GM, Agribusiness, p.B12
23 de Jul de 2004
Brasil já planta algodão transgênico
Em meados de abril, Jorge Maeda, um dos maiores produtores de algodão do Brasil e presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), enviou uma carta ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e ao ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, comunicando uma "forte suspeita" de que já estivesse sendo plantado algodão transgênico no Brasil.
"Não me pergunte onde ele é plantado, o tamanho da área nem a origem das sementes, mas o algodão geneticamente modificado já é uma realidade", diz Maeda. "Mas é claro que nenhum agricultor vai admitir porque isso é crime e ninguém quer ser preso", afirma o produtor.
Na carta enviada pela Abrapa, a entidade diz que "teme que se repita com o algodão o problema vivido pela soja. Quando o problema da soja foi levantado, grande área já era plantada com transgênicos". A carta, enviada em 14 de abril, também foi enviada para a Casa Civil, à Empresa de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e à Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária (CNA).
Enquanto o Brasil ainda discute o plantio de soja transgênica, os produtores estão contrabandeando da Argentina e da Austrália não só sementes de soja RR (resistente ao defensivo Roundup Ready, da Monsanto), mas também de algodão, milho e soja Bt, resistentes à lagarta. "Você pode ter certeza de que a soja não é a única cultura transgênica cultivada no País", diz Ywao Miyamoto, presidente da Associação Brasileira de Sementes (Abrasem). "São fortes os rumores de que as sementes estariam entrando pela fronteira com a Argentina, no caso do milho, ou pela Austrália, no caso do algodão", afirma o executivo da entidade.
Testes positivos
No interior do País, não há agricultor que admita ter plantado milho transgênico. Apesar disso, os testes já deram positivo para variedades produzidas pela Monsanto e pela Syngenta. "Já presenciei testes positivos para cargas de milho de Minas Gerais, Paraná e Campinas (SP)", diz fonte da indústria. "O milho geneticamente modificado está presente nas principais praças produtoras".
Para o algodão, os kits começaram a ser vendidos há um mês. "Começamos a oferecer o produto para responder a uma forte demanda do setor", diz Fabíola Franco, gerente da Gehaka, representante da empresa norte-americana Strategic Diagnostics Inc. (SDI), uma das principais fabricantes de testes para detecção de OGMs.
A Gehaka já vendeu 80 kits de detecção, ou 4 mil testes. Eles são capazes de reconhecer a presença do algodão RR ou o Bt. "Não houve, até agora, nenhum caso de positivo nos treinamentos que realizamos. Mas quando a indústria suspeita da presença de OGMs, invariavelmente está correta", diz Fabíola. Cada kit, com 50 testes, não sai por menos de US$ 170, ou R$ 510.
Acredita-se que as sementes de algodão estariam sendo contrabandeadas da Austrália, uma vez que Brasil e Austrália estão na mesma latitude e, por isso, têm condições climáticas semelhantes. Uma das mais populares sementes de algodão convencional cultivadas no Brasil, a FiberMax, é de origem australiana.
Apesar de "importar" essas sementes, o agricultor precisa mesmo é de uma variedade resistente à praga do bicudo. As pesquisas da Embrapa indicam que uma variedade não deve chegar ao mercado antes de dois anos.
Informática e OGMs
Os produtores estão pressionando o governo para liberar os transgênicos. "Queremos plantar dentro da legalidade, com regras claras. Ninguém quer ser um fora da lei", diz José Pupin, que cultiva 8,6 mil hectares de algodão em Campo Verde (MT). "Quando o transgênico for aprovado, quero ser um dos primeiros a testar essa nova tecnologia".
"Essa é uma situação parecida com os anos 80, quando o País fechou seu mercado de informática. O Brasil não conseguiu impedir o contrabando e, anos depois, foi obrigado a abrir suas fronteiras por uma pressão de mercado", diz Maeda. "O mesmo se passa com os transgênicos. Os custos de produção dos organismos geneticamente modificados (OGMs) são muito menores e não há como impedir o avanço da tecnologia", afirma o agricultor.
Ele calcula que o produtor de algodão poderia economizar US$ 150 por hectare cultivado, ou US$ 180 milhões, caso 100% da área fosse cultivada com transgênicos. O número de aplicações de fungicidas cairia de 14 para cerca de 6.
GM, 23 à 25/07/2004, p.B12
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