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Biocombustíveis no terceiro milênio

CB, Opinião, p. 17
Autor: JORGE, Miguel
22 de Fev de 2008

Biocombustíveis no terceiro milênio

Miguel Jorge
Jornalista, é ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior

Os desafios impostos pelas modificações climáticas decorrentes do desenvolvimento global e as agressões ao meio ambiente transformaram num imperativo a produção e o uso da energia adquirida a partir de fontes renováveis. Os biocombustíveis derivados de produtos agrícolas como cana-de-açúcar, plantas oleaginosas e biomassa florestal têm papel de destaque na consolidação da nova matriz energética e deverão se traduzir em novo paradigma em face da limitação das reservas de combustíveis fósseis.

A Agência das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura estima que, nos próximos 15 anos, os biocombustíveis poderão atender cerca de 25% da demanda mundial de energia. A agroenergia depende de terra disponível para expandir-se e o Brasil tem uma área agricultável de 320 milhões de hectares, dos quais apenas 60 milhões são cultivados. A estimativa oficial é de que cerca de 100 milhões de hectares estejam disponíveis para os cultivos energéticos, sobretudo cana, palma africana e florestas energéticas.

O álcool da cana brasileira é o biocombustível de maior produtividade no mundo. A produção nacional dessa cultura cresce 9% ao ano. Entre 2000 e 2006, as exportações cresceram impressionantes 3.000%. Logo após a energia hidrelétrica, a cana é segunda maior fonte de energia limpa do país. Hoje ela é processada para gerar energia em biorrefinarias, que produzem açúcar, etanol e, futuramente, bioeletricidade e produtos da alcoolquímica.

No Relatório de Desenvolvimento Humano divulgado em fins de 2007, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento apontou que as nações ricas são responsáveis por 70% dos gases causadores do efeito estufa e conclamou os norte-americanos e europeus a abrirem os mercados para o etanol brasileiro. A orientação é mais do que acertada, pois não apenas o etanol de cana produzido no Brasil é, reconhecidamente, o mais benéfico na redução daqueles gases, como também apresenta o melhor balanço energético e o menor custo de produção. Seu custo gira em torno de US$ 30 por barril equivalente de petróleo, enquanto o barril de etanol de milho custa US$ 52.

Mas, para que o álcool combustível se torne uma commodity, é preciso que se eliminem as barreiras comerciais ao produto, como já ocorre com outras commodities energéticas, como o petróleo e a gasolina.

Outro fato importante foi a assinatura de memorando de entendimento entre o Brasil e os Estados Unidos em março do ano passado. Esse acordo prevê o empenho das duas nações - líderes mundiais na produção de etanol - na padronização internacional da nova fonte de energia, uma cooperação para pesquisa dos biocombustíveis de segunda geração, derivados da celulose, e atuação conjunta na América Central e Caribe para desenvolver a produção de biocombustíveis nessas regiões.

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) está firmando parceria com a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica) num projeto de construção do mercado mundial de etanol de cana-de-açúcar, objetivando promover no exterior a imagem do etanol brasileiro como energia limpa e renovável.

O Brasil tem experimentado tal variedade em sua matriz energética que lhe dá as condições para liderar um esforço mundial de transformação dos paradigmas energéticos. Hidroeletricidade, madeira, cana-de-açúcar e outras fontes renováveis respondem por cerca de 45% da energia produzida no país. Num dos últimos pronunciamentos, ao defender a produção do etanol e biocombustíveis, o presidente Lula afirmou estar convencido de que temos o que ensinar ao mundo desenvolvido sobre a redução da emissão de gases que causam o efeito estufa.

No último dia 23 de janeiro, a União Européia publicou um plano com as metas de reduzir as emissões desses gases em 20%, elevar em 20% o uso de energias renováveis e aumentar o consumo de biocombustíveis no setor de transportes até 2020. Nesse sentido, temos experiências bem-sucedidas no Brasil, e o interesse mundial pela questão. Portanto, diante das iniciativas que começam a se desenvolver nessa direção, temos a obrigação de transmitir ao mundo boas práticas de sustentabilidade energética.

CB, 22/02/2008, Opinião, p. 17

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