceu mais do que o PIB nos anos positivos e baixou em ritmo muito menor que o da atividade econômica em 2015 e 2016. Há alguma gordura, reservas de energia, mas de eletricidade mais cara, ainda mais em caso de seca prolongada.
O governo está para editar leis e medidas que vão mexer profundamente na ordem do setor elétrico (um projeto de liberalização ampla do mercado). Não sabemos o que será do investimento no setor, dada a penúria do governo e das estatais (se sobrar estatal e BNDES no pedaço). As novas fontes do financiamento da expansão da infraestrutura ainda são nebulosas.
Foi em um momento assim de transição, final dos anos 1990, que se gestou o desastre do apagão de 2001. Não é destino, claro, mas é bom tomar tento.

FSP, 21/09/2017, Mercado, p. A20

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciustorres/2017/09/1920380-bra…

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