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A bolha alimentar e da água

Revista Eco 21 - www.eco21.com.br
Autor: Lester Brown
01 de mar de 2010

À medida que a demanda hídrica triplicou durante o último meio século, suplantou a produção sustentável dos aquíferos em dezenas de países, provocando a queda dos lençóis freáticos. Na verdade, os governos estão atendendo à demanda crescente de alimentos com a extração excessiva de água subterrânea, uma ação que, praticamente, garante a queda de produção de alimentos quando o aquífero estiver exaurido. Conscientemente ou não, os governos estão criando uma economia de "bolha alimentar".
À medida que o consumo de água aumenta, o mundo se expõe a um historicamente recente gigantesco déficit hídrico, em grande parte invisível, que cresce aceleradamente. Uma vez que não é visível a iminente débâcle hídrica, ela se traduz na queda de lençóis freáticos; a merma das águas subterrâneas só é descoberta, geralmente, quando os poços secam. Quando a demanda pela água ultrapassa a produção sustentável de um aquífero, o descompasso entre os dois aumenta cada vez mais. No primeiro ano em que a linha é cruzada, o lençol freático cai muito pouco, com um declínio quase imperceptível. Entretanto, a cada ano a queda anual é superior ao ano anterior.
As bombas a diesel ou elétricas, que permitem a extração excessiva foram disponibilizadas mundialmente aproximadamente ao mesmo tempo. A quase simultânea exaustão de aquíferos significa que as reduções nas colheitas de grãos ocorrerão em muitos países mais ou menos na mesma época. E isto acontece quando a população mundial cresce anualmente em mais de 70 milhões de pessoas.
Os aquíferos estão sendo exauridos em dezenas de países, inclusive na China, na Índia e nos Estados Unidos que, conjuntamente, colhem metade dos grãos mundiais. Sob a planície Norte da China, que produz mais da metade do trigo e um terço do milho desse país, a queda anual do lençol freático aumentou de uma média de 1,5 metros há uma década, para mais de 3, na atualidade. O bombeamento excessivo já exauriu, em grande parte, o aquífero raso; assim o volume de água que pode ser bombeada anualmente se restringe à recarga anual das chuvas. Isto está forçando a perfuração do aquífero profundo da região, o qual, infelizmente, não é recarregável.
He Quincheng, Diretor do Instituto Geológico de Monitoração Ambiental em Beijing, observa que à medida que o aquífero profundo sob a planície Norte da China se exaure, a região perde sua última reserva hídrica, que é seu único recurso de segurança. Sua preocupação é espelhada num relatório do Banco Mundial: "Dados empíricos indicam que poços profundos perfurados em torno de Beijing, hoje, precisam atingir mil metros para alcançar água doce, aumentando dramaticamente o custo do abastecimento". Utilizando termos fortes, algo raro para o Banco Mundial, o relatório prevê "consequências catastróficas para as gerações futuras", caso o uso e abastecimento da água não sejam rapidamente colocados em equilíbrio.
A Índia, hoje com uma população de mais de um bilhão, está extraindo excessivamente os aquíferos em vários Estados, inclusive Punjab (o celeiro do País), Haryana, Gujarat, Rajasthan, Andhra Pradesh e Tamil Nadu. Dados coletados no último decênio indicam que sob o Punjab e Haryana, os lençóis freáticos estão caindo a uma taxa de 1 metro por ano. David Seckler, ex-Diretor do Instituto Internacional de Gestão Hídrica, estima que a exaustão dos aquíferos possa reduzir a colheita de grãos na Índia num quinto. Nos Estados Unidos, os lençóis subterrâneos caíram mais de 30 metros em partes do Texas, Oklahoma e Kansas, três dos principais Estados produtores de grãos. Consequentemente, os poços estão secando em milhares de fazendas no Sul da Great Plains.
O Paquistão, uma nação com 170 milhões de habitantes que ainda cresce a um ritmo de 4 milhões por ano, também exauri seus aquíferos. Na parte paquistanesa da planície fértil do Punjab, a queda do lençol freático é aparentemente semelhante à da Índia. Na província de Baiuchistan, uma região mais árida, o lençol freático em torno da capital, Quetta, está se reduzindo a um ritmo de 3,5 metros anuais. Richard Garstang, especialista hídrico e chefe da representação do WWF no Paquistão, diz que "dentro de 5 anos Quetta ficará sem água, caso o ritmo de consumo atual continue".
No Iêmen, o lençol freático cai cerca de 2 metros ao ano. Em sua busca por socorro, o Governo do Iêmen perfurou poços experimentais na Bacia do Sana'a, onde se localiza a capital, com 2 km de profundidade, não conseguindo encontrar água. São níveis normalmente associados à indústria petrolífera. Com uma população de 23 milhões, crescendo a um ritmo de 3,3% ao ano, uma das maiores taxas do mundo, e lençóis freáticos diminuindo por toda parte, o Iêmen está rapidamente atingindo um estado hidrológico desesperador. Christopher Wards, do Banco Mundial, observa que "a água subterrânea está sendo extraída num ritmo tal que setores da economia rural poderão desaparecer dentro de uma geração".
No México, com uma população de 108 milhões cuja projeção é a de atingir os 150 milhões em 2050, a demanda pela água está excedendo a oferta. No estado agrícola de Guanajuato, por exemplo, o lençol freático cai 2 metros, ou mais, ao ano. Em nível nacional, 52% de toda a água extraída do subsolo procedem de aquíferos bombeados excessivamente.
A escassez hídrica, outrora uma questão local, hoje atravessa fronteiras internacionais através do comércio internacional de grãos. Por exigir mil toneladas de água para produzir uma tonelada de grãos, a importação de grãos é a forma mais eficiente de importar água. Países pressionados ao limite de sua disponibilidade hídrica satisfazem a demanda crescente das cidades e indústrias, desviando a água de irrigação da agricultura e importando grãos para compensar a perda de capacidade produtiva. À medida que o déficit se intensifica, também aumenta a competição pelos grãos nos mercados mundiais. De certa forma, a negociação nos mercados futuros de grãos é o mesmo que negociar no futuro da água.
Na China, uma combinação de exaustão de aquíferos desviou de água de irrigação para as cidades e menores preços mínimos para os plantios, está encolhendo a safra de grãos. Após atingir o pico de 392 milhões de toneladas em 1998, a colheita caiu para 346 milhões de toneladas em 2002. A bolha alimentar da China está prestes a romper. Compensou o déficit de grãos durante três anos, através da redução de seus estoques, mas, brevemente, terá que se voltar para os mercados mundiais para cobrir este déficit. Quando o fizer, poderá desestabilizar os mercados internacionais de grãos.
Embora alguns países já tenham obtido ganhos significativos no aumento da eficiência de irrigação e reciclagem da água servida urbana, a resposta costumeira à escassez hídrica tem sido construir mais barragens ou perfurar mais poços. Mas, hoje, ampliar a oferta está cada vez mais difícil. A única opção é reduzir a demanda pela estabilização populacional, e elevar a produtividade hídrica. Com quase todas as 3 bilhões de pessoas que serão adicionadas à população mundial até 2050, nascendo nos países em desenvolvimento, onde a água já é escassa, atingir um equilíbrio aceitável entre água e população poderá, agora, depender mais da estabilização populacional do que de qualquer outra ação.
O segundo passo a ser dado para a estabilização da situação da água é o de elevar a produtividade hídrica, do mesmo modo que fora aumentada a produtividade agrícola. Após a II Guerra Mundial, com a população projetada então para dobrar até o ano 2000 e com pouca terra nova para ser cultivada, o mundo se lançou num gigantesco esforço para elevar a produtividade das terras cultivadas. Como resultado, esta produtividade quase triplicou entre 1950 e 2000. Chegou a hora de ver o que poderemos fazer com a água.

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