CB, Opinião, p. 13
Autor: BERTELLI, Luiz Gonzaga
15 de Jan de 2007
Brasil consome mais combustíveis em 2006
Luiz Gonzaga Bertelli
Presidente executivo do CIEE e da Academia Paulista de História (APH), é diretor titular adjunto de Energia da Fiesp
Em 2006, apesar do nosso crescimento medíocre, superamos os recordes de consumo dos combustíveis. Com a oferta insuficiente de gás natural, o óleo combustível cresceu cerca de 20%, quando comparado com o ano passado. O fato é conseqüência do acentuado emprego desse energético fóssil nas usinas térmicas, direcionadas inicialmente para o uso do gás natural.
Da mesma forma, as indústrias, em virtude da incerteza do abastecimento, trocaram o gás natural por óleo diesel ou óleo combustível. Inquestionavelmente, a mudança do combustível acarretará sensível prejuízo ao meio ambiente, com agravamento da poluição.
Decorrente do sucesso dos veículos flex (85% do mercado), houve aumento expressivo do uso do álcool. No período de 2005 a 2006, 2,5 milhões de veículos bicombustíveis, que consomem álcool ou gasolina, passaram a circular no território nacional. Quanto à gasolina automotiva, cresceu mais de 3%, no que tange ao igual período de 2005.
Não obstante, entre os derivados do petróleo, o gás de botijão (GLP) registrou, tão-somente, evolução vegetativa de 1,4%. Deverão ser consumidas 6,5 milhões de toneladas neste ano. A população mais carente, em face do custo do produto, embora não seja reajustado desde dezembro de 2002, voltou a queimar lenha. Outro fator responsável para ampliar o emprego da lenha é a alta carga de tributos do gás domiciliar.
A tendência, para os próximos anos, é a continuidade do crescimento do emprego do diesel no transporte da produção e da população, que já supera 40 bilhões de litros anuais.Com o consumo ascendente dos derivados do petróleo, o país precisará de novas refinarias de petróleo a fim de manter a capacidade de refino (80% das nossas necessidades), estimada em 1,8 milhão de barris/diários.
O consumo acelerado dos combustíveis é decorrente dos preços congelados da gasolina e do diesel, desde setembro do ano passado. Para o presidente da maior empresa da América Latina, a verde-amarela Petrobras, os preços internos dos derivados estão alinhados com as cotações internacionais. Segundo ele, a petroleira não perde dinheiro ao manter os preços congelados.
Em 2007, iniciaremos a adoção da política do uso do biodiesel, na proporção de 2% ao diesel. Entre as principais matérias-primas que serão utilizadas na fabricação, temos a mamona, o amendoim, o girassol, a soja, o dendê, o pinhão-manso e até gorduras dos animais. "Motores a diesel podem rodar com óleo de amendoim sem qualquer dificuldade", afirmava em 1912 Rudolf Diesel.
Entre nós, o uso do biodiesel está ligado ao alcance das metas sociais do governo (150 mil plantadores de mamona). Qualquer produtor que queira proceder à venda do biodiesel tem que apresentar o selo social, obtido por quem possui uma percentagem de produção proveniente da agricultura familiar (10% a 30%). O selo desonera alguns tributos. Os benefícios aos pequenos produtores são discutíveis e o mercado depende de escala produtiva. No último leilão da ANP, o biodiesel foi vendido por R$ 1,70 - R$ 1,90 o litro. Dessa forma, o biodiesel deverá ser bem aproveitado no interior do país, onde o diesel é mais caro ou difícil de chegar.
A biomassa é a grande solução brasileira de substituição de combustíveis fósseis (petróleo e gás natural) por energéticos renováveis e ambientalmente mais corretos. A produção do álcool deverá alcançar 55 bilhões de litros por ano em 2030. A área plantada com cana superará 14 milhões de hectares. Hoje, ocupa em torno de 6 milhões, dos quais 50% para o álcool e a outra metade para o açúcar.
Na safra em curso de 2006/2007, o Brasil produzirá mais de 17 bilhões de litros de álcool, bem próximo dos americanos. O álcool de milho é a principal aposta dos EUA, que desejam consumir em torno de 30 bilhões de litros em 2012, com subsídios de US$ 0,14/litro. Falta, no entanto, entre nós, uma política governamental a fim de financiar os estoques reguladores de álcool para que possam as indústrias gerar excedentes exportáveis. Ademais, urge a adoção de tributação mais similar nos vários estados brasileiros, em vez de variar de 15% a 32%, no caso do ICMS.
Para tanto, existe potencial agricultável de mais de 90 milhões de hectares de terra, aptos para as culturas energéticas, sem que isso concorra com a oferta de alimentos ou fibras. No interior paulista, na região de Piracicaba e Sertãozinho, encontra-se a melhor tecnologia mundial na produção de equipamentos para agroindústria energética. Poderemos, portanto, liderar a criação de nova civilização por meio da agroenergia.
CB, 15/01/2007, Opinião, p. 13
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