O Globo, Economia, p. 43
01 de Out de 2006
Biotecnologia para os pobres
Pesquisadores buscam soluções na genética para tratar desnutrição e doenças
Cássia Almeida e Letícia Lins
Feijão enriquecido com proteína da castanha do caju, resistente à seca e a pragas; leite de vaca que traz o fator de coagulação IX, indispensável para a sobrevivência de hemofílicos; proteína para combater imunodeficiência no leite de cabra; alface contra diarréia infantil; soja com anticorpos para diagnosticar cedo o câncer de mama; e banana enriquecida com vitamina A. É a ciência, unindo a biotecnologia, os transgênicos e a engenharia genética em geral, e produzindo efeitos para reduzir a pobreza e as doenças no país.
Nessa direção, criou-se o projeto Renorbio, a Rede Nordeste de Biotecnologia, interligada a pesquisadores de todo o país e do exterior. A idéia surgiu em 1998, mas somente em 2004, a Secretaria de Política e Programa de Pesquisa e Desenvolvimento, do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), destinou recursos para a rede começar a funcionar de verdade. Foram R$ 5 milhões naquele ano. Já em 2006, R$ 25 milhões.
- Faltam recursos, é verdade, mas temos a garantia, por meio dos fundos setoriais, de que a pesquisa terá recursos todos os anos. Considerando a população da região, serão 40 milhões de beneficiados com o sucesso dessas pesquisas - disse o secretário Luiz Antonio Barreto de Castro.
E a demanda é interminável. Lançado em julho pelo BNDES, o Fundo Tecnológico (Funtec), com recursos de R$ 153 milhões voltados também para pesquisa de doenças que atingem mais a população de baixa renda, já recebeu pedido de financiamento de R$ 497 milhões.
Feijão fradinho no lugar da carne de boi
Um desses projetos candidatos a receber o dinheiro a fundo perdido é o feijão fradinho, alimento básico e, em muitos momentos, o único para as famílias pobres do Nordeste. Como a proteína animal passa longe da mesa do homem da caatinga, principalmente durante as estiagens, os pesquisadores debruçam-se no também chamado feijão de corda, com um objetivo principal: obter uma transformação genética que deixe o grão com capacidade de substituir aminoácidos encontrados na carne bovina.
O projeto envolve mais de 50 doutores de 12 instituições, oito das quais no Nordeste. Segundo a professora Ana Maria Iseppon, chefe do Departamento de Genética da Universidade Federal de Pernambuco e coordenadora do projeto, a idéia é acrescentar ao feijão aminoácidos presentes na castanha do Pará. O problema principal, que era o componente alergênico da castanha, está sendo superado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) no Paraná:
- Estão conseguindo fazer o mapeamento genético da castanha e isolar esse gene que causa alergia.
Assim, teremos o enriquecimento protéico sem a alergia - explicou Barreto de Castro.
As experiências não param. No momento, as instituições envolvidas no projeto tentam dotar o grão de maior resistência a seca e pragas, para que deixe de ser apenas um cultivo de subsistência, transformando-se em cultura alternativa para a economia do semi-árido. Numa próxima etapa, segundo a cientista, o feijão de corda seria usado em biofábricas, facilitando a produção de substâncias como a insulina ou o hormônio de crescimento.
Também direcionados à população nordestina, os transgênicos se voltam para os animais. O professor e veterinário Vicente José de Figueiredo Freitas, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), quer incluir no embrião das cabras o Fator Estimulante de Colônia de Granulócitos humano (hG-CSF). Essa proteína é usada para combater doenças relacionadas à imunodeficiência, como Aids, e na recuperação de doentes que passam por tratamentos como quimioterapias e radioterapias:
- A idéia é implantar uma proteína humana no embrião, para que o filhote produza o leite com a proteína.
Assim, a substância será isolada e usada como medicamento. Se conseguirmos usar as glândulas mamárias para produzir essa proteína, podemos usar para outras, como a que combate a diarréia infantil no Nordeste - disse.
No fim de 2007, as pesquisas devem chegar a esse animal transgênico, e em 2009, essa cabra será capaz de produzir a proteína contra diarréia. Já foram usados R$ 1,5 milhão da Finep e foram pedidos mais R$ 1,650 milhão ao BNDES.
Na linha de animais transgênicos, a vaca tem o seu lugar. Desta vez para produzir o fator IX, que falta numa população estimada de 12 mil hemofílicos no Brasil:
- Para uma operação, pode ser necessário gastar R$ 60 mil só com esse hemoderivado. A pesquisa poderá reduzir o custo a um quinto - explicou Elibio Rech, pesquisador da Embrapa.
Banana com vitamina A
Nessa linha, estão os estudos para incluir moléculas na soja, com o objetivo de produzir um vegetal com anticorpos para diagnóstico precoce do câncer de mama:
- Esses produtos existem no exterior e uma dose custa R$ 3 mil.
Nossa expectativa é baixar para um quarto esse custo. Pesquisamos ainda fazer o mesmo com o hormônio do crescimento.
Se, para essas pesquisas, os recursos ainda existem, o mesmo não acontece com o alface contra a diarréia infantil:
- O projeto parou por falta de recursos e pessoal. A idéia é reduzir custo da vacina a quase nada.
Afinal, produzir alface é barato. Precisaríamos de R$ 300 mil a R$ 400 mil para continuarmos a pesquisa que estava sendo desenvolvida na USP - disse Rech.
A bióloga molecular Damares do Castro Monte, da Embrapa, pesquisa banana, considerado um produto básico. O objetivo é inserir na fruta a vitamina A, cuja falta provoca retardo no crescimento e cegueira.
- A banana foi escolhida por ser um alimento básico, 90% são produzidos em pequenas propriedades.
Até agora, esse projeto custou R$ 30 mil.
O Globo, 01/10/2006, Economia, p. 43
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