O Globo, Rio, p. 17
19 de Ago de 2008
Baía recebe 80 toneladas de lixo flutuante por dia
Barcos de coleta e ecobarreiras não dão conta de tudo que é jogado no mar: plásticos, sofás e até geladeiras
Tulio Brandão
As cinco ecobarreiras e os três barcos usados para tentar conter o lixo flutuante da Baía de Guanabara retiram da água, com esforço, cerca de sete toneladas de resíduos por dia.
Mas, diante da imensidão de plásticos, garrafas PET, sofás, pedaços de madeira, geladeiras velhas, tubos de imagem de TV e até cadáveres boiando, as iniciativas da Secretaria estadual do Ambiente se comparam a pano que enxuga gelo. De acordo com o geógrafo Elmo Amador, professor aposentado da UFRJ e especialista nos ecossistemas da região, o volume médio de lixo flutuante expelido pelos rios que desembocam na Baía é de 80 toneladas por dia.
Ele explica que o volume de resíduos varia de dez toneladas por dia, em dias mais estáveis, a até 200 toneladas por dia, em condições extremas de chuva e maré. Para Amador, as ações realizadas pelo estado para conter a onda de resíduos são paliativas, mas importantes: - A Serla (Superintendência Estadual de Rios e Lagoas) faz um trabalho importante, mas com eficiência muito baixa. O estado precisa ir além das ações isoladas para resolver isso. Precisa dispor de um plano que contemple um sistema de coleta de lixo mais efetivo nas comunidades existentes às margens das bacias, rastrear os resíduos que chegam à baía, para, aí sim, dimensionar a necessidade de barcos e ecobarreiras, além de outros instrumentos de combate.
Também o fundo da baía está coberto de sujeira
O geógrafo alerta as autoridades sobre os resíduos que já afundaram e, atualmente, cobrem o fundo da baía:
- São pelo menos 20 quilômetros quadrados de fundo completamente perdido, revestido com plástico e outros materiais, a ponto de não existir mais peixe, nada. A retirada desse lixo é ainda mais delicada que a do que flutua. Requer mais tecnologia.
Já sobram problemas aparentes no meio ambiente. Os resíduos sólidos que estão na superfície comprometem os parcos remanescentes de manguezal ainda existentes na baía. O biólogo Mário Moscatelli, pesquisador do ecossistema, trabalha na conservação de alguns mangues do local. Ele explica como o lixo tem ação devastadora:
- Nos manguezais existentes perto dos rios São João de Meriti e Sarauí/Iguaçu, a quantidade de isopor e plástico impressiona. Há pelo menos 15 centímetros de profundidade desses materiais no sedimento do manguezal, o que o impermeabiliza quase completamente. Isso, somado às variações de vento e maré, desestabiliza e derruba as árvores. Já registrei diversas perdas de área nos mangues.
Moscatelli acredita que as ecobarreiras são subdimensionadas para o volume de lixo gerado nos municípios do entorno da baía. Em visita ao Rio São João de Meriti, na última quinta-feira, ele constatou que o equipamento estava parcialmente rompido. Assim mesmo, funcionários da Serla trabalhavam na coleta de lixo.
- O governo do estado deveria pensar numa outra tecnologia para barrar o avanço do lixo, com um sistema de coleta automático, além, é claro, de investir na coleta do lixo - disse.
Atualmente, segundo a Serla, há cinco ecobarreiras instaladas no entorno da baía, nos rios Irajá, São João de Meriti e dos Cachorros, e nos canais do Cunha e do Mangue. Outros dois equipamentos serão instalados do outro lado, em Niterói e São Gonçalo, nos rios Brandoas e Maruí. A secretária estadual do Ambiente, Marilene Ramos, informa que as cinco ecobarreiras instaladas coletam 160 toneladas por mês.
Nas águas da baía, graças a um convênio com a associação de supermercados - para fazer valer a lei estadual que determina que os distribuidores de embalagens plásticas sejam obrigados a recolher 25% do total distribuído - duas traineiras e um catamarã retiram diariamente cerca de uma tonelada de lixo.
A secretária considera as duas medidas importantes, mas reconhece não serem suficientes para acabar com o problema. Ela anuncia que vai se reunir com representantes dos municípios da Baixada Fluminense que lançam resíduos nos rios da baía para propor a participação no plano diretor de resíduos sólidos:
- Vamos conversar com São João de Meriti, São Gonçalo e outros municípios para financiar aterros sanitários. Em contrapartida, vamos exigir performance na coleta de lixo e na destinação dos resíduos.
Isso vai reduzir o lixo flutuante nas margens dos rios e, por conseqüência, na baía.
O presidente da Serla, Luiz Firmino, também mira na educação ambiental. Ele explica que, em cada ecobarreira, há um posto chamado ecoponto, onde os moradores das comunidades próximas podem deixas as garrafas PET:
- Descobrimos que a população já entrega duas vezes mais garrafas que o volume coletado nas ecobarreiras. Isso mostra que a educação ambiental, aos poucos, ganha corpo - disse.
Perigo para a navegação e atletas
Embarcações de passageiros e esportivas sofrem avarias nos cascos, lemes e hélices
O lixo que flutua sem rumo pela Baía de Guanabara não causa apenas danos ambientais. A navegação de barcos de transporte de passageiros e esportivos também é constantemente afetada pelos resíduos sólidos.
De acordo com o superintendente das Barcas S/A, Luís Eduardo Marinho, as embarcações da companhia, que fazem cinco rotas dentro da baía, vão para o estaleiro pelo menos uma vez por mês devido às avarias causadas pelo choque com madeira, sofás e outros detritos de grande porte:
- Costuma afetar cascos, lemes e hélices. Às vezes, os barcos ficam dez dias fora de operação. Além disso, o lixo flutuante compromete o sistema de refrigeração a água dos motores das embarcações. É comum ter que parar os barcos durante o dia para retirar detritos do sistema e, assim, evitar o superaquecimento.
No iatismo, o lixo não precisa ser grande para provocar enormes prejuízos. Muitas vezes, pequenos pedaços de plástico são suficientes para tirar da raia um competidor. Foi o que aconteceu com o iatista Alan Adler durante um mundial da classe Star na baía, há alguns anos:
- Meu barco estava na liderança quando um saco plástico prendeu no leme. Não consegui tirálo a tempo e perdi a regata - conta Adler.
Os resíduos sólidos podem atrapalhar até o sonho olímpico do Rio de Janeiro, já que a cidade é candidata finalista aos Jogos de 2016 e, entre as contrapartidas ambientais exigidas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), há uma que trata de gerenciamento de lixo e outra de qualidade da água.
Há quem transforme uma pequena parte dos resíduos sólidos deixados na baía em solução criativa. O artista plástico Antônio Varela transforma pedaços de madeira levados pela correnteza até a Praia da Guanabara, na Ilha do Governador, em esculturas. As obras chamaram tanta atenção que estão expostas, desde a semana passada, na estação Charitas da Barcas S/A, e são vendidas por até R$ 700.
- Reparava nas madeiras em várias formas que apareciam na areia até que, um dia, resolvi catá-las e transformá-las. Hoje, já tenho 281 obras catalogadas em madeira - diz Antônio.
O Globo, 19/08/2008, Rio, p. 17
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