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Bicho-papão ou solução?

Veja Especial, p. 52-58
31 de Out de 2004

Bicho-papão ou solução?
Eles reduzem o uso de agrotóxicos e aumentam a produtividade das lavouras. Mesmo assim, os transgênicos são demonizados pelos ambientalistas

Por Leonardo Coutinho

Como tudo o que é novidade, sobretudo no campo da ciência, os organismos geneticamente modificados, mais conhecidos como transgênicos, são atualmente alvo de grande polêmica. O mesmo ocorreu - para citar apenas um exemplo - quando, no início do século XX, o sanitarista Oswaldo Cruz se lançou numa épica cruzada para tornar obrigatória a imunização da população contra o vírus da varíola utilizando vacinas recém-desenvolvidas. Ele teve de enfrentar resistências e obstáculos de toda sorte até que a missão obtivesse êxito. Hoje é reconhecido como o mais importante cientista brasileiro de todos os tempos. A transgenia é um método por meio do qual um ou mais genes são inseridos no genoma de um organismo de outra espécie, acrescentando-lhe novas características. O caso mais famoso é o da soja modificada com o gene de uma bactéria que a torna resistente a um determinado tipo de herbicida. Mas há vários outros, como o tomate que suporta melhor o frio, graças a um gene de peixe acrescentado a seu DNA (veja quadro).
Com base na engenharia genética é possível forjar a produção de alimentos mais ricos em proteínas ou fibras e mais resistentes a pragas e moléstias. A biotecnologia não gera benefícios apenas no campo. É por meio dela que mais de 400 produtos de uso médico são obtidos a custos muito menores do que aqueles feitos pelos métodos tradicionais. Entre eles, insulina, vacina contra hepatite B e interferons, que combatem alguns tipos de câncer e infecções virais. Fatores sanguíneos usados no tratamento de hemofílicos também custam menos porque são reproduzidos a partir de bactérias transgênicas.
No caso específico da soja de laboratório, seu custo de produção é em média 20% menor que o da convencional e traz benefícios também do ponto de vista ambiental, uma vez que o número de aplicações de inseticidas chega a ser um quinto do de uma lavoura com semente comum. Além disso, o herbicida ao qual a soja transgênica é resistente combate ervas daninhas, deixando a lavoura mais limpa e mais fácil de cuidar. "São vantagens de caráter econômico e ambiental para o produtor e, conseqüentemente, para o país", diz o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.
Com o avanço da biotecnologia, os cientistas dedicam-se a um novo foco de pesquisa, que é a melhoria da qualidade dos alimentos. São os chamados transgênicos de segunda geração, como o tomate que resiste mais tempo após o amadurecimento, facilitando o transporte e o armazenamento. Com isso, o fruto não precisa ser colhido verde, procedimento que afeta o sabor e o aroma do produto. Outros exemplos são a soja com maior teor de ácidos graxos, benéficos para o coração, e a batata light, que absorve menos gordura em processos de fritura. Cientistas da Embrapa criaram uma variedade de soja que produz hormônio de crescimento.
Os pesquisadores estão desenvolvendo também "alimentos-vacina", como uma banana com anticorpos da paralisia infantil. Há ainda o bicho-da-seda programado em laboratório para produzir colágeno humano e a cabra transgênica, criada por cientistas canadenses, que produz em seu leite as mesmas proteínas da teia de aranha, as quais são utilizadas na confecção de coletes à prova de bala e na blindagem de veículos. "Os transgênicos estão mais presentes na vida do homem do que se imagina", afirma a geneticista Maria Helena Zanettini, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Os adversários dos organismos geneticamente modificados argumentam que ainda não ficou comprovado que a manipulação dos genes de plantas em laboratório não é nociva para a saúde humana nem para o meio ambiente. Entretanto, não há também nenhuma prova do contrário. Ou seja, de que façam mal. Os transgênicos fazem parte da alimentação de milhões de pessoas em várias partes do mundo desde 1994 e não foram registrados problemas de saúde relacionados a eles. Mesmo assim, a população é bombardeada com agressivas campanhas nas quais os transgênicos são apresentados como sinônimo de bicho-papão. A despeito disso, eles estão se difundindo de forma acelerada. A área cultivada com produtos do gênero no mundo passou de 1,7 milhão de hectares, em 1996, para 60 milhões, no ano passado.
Os primeiros transgênicos começaram a chegar ao mercado há apenas uma década, mas os cientistas já consideram seus efeitos tão importantes para a agricultura quanto aqueles propiciados pela chamada "revolução verde" - o movimento que, em meados do século passado, afastou o fantasma da escassez de alimentos com a introdução de herbicidas, fertilizantes e sementes mais eficientes nas plantações. Graças a essas técnicas, que também eram demonizadas, as lavouras alcançaram espetacular produtividade. Com isso, pouparam-se florestas, os alimentos ficaram mais abundantes e baratos e o consumo de um dos recursos naturais mais escassos, a água, foi reduzido.
Um estudo divulgado em maio deste ano pela Organização para Alimentação e Agricultura (FAO), agência vinculada às Nações Unidas, demonstra que nos próximos trinta anos a população do planeta ganhará mais 2 bilhões de habitantes e que a produção de transgênicos pode facilitar a obtenção de alimentos suficientes para evitar o alastramento do problema da fome no mundo. O relatório conclui que o avanço da biotecnologia poderá aumentar em 60% a produção mundial de alimentos no mesmo período. "Serão beneficiados sobretudo os pequenos agricultores dos países mais pobres, que não dispõem de recursos para investir sozinhos na melhoria de sementes", afirma o diretor-geral da FAO, o senegalês Jacques Diouf.
A Embrapa desenvolveu uma variedade de feijão transgênico melhorado com o gene da soja. Além de ser tolerante à seca, ele é resistente ao vírus do mosaico dourado, uma praga devastadora. "Essas características podem garantir a subsistência e a renda de quem depende do feijão para sobreviver na região", diz o geneticista Francisco Aragão, coordenador do projeto. A autorização para os testes de campo com a nova semente demorou quase dois anos para ser concedida. Agora, comprovada sua eficácia, não pode ser utilizada porque a legislação brasileira ainda não permite.
A falta de regulamentação e a burocracia são os principais entraves para que a pesquisa e o desenvolvimento de produtos geneticamente modificados avancem no país. A Lei de Biossegurança, que trata do assunto, tramita devagar no Congresso Nacional. O governo federal, por sua vez, cede ao lobby dos ambientalistas, capitaneados pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que é contra a liberação. Sem regulamentação consistente, as empresas não têm segurança para investir e, com isso, o país fica para trás nesse campo.
Diante desse quadro, sojicultores gaúchos acabaram utilizando sementes contrabandeadas da Argentina, onde 90% das lavouras de soja são transgênicas. Há oito anos, o agricultor gaúcho Almir Rebello tomou a decisão de seguir esse caminho. Depois de ouvir que logo ali, do outro lado da fronteira, as lavouras dos colegas argentinos eram mais resistentes a pragas, demandavam menos aplicações de herbicidas e alcançavam produtividade superior às variedades usadas no Brasil, ele não vacilou. Mesmo conhecendo a lei, Rebello e outros agricultores de Tupanciretã, a 370 quilômetros de Porto Alegre, plantaram o grão contrabandeado do país vizinho. Hoje, colhem dez sacas de soja a mais por hectare, gastam 80% menos com defensivos agrícolas e despejam na natureza menos da metade da quantidade de produtos químicos antes utilizada. Tupanciretã tem a maior área plantada com soja transgênica no país: 117 000 hectares. "Nós somos ecologistas de fato", diz Rebello. "Enquanto os ambientalistas vivem de teorias, nós fazemos um bem para a natureza na prática."

O filão dos orgânicos

No extremo oposto dos produtos transgênicos, outro mercado emerge com grande potencial de crescimento: o dos alimentos orgânicos - aqueles produzidos sem o uso de agrotóxicos e de outros insumos químicos e que, por isso, levam o selo de "ecologicamente corretos". Um levantamento feito pela Federação Internacional de Agricultura Orgânica revela que o mercado mundial de produtos do gênero movimentou 23 bilhões de dólares em 2003 e que seu consumo cresce a uma média de 30% ao ano. No Brasil, o setor movimenta 100 milhões de dólares - 30% dos quais vindos de exportações. A empresa Native Produtos Orgânicos, de Sertãozinho, no interior paulista, exporta seus produtos para 33 países e detém 60% do mercado mundial de açúcar orgânico.

Veja Especial, Out./2004, p. 52-58

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