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Brasil caça minério nas profundezas do Atlântico

O Globo, Economia, p. 47
21 de Ago de 2011

Brasil caça minério nas profundezas do Atlântico
Com recursos do PAC, país faz expedição em busca de níquel, platina e cobalto em águas internacionais, a 1.500 km da costa

Danielle Nogueira
danielle.nogueira@oglobo.com.br

Uma cordilheira submersa a 1.500 quilômetros da costa do Brasil guarda riquezas naturais que entraram na mira do Serviço Geológico Brasileiro (CPRM), ligado ao Ministério de Minas e Energia. Com o objetivo de mapear esse tesouro escondido sob toneladas de rochas, o CPRM acaba de realizar a segunda de uma série de seis expedições em alto-mar. Todas custeadas com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que alocou R$47 milhões este ano para programas de exploração marinha, incluindo o da Elevação do Rio Grande, como é chamada a cordilheira.
Por sua distância - para se ter uma ideia, os blocos do pré-sal estão a 300 quilômetros da costa - e pelo pouco conhecimento que se tem da cordilheira, a Elevação do Rio Grande é tida como uma nova fronteira exploratória de minérios valiosos. Nela foi identificada a presença de níquel, platina, cobalto e até das chamadas terras raras, um conjunto de minerais muito usados nas indústrias de telecomunicações e eletrônicos.
A cordilheira está localizada em águas internacionais, uma área que é considerada patrimônio da Humanidade e que está sob jurisdição das Nações Unidas. Na fase atual de exploração, quando a finalidade ainda não é comercial, qualquer país tem liberdade para ancorar seus navios na região e realizar pesquisas sem comunicação prévia. Depois de mapeadas as riquezas, é preciso pedir permissão à Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, ligada à ONU. Uma vez concedido o pedido, apenas o país que obteve a concessão da área pode atuar nela.
O Brasil corre contra o tempo para assegurar seu direito de exploração sobre a Elevação do Rio Grande. A ideia é fazer a requisição em 2012. Atualmente, estão em análise da ONU pedidos de França, Alemanha, Japão, China, Coreia do Sul, Rússia e Índia, além de um consórcio formado por países do Leste da Europa e Cuba.
- É uma questão político-estratégica e econômica. Estamos garantindo que o Brasil tenha recursos estratégicos no futuro - disse Kaiser Gonçalves de Souza, chefe da divisão de geologia marinha do CPRM.

Pesquisador teme perda de biodiversidade
Para colher amostras, uma draga é arrastada sobre a cordilheira

A cordilheira Elevação do Rio Grande tem uma área equivalente a duas vezes o estado de São Paulo e se estende por uma faixa que vai de Santa Catarina ao Rio Grande do Sul. Seu ponto mais alto fica a 600 metros abaixo da superfície da água, e o mais profundo, a quatro mil metros. Por suas dimensões, não é difícil imaginar como essa caça ao tesouro em pleno oceano é complexa e pode impactar o ecossistema local.
Para recolher as amostras, os pesquisadores lançam ao mar uma draga de três metros de comprimento e que tem uma boca de 1,5 metro de diâmetro. Eles a arrastam sobre a cordilheira, fazendo com que pedaços de rocha sejam capturados por uma rede presa à draga, como numa pesca. Tudo é filmado e transmitido ao convés em tempo real. Em seguida, essas rochas são levadas para o navio, onde os pesquisadores fazem as primeiras análises em um laboratório flutuante. Ao todo, são 38 pesquisadores, entre geólogos, biólogos e oceanógrafos.
O problema, na opinião de David Zee, professor da Faculdade de Oceanografia da Uerj, é que é muito difícil se ter pleno controle sobre o que acontece no fundo do mar. Além disso, ao trazer à superfície material que está depositado no fundo do oceano há milhares de anos, é praticamente impossível não alterar o ecossistema:
- Esse tipo de exploração traz à tona partículas diferentes das que hoje estão em suspensão. Organismos filtradores, por exemplo, podem simplesmente entupir, caso a quantidade de matéria orgânica ou inorgânica trazida à superfície for grande.
Governo quer atuação da iniciativa privada
O oceanógrafo também teme que o metabolismo dos organismos se altere e que, com o tempo, haja perda da biodiversidade. Ele frisa a necessidade de se fazer um inventário da fauna e flora locais, para mitigar o impacto, caso a exploração comercial seja levada a cabo.
O chefe da divisão de geologia marinha do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Kaiser Gonçalves de Souza, diz que serão feitos estudos de impacto ambiental antes de qualquer concessão comercial e que, no momento, os biólogos da equipe estão mapeando as espécies marinhas. Já foram encontrados peixes, camarões e corais, todos velhos conhecidos dos pesquisadores.
As duas primeiras expedições à Elevação do Rio Grande foram feitas a bordo do navio francês Marion Dufresne. Possivelmente, as próximas quatro usarão a mesma embarcação. Embora o programa de exploração seja integralmente bancado com recursos públicos, o objetivo do Ministério de Minas e Energia é que a iniciativa privada participe do projeto. (Danielle Nogueira)

O Globo, 21/08/2011, Economia, p. 47

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