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Bispo de Barra faz projeto paralelo

CB, Brasil, p.14
06 de Nov de 2005

Enquanto aguarda encontro com Luiz Inácio Lula da Silva, dom Cappio debate proposta de revitalização do rio, elaborada por ONGs, com as comunidades do semi-árido. Ele quer apresentar o novo texto ao presidente
Bispo de Barra faz projeto paralelo
Ullisses Campbell
Um mês depois de encerrar a greve de fome que fez em protesto contra o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco, o bispo de Barra (PE), frei Luiz Cappio, aguarda o chamado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conforme foi prometido. Segundo o Palácio do Planalto, o encontro está sendo agendado”. Enquanto o convite do presidente não vem, o frei se prepara para uma nova investida. O religioso e um grupo de especialistas ligados a organizações não-governamentais (ONGs) estão finalizando um projeto de revitalização do Velho Chico tão grande quanto o coordenado pelo Ministério da Integração Nacional.
O bispo pretende entregá-lo nas mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda este mês, quando deverá ocorrer um encontro entre os dois. A partir de amanhã, dom Luiz Cappio vai peregrinar pelas comunidades ribeirinhas do São Francisco para debater o projeto. Segundo diz, o novo empreendimento vai beneficiar, de fato, a população carente. Numa das suas críticas mais conhecidas, o religioso diz que o atual projeto do governo beneficiaria apenas grandes plantadores de frutas do Nordeste.
Por enquanto, os detalhes do novo projeto estão sendo mantidos em segredo. A gente sabe que o bispo está concluindo o projeto, mas desconhece o conteúdo. Estamos esperando ele apresentar a proposta”, ressalta o coordenador-técnico do Projeto São Francisco, João Urbano Cagnin. Ele acredita que o bispo entregará a proposta ao Ministério da Integração Nacional. No entanto, Cappio já deixou claro que só aceita conversar com Lula.
Polêmica
Enquanto a audiência do presidente e o bispo não ocorre, o projeto de transposição do rio permanece em banho-maria. Uma liminar da justiça baiana impede que seja feita qualquer obra. Segundo o Ministério da Integração Nacional, só não estão parados os estudos de arqueologia nas áreas de influência do projeto e a identificação das propriedades que serão desapropriadas.
Segundo denúncia do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), as obras em diversos pontos do Nordeste não estão paradas. A entidade sustenta que o Exército está trabalhando na área onde serão construídos os canteiros e que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) está desapropriando assentamentos por onde serão construídos os dutos de água. O Ministério da Integração Nacional nega. O Exército foi contratado para asfaltar estradas na região e o contrato nada tem a ver com o projeto de transposição”, justifica Cagnin.
O projeto de transposição doRio São Francisco começou no governo de Fernando Henrique Cardoso e ganhou visibilidadeno governo Lula. Em sete anos, já foram gastos mais de R$ 30 milhões em estudos preliminares e pesquisas. No Ministério da Integração Nacional, o tema tem uma biblioteca exclusiva com mais de 200 volumes escritos depois que o projeto foi idealizado. Alvo de críticas, o projeto ganhou visibilidade depois que os governos de Alagoas e do Ceará e o bispo Luiz Cappio se tornaram seus maiores opositores. A obra prevê a construção de dutos para aproveitar a água do Velho Chico para amenizar o problema da seca no Nordeste. Com isso, o governo federal pretende fornecer água para 12 milhões de pessoas no sertão. Dois canais levarão água aos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Para a professora Rita de Cássia Ariza da Cruz, da Universidade de São Paulo, uma das consultoras de frei Cappio, o governo não conseguirá diminuir a seca apenas com uma obra de engenharia. O Nordeste brasileiro é uma das macrorregiões de maior concentração fundiária. Isto significa que a transposição, para beneficiar grande parte da população do semi-árido, só teria sentido se acontecesse junto com uma reforma agrária”, sustenta.

CB, 06/11/2005, p. 14

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