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Berçário de orquídeas

CB, Cidades, p. 20
23 de Ago de 2004

Berçário de orquídeas

Kátia Marsicano
Da equipe do Correio

Desde o início do ano, os dias do técnico de laboratório Josué Inácio Lemos não têm sido mais os mesmos. Apesar da experiência acumulada em 19 anos de profissão, agora ele é o responsável por um dos mais importantes projetos do Jardim Botânico de Brasília (JBB). Em uma iniciativa pioneira, voltada à preservação de espécies, Josué responde pela paternidade das primeiras 100 mil mudas de orquídeas produzidas em laboratório no Distrito Federal. Apenas o Jardim Botânico do Rio de Janeiro usa metodologia semelhante no Brasil.
Atualmente, mais de 1.500 frascos com os pequenos embriões são acompanhados em um ''berçário'' de flores. ''Passo oito horas por dia cuidando delas com prazer.'' Muitas são raras e ameaçadas de extinção, como as Cattleyas granulosas, originárias das dunas de Natal (RN). Essa espécie é uma das que correm o risco de desaparecer por causa da coleta predatória e do turismo sem controle em áreas ambientalmente sensíveis.
Todas as sementes do laboratório do Jardim Botânico foram retiradas de flores-matrizes, coletadas em áreas que estão sendo degradadas e em unidades de conservação do Brasil. As futuras orquídeas terão as mesmas características das mães, porém não serão idênticas. Essa foi, justamente, uma das preocupações dos técnicos ao optar pela germinação in vitro, em vez da clonagem. Além de mais cara, a clonagem reproduziria plantas absolutamente iguais, sem as possibilidades de variação de cor e tamanho, por exemplo.
Da região Amazônica, foram trazidos para Brasília exemplares de Epidendrum sp, e do nordeste brasileiro, Cattleyas amethystoglossas, Cattleyas labiatas e Laelias fisteris. Do cerrado, vieram Cattleyas nobilior, Catasentum e Cattleyas valkerianas. São oito tipos de orquídeas que, tão logo atinjam a maturidade, serão devolvidas aos seus locais de origem.
Pelo menos metade das flores vai tomar o caminho de volta para casa. A intenção é que elas se reproduzam e retomem seu lugar no bioma ao qual pertencem. As demais vão compor o acervo do Jardim Botânico ou serão vendidas para arrecadação de recursos. Poderão ainda ser trocadas com outras instituições de pesquisa. ''Vamos fazer contato com os órgãos ambientais e oferecer a planta, que será supervisionada por nós nesta fase de reintrodução. É importante saber como elas vão reagir'', explica a diretora do JBB, Anajúlia Heringer.
A coleta de todas as orquídeas mães foi realizada pela equipe do Jardim Botânico, que enfrentou até áreas de difícil acesso para fazer o resgate. Na verdade, a equipe era formada por apenas duas pessoas: um técnico e a própria Anajúlia. As próximas coletas deverão contar com dois bombeiros, que já estão em treinamento.
O laboratório foi implantado com dinheiro do Fundo de Apoio à Pesquisa (FAP), da Secretaria de Ciência e Tecnologia, e do próprio JBB. Foram investidos R$ 90 mil na compra de equipamentos, como estufas, refrigeradores e a câmara de fluxo de laminar, responsável pela esterilização do ambiente em que é feita a manipulação das sementes.
Cuidado total
O processo de reprodução das orquídeas não é nada simples. E até que elas cheguem a viver como plantas adultas, fora do laboratório e independentes dos cuidados do técnico Josué Lemos, muito tempo vai se passar. Pelo menos mais sete meses, no caso das orquídeas que já germinaram e estão em fases mais adiantadas de crescimento.
Para as outras, que ainda são sementes, a situação é diferente. Depois de serem retiradas dos frutos (bulbos) das orquídeas e passarem no máximo 30 dias sob refrigeração, são rigorosamente selecionadas. De cada fruto, podem ser extraídas até 10 milhões de sementes, das quais apenas uma estará em condições de germinar (leia quadro).
''As orquídeas são muito exigentes nessa fase. O mesmo ocorre na natureza'', explica a diretora do JBB. Para identificar as chances de germinação, todas passam por uma avaliação em microscópio. As melhores vão para uma câmara esterilizada. Nela, o técnico Josué trabalha com luvas, máscara cirúrgica e usa instrumentos também esterilizados, para não contaminar as sementes.
A fase seguinte é a colocação das melhores em uma gelatina feita com quase 20 tipos de nutrientes, que vão servir para alimentá-las. A partir daí, os frascos com os embriões permanecem em um ambiente com luz e temperatura controladas. É o berçário que abriga as orquídeas-bebês por pelo menos 90 dias. Depois, elas irão para uma estufa, já em vasos coletivos. Até agora, nenhuma orquídea atingiu essa fase.
Na estufa, elas terão que se adaptar à vida fora do laboratório. Nesse local, devem passar mais seis meses, até crescerem o suficiente para se mudar para o viveiro. O JBB têm hoje mais de 300 espécies diferentes de orquídeas.

Variedade
As orquídeas existem em diversos ecossistemas, como florestas, campos, cerrados, dunas, restingas e até desertos. São consideradas as mais evoluídas entre os vegetais, pela capacidade de se desenvolver em tão variados ambientes. Há mais de 20 mil espécies em todo o planeta. O Brasil é um dos países mais ricos em variedade de orquídeas. Estima-se em 2.300 espécies, muitas das quais em risco de extinção por causa da coleta predatória e indiscriminada.

CB, 23/08/2004, Cidades, p. 20

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