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Brasil: 8 séculos para conhecer biodiversidade

O Globo, Ciência e Vida, p. 32
22 de mar de 2006

Brasil: 8 séculos para conhecer biodiversidade

Oito séculos. Mantido o ritmo atual de identificação de novas espécies no Brasil - 1.500 por ano - levará uns 800 anos longos anos para que terminemos de contabilizar toda a nossa biodiversidade. Mais tempo de inventário do que o Brasil tem de História. E não é só uma questão de números e catálogos. É estratégia. Pois sobram exaltações à fabulosa biodiversidade brasileira, mas faltam indicadores seguros para melhor aproveitá-la e protegê-la.

O cálculo está no livro "Avaliação do conhecimento da biodiversidade brasileira", organizado pelo biólogo Thomas Lewinsohn, a ser lançado na 8 Conferência das Partes da Convenção de Diversidade Biológica (COP8), em Curitiba. Lewinsohn, professor titular do Instituto de Biologia da Unicamp, coordenou uma equipe de 400 especialistas e consultou uma vasta documentação científica para realizar o mais completo balanço do conhecimento atual sobre a diversidade biológica brasileira, num trabalho realizado para o Ministério do Meio Ambiente com financiamento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Hoje, o Brasil tem entre 170 mil e 210 mil espécies descritas de plantas, animais e microorganismos. Mas no livro estima-se que o número real esteja em torno de dois milhões de espécies, cerca 13% do total projetado para a Terra. A obra foi divida em sete áreas: diversidade genética, diversidade microbiana, invertebrados terrestres, invertebrados marinhos, organismos de água doce (exceto vertebrados), vertebrados e plantas vasculares terrestres.

- No ritmo atual é impossível terminar esta tarefa porque boa parte das espécies ainda desconhecidas desaparecerá antes. A região neotropical, onde está o Brasil, é a menos conhecida do planeta. Isso significa uma tarefa quase sem fim. Por isso é indispensável estabelecer prioridades - diz Lewinsohn.

E é exatamente isso que o livro faz. E traz surpresas. Animais belos e carismáticos como a onça-pintada e o muriqui (o maior macaco das Américas) sempre terão seu lugar. Mas os pesquisadores brasileiros dizem que é o momento de olhar para criaturas de aparência insignificante. Elas vivem em mundos ocultos e representam o inexplorado. Motivos para estudá-las vão da necessidade pura e simples de conhecer melhor a natureza à importância econômica considerável que sua identificação terá para o país.

- A maior urgência talvez seja conhecer melhor a diversidade microbiana. A maioria das bactérias e fungos é mal estudada - frisa Lewinsohn, ele próprio um ecólogo que estuda insetos associados a plantas nativas muito raros na natureza, onde são comuns as descobertas de novas espécies.

Até alguns anos atrás não havia técnicas específicas para estudar esses microorganismos. Eles eram analisados com métodos para investigar parasitas.

- As novas técnicas revelam um mundo incrível, cujas interações e aplicações estamos longe de conhecer - diz o cientista.

Outra prioridade é a biota do solo. Pouquíssimo conhecida, é formada por criaturas sem qualquer charme evidente, como vermes e ácaros. Mais uma vez, as aparências enganam. A biota do solo é essencial à manutenção dos ecossistemas. Está em linha direta com os nutrientes sem os quais não há nem florestas nem campos agrícolas.

Um outro grupo praticamente desconhecido e considerado importante é dos gorgulhos. Formam uma vasta - mais de cem mil espécies estimadas - família de besouros também conhecidos como carunchos.

- Esse grupo tem grande importância econômica porque nele estão muitas pragas agrícolas. Desconhecê-lo pode causar prejuízos de milhões de dólares - afirma o cientista.

Ele diz que todos os biomas brasileiros - mesmo a Mata Atlântica - são pouco conhecidos. Pantanal e caatinga, porém, são quase terra incógnita no que diz respeito à biodiversidade.

- Temos que estabelecer uma estratégia de biodiversidade e pô-la em ação logo. Uma coisa que está clara é que não há tempo a perder - conclui.

As prioridades

Entre as recomendações e destaques do livro estão:

FRONTEIRAS: A copa das árvores (o dossel das florestas) e o solo são as grandes fronteiras a explorar. Outras áreas importantes são as águas costeiras.

CARÊNCIAS: O Brasil tem especialistas de bom nível acadêmico, mas faltam técnicos. Faltam também coleções e bibliotecas - as existentes estão concentradas em Sudeste e Sul. Além disso, o país não tem catálogos de espécies, que poderiam ser elaborados em cinco anos. É preciso estimular a formação de especialistas em algumas áreas, como microorganismos.

LEI: Falta intercâmbio acadêmico, inclusive com pesquisadores no exterior. A lei brasileira inviabiliza, por exemplo, a troca de amostras.

O Globo, Ciência e Vida, 22/03/2006, p. 32

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