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À beira-mar, com peixe congelado chinês

O Globo, Economia, p. 32-33
02 de Ago de 2015

À beira-mar, com peixe congelado chinês
Rio perde espaço na indústria da pesca para Santa Catarina e Pará. Com preço menor, importados avançam

THAIS LOBO
thais.lobo@oglobo.com.br

Homem faz pesca submarina nas Ilhas Cagarras, uma imagem cada vez mais rara, relatam a repórter THAIS LOBO e o fotógrafo FERNANDO LEMOS. O Rio, que já foi líder na produção pesqueira, ocupa hoje o terceiro lugar no ranking nacional, atrás de Santa Catarina e Pará. Para abastecer o mercado carioca, a indústria e o varejo já importaram 10 mil toneladas de peixes da China, como o panga. O estado que guarda no nome a relação com a pesca enfrenta nas duas últimas décadas um declínio da atividade no setor, ao mesmo tempo em que o consumo de frutos do mar avança. Com um litoral de 636 quilômetros, o terceiro mais extenso, ocupando 8,6% da costa, o Rio foi ultrapassado na produção de pesca extrativa depois de manter a liderança nas décadas de 1970 e 1980. Agora, ocupa a terceira posição do ranking, com volume de 80,2 mil toneladas em 2011, atrás de Santa Catarina (194,8 mil toneladas) e Pará (153,3 mil), estados com área de costa menor. Se levar em conta a aquicultura, o cultivo de pescado em cativeiro, o Rio cai para sétimo lugar, atrás de Pará, Santa Catarina, Bahia, Maranhão, Ceará e Amazonas, segundo o último dado divulgado pelo Ministério da Pesca. Para abastecer o mercado fluminense, a indústria e o varejo estão recorrendo cada vez mais ao peixe congelado de origem asiática.
O marco simbólico do declínio da atividade pesqueira no Rio foi o fechamento do Mercado do Peixe da Praça XV, que funcionava ali sem fiscalização desde a época do Império. Em 27 de maio de 1991, às vésperas da Eco-92, as autoridades interromperam a venda por falta de condições sanitárias. O comércio foi transferido para a Ceasa, em Irajá, e desde então, trabalhadores convivem com a promessa de um novo entreposto pesqueiro. Os desembarques de pescados são pulverizados em vários locais. O sucateamento da estrutura logística afastou as grandes indústrias, que migraram em grande parte para Santa Catarina, na região do Porto de Itajaí.
Hoje, o estado conta com apenas 1.596 empregos formais na categoria "preparação e preservação de pescado e fabricação de conservas de peixes, crustáceos e moluscos", segundo levantamento de 2013 do Ministério do Trabalho e Emprego. O número de pescadores localizados na Região Metropolitana do Rio em 1991 era de 4.774 trabalhadores, enquanto em 2010 contavam-se apenas 1.771, uma redução de cerca de 62%, segundo o IBGE.
Do ponto de vista do consumo, porém, estima-se que 69,2% da população do estado com mais de 18 anos ingere pescados ao menos um dia por semana, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE. É a sétima maior proporção entre os estados brasileiros. A cidade do Rio tem o quinto maior percentual de consumo entre as capitais: 76,6%.
Para abastecer esse mercado, peixes de outros estados e uma tsunami chinesa. Com uma produção de baixo custo, o país invadiu o mercado brasileiro com pescados baratos. Entre janeiro e junho deste ano, desembarcaram na costa fluminense 10 mil toneladas, somando um volume de US$ 27,8 milhões em transações comerciais, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Em segundo lugar vem o Chile, num total de 7,9 mil toneladas de peixes desembarcados, majoritariamente espécies de salmão.
PANGA E POLACA DO ALASCA
O país ocupa o topo do ranking em volume de peixes, mas outras nações vizinhas também têm avançado na venda para o estado. Somadas as importações dos países asiáticos, China, Cingapura, Filipinas, Indonésia, Malásia, Sri Lanka, Tailândia, Taiwan e Vietnã, o volume de peixes chega a 13,9 mil toneladas e US$ 36,8 milhões de janeiro a junho.
- Se compararmos o preço de uma merluza da China com o de um salmão do Chile, fica claro que o peixe asiático tem um custo muito menor. E num momento em que o consumidor brasileiro tem a renda comprometida, a compra desse peixe barato aumenta significativamente - aponta Lilian Figueiredo, integrante da comissão de pesca da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. - Como a produção nacional não dá conta do mercado interno, o peixe asiático está competindo seriamente com o pescado nacional, inclusive quebrando alguns produtores.
A entrada do peixe asiático no mercado brasileiro, impulsionado por uma indústria que foca na produção em larga escala e no baixo custo da mão de obra, veio permeada por lendas urbanas. Seu maior expoente, o panga, ganhou as alcunhas de peixe-gato e peixe-lixo por ter sido, historicamente, cultivado no delta do Rio Mekong, um dos mais poluídos do mundo. Assim, espalharam-se boatos de que ele seria criado no esgoto e estaria contaminado por bactérias e metais pesados. O alerta das redes resultou em duas missões do Ministério da Pesca e Aquicultura ao Vietnã para verificar as condições sanitárias dos criadores, em 2009 e em 2014. As exportações daquele país chegaram a ser suspensas, mas depois retomadas com a adequação das exigências para a exportação ao Brasil.
Hoje, o peixe já chega ao país industrializado, sem passar pela pesada carga tributária nacional. Embora produtores locais critiquem que o pescado chegue ao mercado brasileiro com alto nível de água, devido a uma substância que aumenta a absorção da carne, os exemplares asiáticos ganharam as geladeiras dos supermercados e as indústrias de congelados. No Zona Sul, peixes como o polaca do Alasca (ou merluza) e o panga, ambos de origem asiática, já representam 5% das vendas.
- É um número interessante para um tipo de produto muito recente no mercado, talvez menos de oito anos. Além de mais barato, são peixes de piscicultura, com oferta o ano inteiro - ressalta Pietrângelo Leta, vice-presidente comercial comercial da rede. - O consumo aumentou no mesmo período em que houve aumento da carga tributária para o bacalhau e o salmão, de 8% para 19%. Cresceu o preço de venda para o consumidor.
O hábito de consumo também voltou-se para os peixes congelados. Nos últimos quatro anos, o setor teve um crescimento de 15% nas vendas no Zona Sul, segundo Leta. Para ele, isso é resultado da oferta da indústria, com inovações nas embalagens e cortes de peixes, sem espinha ou pele.
- O peixe congelado permitiu que o brasileiro ponha o peixe na mesa no dia a dia. É prático, e a qualidade melhorou. Hoje, é possível comprar o peixe de grandes barcos que já fazem o congelamento a bordo - diz Thiago De Luca, diretor comercial da Frescatto, acrescentando que 25% dos pescados importados vêm de nações asiáticas. - Já fomos sete vezes ao Vietnã visitar as indústrias que nos fornecem. Quando chega, o lote passa por uma análise laboratorial.
VANTAGENS LOGÍSTICAS
A empresa é uma das poucas da indústria de processamento do peixe que manteve sede no Rio.
- A costa brasileira tem variedade de espécies, mas a produção não tem volume. O fornecimento não é constante. A sardinha, em razão dos defesos, teve aumento de produção e, com isso, conseguimos lançar uma linha completa pela primeira vez este ano - explica.
A concorrente Gomes da Costa migrou para Santa Catarina em 1998, após queda brusca no volume de sardinhas no Rio no fim dos anos 1980. A queda de produção foi um sinal de alerta, mas o fato de o estado contar com polo industrial pesqueiro em Itajaí foi crucial para a mudança.
- Há muitas vantagens logísticas. Itajaí tem o maior porto pesqueiro e a mais moderna frota de pesca do Brasil, além de mão de obra e fornecedores de qualidade - afirma Luis Manglano, gerente de marketing da companhia.
Em Santa Catarina as embarcações produtoras de sardinha têm, em média, 25 metros e capacidade para até 140 toneladas. No Rio, os barcos têm, em média, 13 metros e capacidade para até 40 toneladas. Os motores catarinenses têm quase o dobro da capacidade dos fluminenses.
- Uma embarcação catarinense não corresponde a uma do Rio. A frota de Itajaí tem autonomia para pescar no Rio e vender em São Paulo, se quiser. O fato de haver um porto permite o desembarque num local único e a instalação de uma indústria no entorno: estaleiros para manutenção das embarcações, rebocadores e equipamentos de pesca - ressalta Paulo Schwingel, professor de Engenharia Ambiental e Oceanografia na Univali, em Itajaí.
Santa Catarina chegou a dominar 70% da produção de sardinha na década de 1990. Hoje, o Rio tem produção equivalente à do estado catarinense. A sardinha, conhecida como o "frango do mar" pelo baixo valor no mercado, é o peixe mais retirado das águas por barcos fluminenses, com 46,9 mil toneladas da espécie sardinha-verdadeira, 61% do total no estado.
No Centro do Rio, os restaurantes Rei dos Frangos Marítimos, Bar Ocidental e Adega e Bar Quinta das Videras vendem, em média, numa sexta-feira, cerca de 2.400 unidades de sardinha frita a R$ 2 cada. Antes da Lei Seca, chegavam a vender 8.300 unidades do "bacalhauzinho".
Cearense do Porto, como se define, Fernando Barbosa de Ascensão, de 79 anos, foi um dos primeiros a estabelecer a venda do peixe frito na Rua Miguel Couto, onde fica o chamado Beco das Sardinhas.
- Às vezes, falta sardinha quando a pesca está proibida. Mas a gente tem ela congelada para manter a produção. Não é como antigamente, quando a gente comprava direto do barco na Praça XV. Agora, a sardinha vai de caminhão para um lado e outro, do Ceasa para a peixaria e só então para a gente - afirma o português.

O Globo, 02/08/2015, Economia, p. 32-33

http://oglobo.globo.com/economia/a-economia-do-mar-1-17034878

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