O Globo, Economia, p. 29
18 de Mar de 2011
Barril de pólvora em Jirau
Força Nacional é enviada para a usina. Obras estão paradas e não há previsão de retomada
Depois de uma rebelião de trabalhadores que resultou na destruição de ônibus e instalações e que levou à detenção de mais de 30 operários, a Camargo Corrêa paralisou ontem as obras de construção da Usina hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia. Um dos principais projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o canteiro de obras de Jirau abrigava 22 mil trabalhadores e está em clima de barril de pólvora desde quarta-feira. A pedido do governador Confúcio Moura, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, determinou o envio de 600 homens da Força Nacional para tentar controlar a situação. Moura também pediu ajuda de tropas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica para proteger depósitos de explosivos e fazer a vigilância do Rio Madeira e do espaço aéreo da região.
Truculência de encarregados, seguranças e motoristas é a principal queixa dos operários. E a agressão a um deles foi o estopim da rebelião. Foram depredados 60 veículos e praticamente todos os alojamentos da margem direita da obra. Operários alojados na margem esquerda só conseguiram deixar o local sob a escolta de policiais. Segundo o governo estadual, trabalhadores atearam fogo a 45 ônibus, 15 carros e 45 instalações. O incêndio teria deixado sem abrigo 12 mil peões.
Não há previsão para a retomada das obras e, ontem, o diretor-presidente do Energia Sustentável, consórcio responsável pelo empreendimento, Victor Paranhos, afirmou que a paralisação pode comprometer a entrega da usina no prazo previsto - março de 2012. O consórcio é formado por GDF Suez (50,1%), Eletrosul (20%), Chesf (20%) e Camargo Corrêa (9,9%).
A revolta provocou um êxodo de 22 mil trabalhadores (19 mil da Camargo Correa e 2 mil terceirizados). Ao longo da BR-364, que chegou a ser fechada, centenas de operários caminhavam ontem com malas nas costas, abandonando seus postos de trabalho. A situação ficou ainda mais tensa com a convocação de trabalhadores para voltar ao canteiro de obras.
- Saímos da margem esquerda porque disseram que iriam incendiar os nossos alojamentos. Fomos alojados na direita e, no meio da noite, veio o fogo. Não tive tempo sequer de pegar os documentos. Saí com a roupa do corpo. A polícia usou sprays de pimenta - contou um trabalhador que conseguiu chegar a Jaci-Paraná, perto de Jirau.
Os trabalhadores reclamam que o pagamento de horas extras foi cortado pela Camargo Corrêa. Eles reivindicam o aumento da cesta básica de R$ 110 para R$ 350 - valor estabelecida por outras empresas envolvidas na obra.
No fim da tarde de ontem, ainda havia mais de 4 mil trabalhadores no município de Jaci-Paraná e cerca de 2 mil em Nova Mutum. Eles estavam sem comida desde a manhã, porque o refeitório foi destruído durante as manifestações. Operários andaram mais de 12 quilômetros para fugir do quebra-quebra em Jirau.
A Camargo Corrêa informou que providenciou 50 ônibus para levar 19 mil trabalhadores do canteiro de obras para a capital de Rondônia, Porto Velho, que fica a 130 quilômetros de Jirau. Segundo a empreiteira, esses operários ficarão alojados num local com capacidade para 10 mil pessoas. A empresa liberou uma linha telefônica para dar informações aos trabalhadores e seus parentes: 0800 9400810.
Em Rondônia, o gerente de Relações Trabalhistas e Sindicais da empresa, Roberto Silva, disse que as queixas dos trabalhadores sobre a truculência de encarregados, seguranças e motoristas são questões pontuais:
- Mas nós vamos apurar tudo. Silva disse que a empresa não tinha conhecimento das reivindicações dos trabalhadores. E afirmou que todos os direitos dos operários serão preservados. Ele confirmou que ainda não há data prevista para a retomada das obras.
Em nota, a Camargo Corrêa afirmou que "esses atos de violência foram provocados pela ação criminosa e isolada de um grupo de vândalos". A empresa garantiu que é improcedente a informação de que reivindicações trabalhistas provocaram o incidente e reiterou que não recebeu dos trabalhadores qualquer solicitação dessa natureza.
O Palácio do Planalto mobilizou ontem três órgãos para manter conversas com trabalhadores, movimentos sociais, empresas e autoridades locais. A ordem é acompanhar de perto a situação em Jirau. O ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, conversou com o governador Moura e representantes da construtora Camargo Corrêa e da Tractebel, sócias da hidrelétrica. O Gabinete de Segurança Institucional passou a monitorar as ocorrências e o Exército entrou em prontidão. O ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, discutiu o assunto com prefeitos da região e representantes de sindicatos.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) informou que não tem como interferir no conflito em Jirau. A autarquia argumenta que trata-se de um problema trabalhista e que sua competência restringe-se a fiscalizar as obras. O Ministério do Trabalho não respondeu a pedidos de informação do GLOBO.
O Globo, 18/03/2011, Economia, p. 29
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