OESP, Vida, p. A14
14 de Out de 2011
Brasil inaugura em 2012 um dos maiores bancos genéticos do mundo
Ciência. Reservatório deve quadruplicar a capacidade de armazenamento de sementes da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); além de proteger plantas autóctones, há também o objetivo de desenvolver espécies mais produtivas
Jamil Chade
Enviado especial / Istambul
O Brasil vai inaugurar em 2012 um dos maiores bancos genéticos do mundo para o estoque de sementes e variedades de alimentos. A iniciativa é da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que investirá R$ 10 milhões para multiplicar por quatro a atual estrutura da instituição.
"É questão de segurança nacional, tanto por motivos econômicos quanto para garantir a capacidade de produzir alimentos para a população", declarou ao Estado o presidente da Embrapa, Pedro Antonio Arraes Pereira, durante viagem à Europa com a presidente Dilma Rousseff.
Hoje, a Embrapa armazena 200 mil espécies de plantas, sementes e informações em seu germoplasma - unidade conservadora de material genético. Com a quadruplicação dessa cifra, apenas Estados Unidos, Europa e China teriam bancos genéticos superiores aos do Brasil.
Na avaliação de Pereira, a construção do reservatório genético pretende dar garantia ao Brasil no enfrentamento de eventuais surtos de novas doenças. "É uma proteção para o futuro", disse, lembrando que os recursos genéticos podem ficar até cem anos estocados dessa forma.
O Brasil é o terceiro maior exportador agrícola, superado apenas por Estados Unidos e União Europeia. Pelas projeções da Embrapa, a produção de alimentos no mundo terá de dobrar até 2030 para abastecer os mercados. Internamente, o combate à pobreza significará consumo cada vez maior. A proteção da riqueza agrícola do País, portanto, passa a ser exigência estratégica.
Além de multiplicar o reservatório de recursos genéticos de plantas e sementes autóctones, a Embrapa promete focar suas atenções na cana-de-açúcar, tanto para desenvolver espécies mais produtivas em termos energéticos como para se proteger de pragas. Onze novas espécies de canas estão sendo trazidas dos reservatórios genéticos dos Estados Unidos para o Brasil.
Outro exemplo é a tentativa de se aproximar da China, com a abertura de um laboratório no país asiático para trazer ao Brasil resultados de pesquisas e informações genéticas sobre a soja. A soja tem origem na China e uma colaboração é vista como importante para permitir que a Embrapa possa desenvolver sementes com novas resistências. "Essa pesquisa pode dar maior resistência às nossas variedades de soja", explicou.
Para Pereira, é o comportamento do Brasil que dificulta a ampliação da base de dados genéticos, já que países como os EUA oferecem informações genéticas apenas ao ver que há uma atitude de reciprocidade. Ele critica o fato de que, no País, parte da classe política resiste a qualquer indicação de que o Brasil possa facilitar a troca de informações genéticas com um parceiro estrangeiro, alegando que o País revelaria dados fundamentais a concorrentes. Para ele, a discussão sobre a proteção de recursos genéticos pelo governo, sob a alegação de defender a soberania nacional, não faz sentido.
Estratégia. A construção do reservatório de recursos genéticos faz parte de uma estratégia de internacionalização da Embrapa. Nos últimos cinco anos, a empresa duplicou seu orçamento destinado a apoiar atividades no exterior, chegando a quase US$ 2 milhões por ano para manter projetos, escritórios e troca de informações. Apesar de ser usada como uma perna científica da diplomacia brasileira, a empresa não conseguiu do Executivo a aprovação de uma legislação internacionalizando a Embrapa.
Nesta semana, o presidente da entidade aproveitou a viagem com a comitiva presidencial para voltar a fazer o apelo ao assessor de Assuntos Internacionais da presidência, Marco Aurélio Garcia, que prometeu acelerar os trâmites.
Preservação de sementes é preocupação antiga
A preservação de sementes é um assunto estratégico que por milênios mobiliza recursos em diversas civilizações. De 8000 a.C na Mesopotâmia ao atual projeto da Noruega de um estoque global de sementes - em uma espécie de caverna a 1,3 mil quilômetros do Polo Norte -, a questão da preservação dos alimentos é considerada fundamental por governos e cientistas.
A questão da segurança também vem ganhando nova dimensão. Durante a guerra do Iraque e do Afeganistão, os estoques que esses países mantinham foram destruídos. Não eram de grandes proporções, mas cientistas creem que algumas variedades de sementes exclusivas da região foram perdidas.
Os desafios climáticos também fazem parte das ameaças. Em Honduras e nas Filipinas, bancos genéticos foram perdidos após desastres naturais. / J.C.
OESP, 14/10/2011, Vida, p. A14
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,brasil-inaugura-em-2012-um-…
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