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Bando dá golpe em sem-terra no Pará

OESP, Vida, p. A25
18 de Nov de 2005

Bando dá golpe em sem-terra no Pará
Com apoio de madeireiros clandestinos, homem recruta pessoas para trabalhar e cobra para arranjar-lhes terra no Incra

Carlos Mendes
Especial para o Estado

Uma nova modalidade de crime ambiental vem sendo praticada no sudeste do Pará por uma quadrilha comandada por um homem identificado apenas por Eliezer, que se intitula líder de trabalhadores rurais sem-terra, também conhecidos como sem-tora. Ele anda sempre armado com uma pistola e um revólver calibre 38 pelas ruas do município de Portel e diz ter a proteção de políticos e policiais. Mas, ao que tudo indica, quem banca tudo são madeireiros que atuam na ilegalidade.
O golpe funciona assim: Eliezer recruta pessoas humildes em vários municípios do Pará e do Maranhão, prometendo-lhes conseguir terras da União no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Incentiva-as a invadir fazendas produtivas e, em parceria com madeireiros clandestinos, rouba toda a madeira nobre possível.
O que ocorre depois é que as pessoas arregimentadas ficam na área à espera da terra prometida (mas que já tem dono), criando um grave problema social para o governo resolver. Nessa empreitada criminosa, cujo objetivo é devastar a floresta amazônica, só quem lucra é Eliezer, que cobra por transporte, alimentação, cadastro e mensalidade dos trabalhadores, além dos madeireiros que financiam o esquema.
Segundo dissidentes do grupo de Eliezer, os sem-terra ou sem-tora são obrigados a se filiar à associação Conquistando Nossa Terra, criada pela quadrilha para dar um ar de legalidade ao golpe, e pagar todo mês uma taxa. Quem desistir é obrigado a ficar na área até ter dinheiro para pagar as despesas e a passagem de volta ao local de origem.
A quadrilha começou a atuar há cerca de quatro meses e o alvo inicial foi a Fazenda Jutaituba, do grupo mineiro Martins, em Portel (a 85 quilômetros de Tucuruí), que mantém na área imensa reserva florestal protegida por lei. Financiado por madeireiros clandestinos, Eliezer comprou um caminhão e saiu anunciando terra fácil, principalmente a desempregados e lavradores sem-terra.
INVASÃO
A notícia se espalhou e várias famílias se interessaram. Para ir ao local tiveram de pagar passagem, alimentação, cadastro para se habilitar às terras e a taxa da associação. A maioria dos arregimentados é dos municípios de Breu Branco e Dom Elizeu, no Pará, e de várias cidades do Maranhão. Segundo eles, cada pessoa pagou a Eliezer entre R$ 15 e R$ 150 para ser levada no caminhão dele até a entrada da fazenda.
Após reunir várias famílias, Eliezer as incentivou a invadir a fazenda, mas para espanto geral surgiram os madeireiros clandestinos com tratores, caminhões, motosserras e muitos homens armados, que começaram a tirar madeira nobre e levar para serrarias localizadas em Tucuruí, Breu Branco, Tailândia e Goianésia.
Uma operação conjunta do Ibama e Batalhão de Polícia Ambiental do Pará apreendeu máquinas pesadas e motosserras, mas nenhuma arma. Eliezer não foi preso. A polícia ficou no local por algum tempo e, quando foi embora, os sem-tora voltaram, comandados por ele. Conforme dissidentes da associação, Eliezer se gaba de ter amigos influentes e de ser dono de vários imóveis em Breu Branco e Tucuruí, além do caminhão.
A madeira roubada sai de caminhão pela estrada, principalmente à tarde e à noite, pois não há fiscalização do Ibama nem barreira policial, ou pelo Rio Pacajá, onde é grande o tráfego de balsas. "Se houvesse interesse do poder público, esse abuso não seria permitido", desabafou um trabalhador enganado pela quadrilha.

OESP, 18/11/2005, Vida, p. A25

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