O Globo, Ciência, p. 30
13 de Jul de 2011
Baleias novamente na mira
Reunião de 89 países discute legalização da caça aos cetáceos, proibida há 25 anos
Renato Grandelle
renato.grandelle@oglobo.com.br
Proibida há 25 anos, a caça às baleias pode voltar a ser legalizada esta semana na reunião da Comissão Internacional da Baleia (CIB), na ilha britânica de Jersey. A entidade, que reúne 89 países, assiste a uma divisão inédita no bloco dos conservacionistas - os contrários à permissão de caça aos cetáceos.
Estados Unidos e Nova Zelândia, que integram este grupo, tentam convencer seus aliados a concordar com uma cota para a matança dos mamíferos. A medida agradaria ao Japão, à Islândia e à Noruega, únicas nações no mundo que ainda perseguem as baleias.
A Austrália e o Grupo Buenos Aires - bloco de 13 países latinoamericanos, incluindo o Brasil - recusam-se a discutir a proposta.
Seria, segundo eles, abrir espaço para que outras nações voltem a pôr seus baleeiros no mar. China e Coreia do Sul, inclusive, já teriam acenado com esta possibilidade.
Já a União Europeia é mais reticente.
Considerada um bloco "menos radical" do que a América Latina em sua defesa de medidas ambientais, ela costuma se abster em questões que desagradem um de seus países-membros - e a Dinamarca nutre interesse pela caça no litoral da Groenlândia.
Fundamental para a cadeia alimentar
O grande vilão das baleias é o Japão. Em reuniões anteriores, o país asiático foi acusado de subornar nações africanas e caribenhas para que elas se posicionassem pela derrubada da proibição da caça. O país também estaria por trás da posição mais flexível dos EUA, outrora um notório opositor à matança nos mares.
- É uma chantagem - assegura Fábia Luna, chefe do Centro de Mamíferos Aquáticos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que participou do comitê científico da CIB. - A comissão internacional tolera a caça às baleias praticada por aborígines, mas impõe limites, renovados a cada cinco anos. É um assunto muito popular no Alasca. A próxima votação dessas cotas será no ano que vem. As autoridades japonesas disseram aos EUA que, se não os apoiassem na derrubada da proibição à caça comercial, não aprovariam as reivindicações aborígines americanas.
O Japão se aproveita de uma brecha na resolução da CIB para caçar baleias: de acordo com a entidade, pode-se retirar os cetáceos do oceano se houver "fins científicos".
- Os japoneses pegam a baleia, tiram fotos e abrem seu corpo para estudar os órgãos reprodutivos e sua alimentação - explica Fábia. - Levam a nadadeira para laboratório e, como o resto não interessa à pesquisa, mandam para o mercado.
Para coibir estes desvios, o Reino Unido quer garantir a presença de observadores da CIB nos navios de pesquisa. O Japão já teria se posicionado contra a proposta e avisou que, se ela for para frente, não arcará com os gastos extras.
Islândia e Noruega, por sua vez, sequer tentam esconder o propósito das incursões ao mar. Nestes países, a caça é comercial e a carne de baleia pode ser encontrada em qualquer supermercado.
- Falta uma percepção de como a baleia é importante para a preservação ambiental - condena Karina Groch, diretora de pesquisa do Projeto Baleia Franca no Brasil. - Sem o cetáceo, haverá uma superpopulação do crustáceo krill, seu alimento. E faltarão algas, das quais o krill se nutre.
O extermínio das baleias também é ruim para o clima, já que a fotossíntese das algas absorve o carbono da atmosfera e contribui para amenizar o efeito estufa, a elevação da temperatura na atmosfera.
Embora a pressão japonesa na comissão internacional tenha atingido proporções inéditas, o governo brasileiro - representado por dois diplomatas do Ministério de Relações Exteriores na reunião da CIB - acredita que o encontro, assim como no ano passado, terminará em um impasse. Assim, a proibição à caça de baleias completaria mais um ano.
Número aumenta no Brasil
Espécies ocupam costa do país entre julho e novembro
A proibição à caça de baleias fez bem àquelas que visitam o litoral brasileiro. Embora seis espécies continuem ameaçadas de extinção, suas populações aumentaram notoriamente. Em 1964, quando os baleeiros foram proibidos de perseguir as jubartes, havia apenas mil delas em todo o Hemisfério Sul.
Hoje, passam até 14 mil apenas por nossa costa.
A espécie, inclusive, está expandindo sua área de ocupação. Tradicionalmente encontrada entre o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Norte, ela tem sido vista até no Ceará e no Maranhão.
- É uma tendência que reflete como a população está crescendo - comemora Salvatore Siciliano, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz).
- A cadeia submarina de Vitória à Ilha de Trindade também é cada vez mais procurada por elas. O litoral brasileiro é área de cria e reprodução das espécies, que circulam por aqui entre julho e novembro. As mães procuram um ambiente mais quente do que as águas subantárticas, especialmente regiões com recifes de coral, para criarem com segurança os seus filhotes.
As baleias-francas, por terem uma camada de gordura muito grossa, preferem águas mais frias.
Por isso, limitam-se ao centro-sul do país. Cerca de 140 representantes da espécie deverão passar por ali nesta temporada reprodutiva, segundo estimativas do Projeto Baleia Franca.
O Globo, 13/07/2011, Ciência, p. 30
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