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A Baía paga o preço do descaso e da má gestão

O Globo, Opinião, p. 18
30 de Ago de 2014

A Baía paga o preço do descaso e da má gestão
A se manter o panorama, que mostra uma bacia degradada e sujeita a agressões em escala exponencial, corre-se o risco de o Rio promover provas olímpicas em água poluída

Vista do alto, a Baía de Guanabara encanta o mundo, pela harmonia de suas belezas naturais. Mas, descendo-se aos detalhes do espelho d'água, o que fica patente é que ela paga um preço alto como resultado da junção de agressões permanentes - e em escala exponencial - a décadas de descaso com a sua preservação.
Com longos trechos degradados, vítima de poluição em extensas áreas, a Baía espalha suas águas por 15 municípios, onde moram 8,46 milhões de pessoas.
É um mundo em que o programa de saneamento em curso, apesar de obter avanços (recuperação da balneabilidade em praias tradicionalmente proibidas ao banho, aumento do volume de despoluição etc.), ainda se ressente de resultados mais abrangentes, e as conquistas, pressionadas por leniência do poder público, parecem submergir num mar de esgoto, lama e lixo que se acumulam nos grandes trechos não tratados.
Em 1994, o governo estadual lançou, com o apoio de organismos internacionais, o mais ambicioso plano de saneamento da bacia. Vinte anos depois, como mostra a série de reportagens desta semana no GLOBO, o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG) consumiu quase R$ 3 bilhões, entre financiamentos externos e dinheiro público, e os objetivos estruturais, que visavam, se não a extinguir todas as mazelas, mas a reduzi-las a indicadores palatáveis, estão longe de serem atingidos.
Suas águas ainda recebem uma quantidade inaceitável de esgoto não tratado. São 18.400 litros por segundo - três vezes mais em relação à capacidade das oito estações de tratamento construídas ou reformadas desde 1998, segundo cálculo de especialistas ouvidos na reportagem. Duas décadas de PDBG, durante oito governos, não foram suficientes para alcançar plenamente as metas relativas não só a essa rubrica, mas também no que diz respeito ao abastecimento de água e gestão do lixo. A principal delas era tratar o equivalente a 58% da carga orgânica despejada in natura no mar em 1999, mas as estações que deveriam dar conta disso operam, em média, com metade da capacidade projetada. É pouco para o tamanho do problema.
O PDBG encerra uma lição, não restrita à Baía, mas que nela se encaixa à perfeição: não basta despejar dinheiro em obras e destinar-lhes infindáveis projetos. Pelos números grandiosos, a bacia os teve em quantidades generosas. Mas pecou-se pelo essencial - a gestão eficiente do programa. Gastou-se com saneamento, mas, grosso modo, não se cuidou de evitar que o esgoto fluísse livremente para as águas, para o quê seria necessário construir redes eficientes de coleta e/ou aperfeiçoar os canais de conexão com as residências. A Baía continua doente. Mantidas as atuais condições, corre-se enorme risco de o Rio patrocinar o vexame de, pela primeira vez desde 1988, em Seul, provas olímpicas serem disputadas em águas poluídas.

O Globo, 30/08/2014, Opinião, p. 18

http://oglobo.globo.com/opiniao/a-baia-paga-preco-do-descaso-da-ma-gest…

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