O Globo, Economia, p. 22
Autor: VIEIRA, Agostinho
28 de Mar de 2013
A batalha do carbono
Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde
Há quatro anos, São Paulo decidiu combater o aquecimento global por decreto. Aprovou uma lei estabelecendo que até 2020 as emissões de gases de efeito estufa do estado seriam 20% menores. O Rio, por sua vez, seguiu um caminho distinto. Fez diversas reuniões com empresários e sugeriu metas diferenciadas de redução para cada setor da economia. E quem obteve o melhor resultado? Nenhum dos dois.
No país do Pibinho e da inflação difícil de controlar, não há conversa ou mesmo decreto que resista. Quem manda é o crescimento econômico, a geração de emprego, o dinheiro no caixa. Mesmo que isso represente prejuízo para todos, no médio e no longo prazo. A cultura vigente segue a máxima de que no longo prazo estaremos todos mortos. Portanto, vamos faturar. Uma verdade míope, mas uma verdade.
O decreto de São Paulo tinha um claro viés político. Editado em novembro de 2009, às vésperas da COP-15, em Copenhague, esperava mostrar que o então governador e candidato à presidência, José Serra, era mais rigoroso e estava mais preocupado com o clima do que os seus adversários do PT. As emissões de CO2 do estado giram em torno de 90 milhões de toneladas. Um corte de 20% significaria 18 milhões toneladas, 50% a mais do que emitem todas as indústrias paulistas juntas. Seria ótimo se fosse verdade, mas até agora não passou de bravata.
A proposta que o então governo Lula levou para Copenhague também tinha uma conotação políticoeleitoral. O foco estava mais nos acalorados debates de 2010 do que no aquecimento global de 2020. O compromisso, depois transformado em lei, é reduzir as emissões em alguma coisa entre 36,1% e 38,9%. O prazo, 2020. Já o ano base não é 1990 ou 2005, mas uma projeção do que se estaria emitindo em 2020.
A principal diferença entre cortar 20% em São Paulo e 36,1% no Brasil é que a segunda proposta, por incrível que pareça, é mais fácil de ser atingida. Pelo simples fato de que afeta menos a chamada economia real. Se o país continuar reduzindo o desmatamento da Amazônia, acabar com os lixões e transformar o gás metano em energia, a meta pode ser alcançada antes de 2020. Se compararmos com uma dieta, dá para dizer que o Lula sugeriu cortar gordura e o Serra queria cortar na carne.
Recém-divulgados, os dados sobre emissões de gases de efeito estufa na cidade de São Paulo mostram como é difícil cortar na própria carne. Neste caso, um decreto de 1999 criou uma meta ainda mais ambiciosa que a estadual: reduzir em 30% os lançamentos de carbono entre 2003 e 2012. Os números mostram que as emissões não caíram. Subiram. As 15,7 milhões de toneladas que a cidade emitia em 2003 se transformaram em 16,4 milhões, em 2011.
E as razões são óbvias. O setor de energia, sozinho, responde por 81,9% das emissões. Ele inclui o uso de eletricidade, o consumo de gás natural e, principalmente, a queima de combustíveis fósseis no transporte. Os 4,3 milhões de carros que circulavam em 2003 se transformam em 6,6 milhões em 2011. Por mais eficientes que eles fossem - e não são -, ninguém resiste a um crescimento dessa ordem.
O corte de emissões no estado do Rio seguiu um caminho diferente. Ele se baseava no diálogo entre os diversos setores do governo e os empresários. Levou meses para ser costurado e parecia que seria anunciado com pompa e solenidade durante a Rio+20. Não aconteceu. Aos 44 do segundo tempo, pressionado pela Firjan, o governador Sérgio Cabral roeu as cordas. Os cortes eram pequenos, quase simbólicos, mas poderiam representar perda de competitividade. Ninguém quis correr o risco.
Agora surge um novo movimento que tenta implantar metas para as empresas e criar um mercado regional de carbono. Ele reuniria lideranças do Rio, de São Paulo e de Minas. Se os três estados estiverem juntos, os riscos de perda para governos e empresas seriam menores. Em Brasília, há 15 dias, representantes da União e de 13 estados se reuniram para discutir mudanças climáticas. Criaram um grupo de trabalho. Dizem que esse é o primeiro passo para não se chegar a lugar algum.
Enquanto isso, um cálculo feito pela Swiss Re, uma das gigantes do setor mundial de seguros, estima que as perdas econômicas ao longo de 2012 por conta de efeitos climáticos extremos chegaram a US$ 140 bilhões. Sendo que apenas US$ 65 bilhões estavam cobertos por apólices de seguro. Talvez seja mais fácil, barato e seguro investir numa operação eficiente em emissões de carbono do que pagar a conta no final.
30% Era a meta de redução das emissões de carbono que a cidade de São Paulo deveria ter atingido em 2012. Em 2003 foram emitidas 15,7 milhões de toneladas de CO2. Deveriam cair, mas não caíram. Subiram. Estão em 16,4 milhões de toneladas. E com viés de alta.
O Globo, 28/03/2013, Economia, p. 22
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