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Brasil deve fazer mais em relação a clima e energia

O Globo, Opinião, p. 16
04 de abr de 2014

Brasil deve fazer mais em relação a clima e energia
Eventos climáticos extremos deixam em risco a segurança alimentar do país e exigem opções menos poluentes, como investimento no álcool e no transporte de massa

O último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado esta semana, conclui que o fenômeno impacta todos os ecossistemas terrestres, do Equador aos polos, dos oceanos às montanhas. Adverte que eventos climáticos extremos levarão à ruptura áreas críticas, como disponibilidade de água e eletricidade, e terão efeitos negativos sobre a saúde; previne que a elevação dos oceanos causará danos extensos para grandes populações de cidades costeiras; e soa o alarme sobre uma grave ameaça à segurança alimentar, devido ao aquecimento global.
As temperaturas podem aumentar mais de 2 graus Celsius até a metade do século, com reflexos negativos em áreas que poderiam ser cultiváveis. Haverá importantes consequências para o Brasil ao comprometer o rendimento de safras de trigo, arroz, milho e soja. As chuvas no Nordeste podem diminuir em 2,5mm por dia até 2100, causando perdas agrícolas em todos os estados da região. Com menos chuva, a capacidade de pastoreio de bovinos de corte cairia em 25%, reduzindo a produção de carne. A oferta de pescado também poderá cair: segundo o IPCC, grandes cardumes deixarão a zona tropical nas próximas décadas, em busca de regiões de alta latitude.
O Nordeste já enfrenta três anos de seca. Na Amazônia, a elevação do nível dos rios ultrapassou muito o registro normal e o estado do Acre, por exemplo, está isolado por terra do resto do país. No entanto, em junho de 2013, o Rio Acre estava quase seco e a população enfrentava problemas no abastecimento de água. A dramática estiagem do último verão no Sudeste pôs em xeque a capacidade do sistema de garantir o abastecimento de água e de eletricidade da região. O caso mais evidente é o da cidade de São Paulo, onde o reservatório da Cantareira caiu a apenas 13%, menor nível histórico. O sistema Sudeste/Centro-Oeste responde por 70% do armazenamento de água para hidrelétricas no país e o nível médio nas represas está em 36,27%. A falta de chuvas obrigou à entrada em operação de todas as termelétricas disponíveis, energia mais cara e mais poluente.
Há distorções graves no encaminhamento dos problemas climáticos e energéticos. A gasolina é indiretamente subsidiada pelo governo, enquanto o programa do álcool - combustível brasileiro e menos poluente - é desestimulado. O grande foco continua no automóvel, quando, em paralelo, deveria haver investimento maciço no transporte público de massa nas grandes cidades. Mas, para isto, o governo precisa fazer opções que ampliem a capacidade de inversão pública.
O IPCC lembra que a adaptação às mudanças climáticas significa trabalhar com a incerteza. Mas não há saída: as autoridades devem se empenhar, em todas as esferas, para atenuar os efeitos do aquecimento global.

O Globo, 04-06/04/2014, Opinião, p. 16

http://oglobo.globo.com/opiniao/brasil-deve-fazer-mais-em-relacao-clima…

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