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Barragens de mineradora rompem, mar de lama soterra bairro e mata 17 em MG

OESP, Metrópole, p. A13-A14
06 de Nov de 2015

Barragens de mineradora rompem, mar de lama soterra bairro e mata 17 em MG
Tragédia em Mariana. Bombeiro relatou que 'a lama desceu como uma grande enxurrada, arrastando porcos, bois, gente e carro'. Buscas continuariam durante madrugada em Bento Rodrigues, com suspeita de soterrados; outras 75 pessoas ficaram feridas

Leonardo Augusto
ESPECIAL PARA O ESTADO
BELO HORIZONTE
José Maria Tomazela

Duas das três barragens de rejeitos da mineradora Samarco romperam-se ontem, por volta das i6h, entre Mariana e Ouro Preto, a 110 km de Belo Horizonte (MG). O distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, foi alagado. Até oh, foram confirmados 17 mortes e 75 feridos. A previsão dos bombeiros era de que o número de mortes chegasse a 40 - ainda havia desaparecidos e muitas pessoas a resgatar.
A tragédia deve transformar- se na mais grave na área ambiental do Estado. Até uma igreja histórica do século 18 e uma escola de ensino fundamental teriam sido atingidas. "Uma avalanche de lama destruiu casas, escola, igreja, posto de saúde e carros", relatou ao Estado o secretário de Saúde de Mariana, Juliano Duarte. "Muitos desabrigados estão alojados provisoriamente em uma escola."
"O distrito desapareceu, sumiu debaixo da lama", afirmou o prefeito de Mariana, Duarte Eustáquio Gonçalves Júnior (PPS), à Rádio Estadão. "Cheguei perto e eu vi a visão da inferno. Agente que conhece o lugar olhava e não via mais nada, casa, carro em cima de telhado."
Segundo o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, coordenador de Meio Ambiente do Ministério Público Estadual, a situação é catastrófica. "Ainda não há condições de saber o número total de mortos", disse. Uma avaliação completa só será possível na manhã de hoje.
O diretor-presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, confirmou o rompimento das Barragens de Fundão e Santarém. "O plano de emergência foi acionado e estamos dando toda a prioridade ao atendimento das pessoas e ao controle dos danos ambientais. As causas não podem agora ser confirmadas", disse.
Ontem, após o rompimento, a lama atingiu rapidamente o distrito de Bento Rodrigues, destruindo casas e encobrindo ruas e praças. Os serviços de energia elétrica e água foram afetados - não havia nem sinal de celular. Moradores das regiões de Paracatu e Paracatu de Baixo tiveram de deixar as casas, pois havia risco de serem atingidas pela lama de rejeitos.
Havia pessoas soterradas, conforme os bombeiros. Famílias estavam concentradas na frente do hospital de Mariana à espera de informações de parentes. Até o fim da noite, apenas os corpos de duas vítimas resgatadas - dois homens - haviam sido enviados para o Instituto Médico-Legal (IML) de Mariana para reconhecimento.
* O bombeiro Adão Severino Junior, do efetivo de Mariana, disse que "a lama desceu como uma grande enxurrada, arrastando tudo, levando porcos, bois, gente e carro". "Não tinha nada que resistisse. Teve casa que não sobrou parede." Segundo ele, às 21 horas ainda escorria lama dos pontos altos. "Há gente escondida no mato, tremendo de frio e fome. Nosso pessoal não quer suspender as buscas, pois pode ter gente viva no meio da lama", disse.
Três helicópteros dos bombeiros e das Polícias Militar e Civil seguiram para a região. As buscas avançariam pela madrugada e os desalojados estavam sendo levados para um ginásio esportivo de Mariana. Os moradores ainda organizaram um ponto de apoio ali para recolher donativos. Nas cidades de Ouro Preto e Santa Bárbara, voluntários arrecadavam roupas, alimentos e água para as famílias que estão desabrigadas e para auxiliar as equipes de socorro.
A população estimada de Bento Rodrigues, que fica a 25 km da região central do município, é de 620 pessoas, residentes em 200 casas, de acordo com os dados do governo do Estado.
Exército. Em nota oficial, o governador Fernando Pimentel (PT) afirmou ter recebido com "consternação a informação sobre o rompimento da barragem". Ele deverá visitar a região hoje. Já a presidente Dilma Rousseff foi informada do acidente pelo ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, e colocou o Exército, o Centro de Desastres e a Força Nacional à disposição para ajudar no socorro. O ministro da Integração Nacional, Gilberto Occhi, também deve seguir hoje para Mariana. / COLABOROU LUIZ VASSALLO

Mineradora é controlada por Vale e BHP

Mariana Durão / RIO

Fundada em 1977, a mineradora Samarco é atualmente controlada por duas gigantes do setor: a Vale (50%) e a anglo-australiana BHP Billiton (50%). Fabricante de pelotas - pequenas bolinhas de minério de ferro usadas na produção de aço -, a empresa é a 10.ª maior exportadora do País. Até o ano passado, tinha capacidade de produção de 22 milhões de toneladas de pelotas.
Ao todo a Samarco estima gerar cerca de 2,9 mil empregos diretos e 3,5 mil empregos indiretos.
Apesar de ser a segunda maior empresa global no segmento de pelotas, a Samarco também perdeu o grau de investimento da agência de classificação de risco Standard & Poor's, na esteira do rebaixamento da nota do Brasil. A mineradora manteve o selo de bom pagador concedido pelas agências Fitch e Moody's.

'Estou sem chão, ninguém informa nada', diz jovem de Mariana

Jamylle Mol - Especial para O Estado

Passadas cinco horas do acidente, a estudante Viviane Santos Martins, de 22 anos, ainda não havia conseguido falar com o pai e os tios que moram em Bento Rodrigues. Segundo a jovem, parentes e amigos que estão em Mariana já haviam tentado ligar e ir ao local, mas não havia acesso ao subdistrito, e os telefones registravam "fora de área".
"Estou tentando falar com o meu pai e os meus tios desde o rompimento da barragem e não consigo. Estou sem chão, tento conseguir notícias, mas ninguém sabe informar nada", diz. De acordo com a estudante, o clima em Mariana é de tristeza e preocupação. "Estão todos chorando aqui", comenta.
A aposentada Maria das Dores Silva, de 69 anos, também não tinha notícias da irmã, a professora Maria do Carmo, até as 20 horas desta quinta-feira, quando recebeu uma ligação dizendo que ela e a família estavam ilhadas e esperavam pelo resgate.
Maria do Carmo mora no subdistrito de Bento Rodrigues com o marido e os dois filhos há pouco mais de um ano e teve a sua casa totalmente inundada após o rompimento da barragem. "Entrei em desespero quando soube do que aconteceu. Estava na casa da minha filha e as pessoas começaram a me ligar contando sobre a barragem. Fiquei apavorada e com um aperto no peito só de pensar na minha irmã e nos meus sobrinhos", conta.
Os moradores de Mariana ainda organizaram um ponto de apoio no ginásio poliesportivo local para recolher donativos.

MP abre investigação sobre rompimento de barragem em MG
Para especialista, problemas de estrutura podem ter causado o acidente em Mariana; região é alvo de exploração desde o período colonial

MÔNICA REOLOM e DANIEL BRAMATTI - O Estado de S. Paulo

O Ministério Público Estadual de Minas abriu inquérito para apurar as causas do rompimento de uma barragem no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais. Até as 23h desta quinta, foram confirmadas 17 mortes. O promotor de Meio Ambiente Carlos Eduardo Ferreira Pinto disse nesta quinta-feira, 5, que "nenhuma barragem rompe por acaso, não é uma fatalidade".
Para especialistas, só problemas de estrutura podem ter causado a tragédia. É o que diz a professora de Engenharia de Minas Maria Luiza Souza, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "A barragem foi mal feita ou já estava com problema", afirma. Segundo ela, precisa ter havido "alguma besteira" na construção ou na manutenção da contenção. Também não foram registradas fortes chuvas na região.
Uma barragem de rejeitos serve para deter os resquícios que sobram do beneficiamento do minério. O material beneficiado é vendido para a indústria, enquanto os rejeitos são depositados na barragem.
A construção de uma contenção como essa é mais simples do que a de uma hidrelétrica, por exemplo, porque geralmente a empresa se aproveita das condições do terreno. O fundo de um vale pode servir de base para a barragem, enquanto as montanhas ao redor fazem o papel de represa. Os próprios rejeitos também podem ser misturados com cimento para formar uma estrutura firme ao redor de onde se pretende jogar os restos de minério.
O rejeito do minério de ferro, usado em Mariana, parece uma lama fina. Ao longo dos anos, a tendência é que essas substâncias sequem. "Se a barragem ainda está com muita água, quando rompe ela desce como um rio de lama. Provoca assoreamento de rios, vem varrendo tudo pela frente", explica Maria Luiza. "Se a lama está saturada de água, fica sem resistência nenhuma. Por ser um solo muito fino, isso vira um caudal (grande fluxo de lama)", diz.
A professora afirma que o rejeito de minério de ferro não oferece perigo à saúde porque não contém metais pesados nem componentes ativos que fazem mal. O maior perigo é assorear os rios da região e prejudicar o abastecimento de água.
Histórico. A região atingida pelo acidente é alvo de exploração desde o período colonial. O início da alteração data do século 18, com intenso desmatamento por mineradoras em busca, principalmente, de ferro.
A análise é da própria Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais. As informações constam de um relatório oficial elaborado em 2013 pela pasta, que atendeu a um pedido da empresa Samarco para aumentar a capacidade de armazenamento de rejeitos da Barragem do Fundão. A outorga tinha validade de seis anos e previa o aumento da pilha de rejeitos com uma barragem de até 152,5 metros.
A secretaria relata que o desmatamento foi intensificado. "As matas de grande porte foram fragmentadas e substituídas por eucaliptos."

OESP, 06/11/2015, Metrópole, p. A13-A14

http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,barragem-de-rejeitos-se-rom…

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