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"A barragem seria o início do extermínio da tribo"

Amazônia.org
Autor: Thais Iervolino
22 de mai de 2008

Durante encontro em Altamira, Kanawayuri Kamaiurá, índio da tribo Kamaiurá, que fica no Parque do Xingu, dá entrevista exclusiva para o Amazônia.org.br e fala sobre sua tribo, a hidrelétrica de Belo Monte e a importância da articulação dos índios para a garantia de seus direitos. Confira.

Kanawayuri Kamaiurá, mais conhecido pelos não-índios como Marcello, é um dos representantes da tribo Kamaiurá, que vive dentro do Parque do Xingu. Ele foi um dos 800 índios que participaram ativamente do Encontro Xingu Vivo para Sempre, realizado em Altamira até sexta-feira (23).

Ele possui 34 anos, tem quatro filhos e fala perfeitamente em português. Dentro do encontro, participou ativamente dos debates defendendo a união dos povos indígenas para o fortalecimento da luta contra a construção das barragens de Belo Monte e lançou o Movimento dos Povos Indígenas do Pix (Parque Indígena do Xingu), que pretende articular os índios para a discussão e garantia de seus direitos.

Em entrevista exclusiva ao Amazônia.org.br, Kanawayuri Kamaiurá fala um pouco de sua tribo, da importância do Xingu para as comunidades indígenas e nos conta um pouco mais sobre o movimento. Confira.

Amazônia.org.br: Como é a sua tribo?
Kanawayuri Kamaiurá - Ela é composta por cerca de 400 pessoas. Temos uma relação muito forte com a floresta, com o rio, animais, a terra e tudo isso é relacionado com a nossa religião, com a nossa cultura, nosso modo de viver.

Qual o papel da mulher dentro da sua tribo?
Kanawayuri Kamaiurá - A mulher tem a função de cuidar das questões da casa, a comida, a cozinha, a roça, a limpeza e também pode participar da pesca, da organização das festas. Há também aquelas que têm voz no planejamento do trabalho, na família, mas é raro que elas desempenhem um papel de liderança dentro da tribo.

E a função do homem?
Kanawayuri Kamaiurá - Nós temos que garantir, principalmente, a segurança alimentar. Também temos um papel político, de assegurar uma boa relação entre os integrantes da tribo e também entre nós e as tribos vizinhas. Dentro de nossa organização, dividimos as funções: pajé, raizero e por aí vai.

E você, qual o seu papel?
Kanawayuri Kamaiurá - Eu sou responsável pelas questões de políticas externas, a articulação com outras tribos e também com a comunidade não indígena. Para isso, estudei magistério no Parque Indígena do Xingu e também auxiliar de enfermagem. Agora estou fazendo um curso de gestão e saúde indígena.

Voltando à questão da segurança alimentar. Como está essa situação na sua tribo? Ela é garantida?
Kanawayuri Kamaiurá: No momento ela está 100% garantida. É claro que às vezes há casos de desnutrição, mas eles são raros. Hoje a gente tem terra, peixe, frutas...

E com a barragem do rio Xingu, essa situação muda?
Kanawayuri Kamaiurá: Sim. Nossa alimentação é baseada na pesca. Com a barragem, nós ficaríamos mais vulneráveis. Muitos peixes irão morrer, a quantidade e o tamanho deles irá diminuir, além do gosto que vai mudar. A barragem seria o início do extermínio da tribo, com ela não teríamos garantia de recursos.

Como está a relação da sua tribo com as outras da sua região?
Kanawayuri Kamaiurá: Acredito que a partir deste encontro ela será fortalecida. O encontro que teve há 20 anos não trabalhou essa relação entre as tribos, mas esse sim. Hoje, no encontro atual, estamos numa situação melhor, nos articulando de alguma forma.

Eu vim para lutar contra as hidrelétricas, não para provocar. Basta ter respeito e consciência de que estamos numa reunião, unidos.

Qual a sua opinião sobre o incidente que aconteceu terça-feira (20) com o representante da Eletrobrás?
Kanawayuri Kamaiurá - Foi um caso isolado. O representante não formou uma opinião estratégica, não foi cauteloso, não mostrou diálogo e foi infeliz nas suas colocações. Nós nunca cortamos a palavra de ninguém, sempre respeitamos a fala.

O que iríamos fazer é contornar a situação com palavras. Iríamos rebater suas falas com palavras. A reação da dança da guerra estava prevista como uma demonstração para mostrar que não estamos de acordo com essa construção. Mas houve um descontrole.

A Eletrobrás alguma vez entrou em contato com vocês para explicar o plano de construção da usina de Belo Monte? Ela tentou dialogar com a sua tribo?
Kanawayuri Kamaiurá - Não. Nenhuma vez.

Explique como é o movimento de indígenas que vocês lançaram no encontro.
Kanawayuri Kamaiurá - O Movimento dos Povos Indígenas do Pix [Parque Indígena do Xingu] busca pegar toda a bagagem, todo o sofrimento que a gente tem, toda a experiência que temos para discutir e conhecer todo o procedimento do licenciamento das hidrelétricas e assim, conscientizar nossa população.

Quando estamos parados, muitas vezes a informação que chega até nós é distorcida. A iniciativa da campanha, que é mobilizada pelos jovens, é sermos atores dessa conscientização para que a comunidade esteja preparada para discutir, debater e exigir seu direito dentro dos trâmites legais.

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