OESP, Metrópole, p. C1, C3
11 de Mai de 2012
Bairro que mais recicla lixo na capital reaproveita menos de 5% dos resíduos
ARTUR RODRIGUES, CAMILA BRUNELLI
Moradores da Vila Mariana, na zona sul, são os mais engajados na coleta seletiva em São Paulo. No bairro, 4,95% dos resíduos coletados vão parar nas centrais de triagem da Prefeitura. O índice é mais de quatro vezes maior do que a média da capital, de 1,2%, considerada baixíssima por especialistas.
Embora 22% do lixo seja reciclável, o desempenho da Vila Mariana quase chega à meta do governo federal para o Brasil: reciclar 5% do lixo em 2014, como determina a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Logo atrás, vêm Santo Amaro (4%), Pinheiros (3,5%) e Lapa (2,4%).
O resultado um pouco acima da média pode ser creditado a iniciativas individuais, como a da advogada Letícia Oliveira Cunha, de 33 anos, que já teve de correr atrás do caminhão do lixo para obter informações sobre reciclagem. "Um dia eu parei o caminhão da Ecourbis e perguntei quando eles passavam, porque ninguém informou nada", disse. Descobriu que o veículo passa às quartas-feiras.
O analista de Comunicação Cassius Guimarães, de 29 anos, se adaptou ao horário do catador de lixo que passa pela Vila Mariana, sempre entre as 18h e as 19h. "Já adquiri o hábito de levar o lixo para a rua nesse horário."
Demanda. Em São Paulo, o fato de um caminhão fazer a coleta do material reciclável não quer dizer que a reciclagem vai ocorrer. As centrais já não conseguem absorver a demanda. Faltam espaço, estrutura e mão de obra às cooperativas, que chegam a desprezar lixo separado.
Segundo as próprias concessionárias, cerca de 60% da coleta seletiva vai para o lixo comum. Além disso, por falta de informação, parte da população separa mal o lixo. Apenas 6,3% do coletado é passível de reciclagem.
O diretor da Coleta Seletiva da Amlurb (Autoridade Municipal de Limpeza Urbana), Valdecir Papazissis, afirmou que a Prefeitura pretende negociar com as concessionárias a expansão da coleta seletiva para toda a cidade. Também está prevista a criação de mais 11 centrais de triagem, ainda sem prazo de inauguração. Hoje, são 21. "Temos quatro em processo de licitação. E sete terrenos estão sendo desapropriados para mais sete", afirmou. / COLABOROU ADRIANA FERRAZ
Periferia paulistana segue sem coleta
Um quinto dos distritos da capital não tem nenhum atendimento pelo sistema municipal; todo o lixo coletado vai para os aterros sanitários
A periferia é desconsiderada pelo programa de coleta seletiva de lixo de São Paulo. Nas Subprefeituras de Parelheiros e M'Boi Mirim, na zona sul; Perus, na zona norte; e São Miguel e Ermelino Matarazzo, no lado leste da cidade, todo o lixo coletado oficialmente vai para aterros - o que significa que 21 dos 96 distritos da capital não têm nenhum atendimento do sistema municipal.
Entre as 31 subprefeituras, 20 separam menos de 1% do coletado. E muitas vezes o que impede que se desperdice tudo são catadores informais. Na lanchonete onde a operadora Dilma dos Santos, de 38 anos, trabalha, em Perus, por exemplo, os materiais recicláveis são recolhidos por um caminhão informal que passa periodicamente no bairro. "Nossa quantidade de lixo passou a ser muito menor depois que passamos a reciclar. Economizamos até em sacos plásticos."
Representante do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), Roberto Laureano Rocha defende a criação de contratos localizados para minimizar o problema.
De acordo com ele, a cidade tem 21 centrais de triagem, mas precisa de pelo menos 70. No entanto, observa que falta diálogo com a administração municipal. "Precisamos de vontade política", afirma Rocha.
O urbanista Nabil Bonduki, que coordenava a política de resíduos sólidos do governo federal até o mês passado, afirma que mudar a atual situação envolve muitas questões. Além do aumento do espaço de triagem, é necessário espalhar postos de coleta por toda a cidade.
"Além de melhorar a infraestrutura, é preciso ser feito um trabalho mais profundo nas escolas, nas entidades da sociedade. Precisa haver um processo de educação continuada para que isso possa acontecer", afirma Bonduki. A educação também é importante para aumentar o porcentual de material separado que poderá ser realmente aproveitado para a reciclagem, segundo ele. Bonduki cita como exemplo positivo nessa área a cidade de Londrina (PR), que atingiu o índice de reciclagem de 19% do lixo produzido. /ARTUR RODRIGUES
Não existe política pública metropolitana
Análise: Carlos Bocuhy
Não existe uma política pública metropolitana para a destinação dos resíduos sólidos. Essa ausência pode ser notada na diferença de índice de coleta entre os bairros paulistanos.
Há maior índice de coleta em locais onde há mais iniciativas individuais. Essa maior incidência de reciclagem acontece em bairros com melhores índices educacionais, onde há mais preocupação ambiental. Já os locais com pior índice de educação também enfrentam maiores problemas de degradação.
A lei que estabelece a Política Nacional de Resíduos Sólidos foi sancionada no ano passado. No entanto, a comissão para implementação dessa política não prevê sequer a participação da sociedade civil. Existe uma carta de intenções, mas não se coloca a mão na massa.
Entre as metas estabelecidas no ano passado está acabar com lixões e criar o envolvimento do setor privado para que a produção se adapte ao modelo de sustentabilidade. Com isso, se estabeleceria a responsabilidade do produtor pela vida útil do produto, cabendo a quem lucra também a destinação final.
Atualmente, as cooperativas também têm papel importante na reciclagem do lixo. Essa prática deveria ser estendida o máximo possível, com apoio do poder público.
É do Conselho Nacional do Meio Ambiente
OESP, 11/05/2012, Metrópole, p. C1, C3
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