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Bagaço da cana gera energia

CB, Economia, p. 14
02 de Mai de 2007

Bagaço da cana gera energia
Sobra da produção de álcool e açúcar é colocada em caldeiras e transformada em eletricidade. Usineiros vendem energia, com lucro, às distribuidoras que abastecem as cidades do Centro-Oeste

Luciano Pires
Enviado especial

O bagaço da cana é um produto tão valorizado quanto o álcool e o açúcar. Queimado às toneladas em caldeiras gigantes, o expurgo produz o vapor que, transformado em energia elétrica, garante não só auto-suficiência às usinas, como um excedente bastante rentável que atende ao mercado e abastece as cidades. Na quarta e última reportagem especial sobre a cana-de-açúcar no Centro-Oeste, o Correio mostra como a fonte energética é aproveitada pelo setor sucroalcooleiro.

Com um investimento relativamente modesto, qualquer destilaria agrega a fabricação da própria energia ao processo produtivo. Trata-se de cogeração. Há vantagens econômicas e ambientais nessa prática, por isso o governo federal incentiva a energia que vem da biomassa.

Jayme Buarque de Hollanda, diretor-geral do Instituto Nacional de Eficiência Energética (Inee), diz que a cana produz os açúcares necessários para a obtenção do álcool e do açúcar, mas também uma enormidade de material que, em termos energéticos, equivale a duas vezes o proporcionado pela parte química. "Essa energia é altamente competitiva, mas só agora a ficha está caindo. A grande revolução está na cana, não no álcool", explica.

O Inee é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos, que estimula o debate sobre o uso eficiente de todas as formas de energia. A entidade apóia a criação de normas, regulamentos e legislação específicos, e ainda propõe programas e projetos. De acordo com Hollanda, o país está diante do "ponto da virada".

Algumas usinas atentaram para a importância do bagaço antes das outras e já há alguns anos buscam ampliar a cogeração. Em Mato Grosso, por exemplo, existem indústrias onde a energia a partir do bagaço (vendida no mercado) representa quase 20% de toda a receita. A média nacional é de 9% de representatividade sobre o que é apurado com a moagem da cana. No estado de São Paulo, chegar a 7% é considerado um rendimento formidável. Em Goiás, o processo se consolidou nos últimos três anos.

Estímulo
Consultorias especializadas e governos estaduais indicam que apenas 10% das usinas do país - dentro de um universo de 357 unidades - vendem energia excedente. O consumo de subsistência é de cerca de 2,5 mil megawatts de energia. Outros mil megawatts são comercializados. Diante da supersafra de cana prevista para este ano, e do avanço dos novos projetos, o potencial é estimado em 10 mil megawatts - duas vezes a potência da Usina Belo Monte, no Pará, a maior obra hidrelétrica prevista no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), anunciado no início do ano pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) oferece linhas de crédito voltadas a empreendimentos de cogeração de eletricidade a partir do bagaço da cana-de-açúcar. Investimentos privados se somam a esse incentivo oficial, totalizando aproximadamente R$ 5 bilhões que já foram ou estão sendo aplicados para este fim nas indústrias.

As perspectivas são tão positivas que ampliar a co-geração resultante da queima do bagaço passou a ser prioridade das usinas. Muitas projetam para os próximos cinco anos pesados investimentos no reforço da infra-estrutura e na contratação de consultores. "Deixar de apostar nessa eletricidade é virar as costas para um rendimento importante. O bagaço virou produto. Se antes tínhamos álcool e açúcar, agora a cana nos oferece mais um", afirma um executivo de uma grande destilaria. Além do bagaço, a empresa sediada no Centro-Oeste investe em pesquisas que apontarão, no futuro, se é ou não viável extrair etanol da palha da cana-de-açúcar. "Estamos atirando para todos os lados. Não dá para perder tempo", completa.

O elo perdido

Uma espécie de elo perdido do ciclo da cana-de-açúcar em Mato Grosso adormece praticamente intacto a 55 km de Cuiabá (MT). A usina Itaicy, construída em 1897, mantém quase todo o maquinário utilizado na época para a produção de açúcar e cachaça preservado. Protagonista de uma história que se confunde com o início do período de industrialização no estado, a Itaicy foi adotada por um grupo de empresários que pretende restaurá-la. O projeto encontra-se em fase de captação de recursos.

Às margens do rio que leva o mesmo nome da capital matogrossense, a velha usina conta com um imponente edifício erguido em três níveis inspirado no estilo neoclássico alemão. A chaminé de 57 metros de altura prova que seu fundador, Antônio Paes de Barros (1851-1906), não economizou ao tentar impressionar os adversários políticos. Ao redor da usina, a pequena vila formada por alojamentos de operários, igreja, casa grande, escola, escola de música, farmácia e até biblioteca chegou a movimentar 5 mil pessoas por dia.

As principais estruturas ainda estão de pé. Algumas delas, inclusive, guardam os móveis originais. Na usina, funcionou uma das primeiras lâmpadas elétricas de Mato Grosso. Historiadores contam que a "inauguração" foi prestigiada por importantes personalidades. A luz, obtida a partir da queima do bagaço da cana-de-açúcar, inaugurou um modelo de cogeração mantido (em sua essência) até os dias de hoje nas novas unidades que se alastram pelo país.

A cana plantada ao redor da usina viajava por 15 km de trilhos - os vagões eram puxados a burro - até chegar ao prédio principal para ser processada. Os equipamentos, as técnicas de isolamento térmico e as ferramentas utilizadas foram trazidos da Alemanha - e eram consideradas de última geração.

A Itaicy chegou a ter moeda própria. No livro A visão dos vencidos, de Paulo Pitaluga Costa e Silva - referência no tema -, o autor descreve: "Era tal a seriedade e a confiança em seu estabelecimento industrial, que em Cuiabá e nas localidades do Rio Abaixo, e ainda nas fazendas e propriedades adjacentes à Usina Itaicy, os valores metálicos cunhados em Buenos Aires (Argentina), nos valores de duas e uma tarefa e meia de cana (espécie de unidade monetária), eram plenamente aceitos e faziam as vezes de meio circulante".

Provavelmente um dos últimos funcionários da Itaicy, Manuel Oliveira de Almeida, o Mané Baiano, lembra que o canavial ficava na beira do Rio Cuiabá. "A gente trabalhava na água", diz. "Naquela época, ninguém pensava em segurança. Diziam que em Mato Grosso dava para juntar dinheiro com rastelo", completa. Mané Baiano deixou a usina em 1957 e atualmente vive em Nova Olímpia, a 210km de Cuiabá. A Itaicy funcionou até 1960.

Para chegar até a usina é preciso alugar um barco e navegar por cerca de 20 minutos, depois de um trecho de asfalto e outro de estrada de terra. Com a proposta de restauração, a Itaicy deverá se transformar em destino turístico e também em um museu ao ar livre. "Todo mundo que trabalha com cana, até os patrões, deveria ser obrigado a conhecer a história da Itaicy. Não dá para pensar em cana e não lembrar dela", resume Mané Baiano. (LP)

CB, 02/05/2007, Economia, p. 14

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