OESP, Economia, p. B5
02 de Jul de 2007
Brasil discute acordo com Alemanha
Intenção é retomar acordo nuclear assinado em 1975 entre os dois países e incluir o etanol e fontes renováveis
Jamil Chade
Em 1975, Brasil e Alemanha assinaram um acordo nuclear que, na época, chamou a atenção do mundo, em plena Guerra Fria. Hoje os dois governos voltam a debater uma retomada do acordo.Desta vez, o Itamaraty quer transformar o entendimento em um acordo de energia que inclua aspectos nucleares, o etanol e outras fontes renováveis.
A inclusão de novos temas permitiria desfazer temores de parlamentares alemães de que o Brasil estaria querendo retomar o 'velho sonho de superpotência' nuclear. O Itamaraty reconhece que, até agora, o governo alemão não tomou uma decisão de aceitar o novo acordo. A estratégia brasileira consiste em manter certos capítulos do acordo dos anos 70, mas ampliá-lo com outros setores em que o País é competitivo.
O objetivo, segundo diplomatas brasileiros, é reequilibrar as relações com a Alemanha e não ter um acordo que apenas prevê a transferência de tecnologia de um país rico a uma economia emergente. 'Queremos um acordo de igual para igual', afirmou o diplomata Tovar da Silva Nunes, na embaixada do Brasil em Berlim. O Estado apurou que o novo acordo não significará uma nova compra de tecnologia de centrífugas para as eventuais novas usinas nucleares.
O objetivo é garantir a cooperação dos alemães no fornecimento de tecnologia para manter a segurança das usinas. Outra proposta é incluir no acordo uma cooperação para tornar mais eficiente o uso da energia nuclear no País, sem que isso signifique a venda de novos reatores. Segundo o Itamaraty, a cooperação seria válida para Angra 2 e Angra 3. Esta usina, quando estiver tanto em sua fase de construção, como em funcionamento. As eventuais novas usinas também se beneficiariam da cooperação.
Mas o acordo não se limitaria aos aspectos nucleares. O Brasil quer um compromisso que estipule a introdução de tecnologias de biocombustível na Alemanha, um pedido também do Ministério do Meio Ambiente alemão. O governo brasileiro estima que a Alemanha poderia ser um dos principais mercados para o etanol no futuro na Europa. A Comissão Européia estipulou que, até 2020, 20% dos combustíveis usados em carros no continente terão de vir de fontes renováveis.
A proposta brasileira ainda sugere que os alemães façam investimentos no Brasil na produção do etanol. A esperança de Brasília é de que o acordo não envolva apenas Estados, mas empresas privadas. Uma delas poderia ser a Sudzucker, a maior empresa de açúcar da Europa, que não esconde seu interesse no etanol.
Apesar das propostas feitas pelo Brasil, os alemães ainda não deram uma resposta se de fato estão interessados em seguir adiante com a idéia da renovação do acordo. Uma primeira reunião ocorreu em dezembro e, depois disso, a proposta brasileira foi encaminhada. Um novo encontro estava previsto para julho, mas ainda não está confirmado diante das hesitações no próprio governo alemão.
Segundo diplomatas alemães, os obstáculos para que um acordo seja assinado são vários. O primeiro deles se refere à resistência de parte do governo alemão em aprovar um acordo nuclear com outros países. O Partido Verde insiste no fechamento gradual das usinas nucleares na Alemanha nos próximos anos, como está estipulado em decisão tomada durante o governo do ex-chanceler Gerhard Schroeder. Na época, o Partido Verde fazia parte da aliança que governava o país, ao lado do Partido Social Democrata.
Pela decisão, portanto, não apenas as usinas alemãs teriam de ser fechadas como também os acordo com países teriam de ser evitados. O Brasil rejeita que um acordo de energia seja assinado com os alemães e não inclua a tecnologia nuclear.
Mas com o novo governo de Angela Merkel, seu partido (Democrata-Cristão) acredita que a opção nuclear não pode ser completamente abandonada, ainda que a decisão de fechar as usinas no país tenha sido mantida. No início do ano, a oposição apresentou uma moção ao Parlamento alemão pedindo que o acordo com o Brasil seja rejeitado. Já os deputados favoráveis à manutenção da opção nuclear estimam que, se a Alemanha abandonar a tecnologia, poderá ser superada pelos franceses e acabar dependente da tecnologia no futuro.
Sobre o etanol, há ainda dúvidas em relação ao impacto ambiental do novo combustível. Nesta semana, um grupo de 30 entidades enviou uma carta ao Parlamento Europeu pedindo que os projetos da Comissão Européia de introduzir o etanol sejam congelados e uma moratória nas iniciativas seja estabelecida até que os efeitos da produção sejam estudados.
'Precisamos de R$ 1 bi por ano'
Esse é o montante necessário por ano durante 5 anos para
Marinha terminar projeto de planta nuclear
Tânia Monteiro
Entrevista com Júlio Soares de Moura Neto, Comandante da Marinha
A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de retomar a construção de Angra 3 animou o Comando da Marinha. O órgão desenvolve o programa que visa ao domínio do enriquecimento do urânio, praticamente concluído, e a construção de uma planta nuclear e de reator nuclear, com tecnologia totalmente brasileira.
O presidente, que no início de junho defendeu a importância do projeto da Marinha, anunciou que visitará no dia 10 as instalações do Centro de Aramar, em São Paulo, onde o projeto está sendo desenvolvido. "Com a visita, aumenta a nossa esperança de que o presidente apóie o término vitorioso do programa nuclear da Marinha", declarou o comandante da Força, almirante Júlio Soares de Moura Neto. A seguir, os principais pontos da entrevista:
Como está o programa hoje?
A Marinha iniciou o programa nuclear em 1979. Nós construímos com tecnologia brasileira as centrífugas, onde o urânio é enriquecido, e essas centrífugas estão sendo montadas pela Marinha para o enriquecimento do combustível, É um trabalho de longo prazo. A outra parte é a construção da planta nuclear, para produzirmos energia, para fazer andar o motor do submarino nuclear.Precisamos apenas fazer a montagem e fazê-los funcionar, para ter certeza que o nosso reator nuclear funciona. Se ele funcionar, como temos certeza que funcionará, estará disponível para outros usos.
O programa está avançando?
Hoje o projeto está em estado vegetativo. Precisamos da garantia de repasse contínuo de recursos para colocar a planta nuclear em funcionamento. Para terminar o projeto falta muito pouco: R$1 bilhão durante cinco ou seis anos. E este ano temos só R$ 60 milhões. A grande importância do programa nuclear da Marinha é a gente ter tecnologia absolutamente nacional do enriquecimento do urânio, que só é feito hoje por cinco países no mundo. Precisamos disso para chegarmos ao reator, e, se no futuro o governo assim decidir, teremos o nosso submarino de propulsão nuclear. Isso é uma decisão além do programa da Marinha. É o passo seguinte. É uma decisão política, de governo.
OESP, 02/07/2007, Economia, p. B5
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